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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Um governo para a Zona Euro - I


Fabrice Dimier/Bloomberg


Hoje, durante um encontro em Paris, a chanceler Ângela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy elaboraram uma proposta que vão apresentar aos restantes líderes europeus. Já se conhecem os seguintes pontos:
  • Criação de um Governo económico na Zona Euro, formado pelos líderes dos 17 países e presidido pelo belga Herman Van Rompuy, actual presidente do Conselho Europeu.
  • Fixação de um limite máximo para o endividamento público de todos os países da Zona Euro, inscrito nas respectivas Constituições até ao fim do Verão de 2012.
  • Criação de uma taxa sobre as transacções financeiras, i.e. sobre os movimentos internacionais de capitais.

Sobre a fixação de um tecto para a dívida pública, que a Alemanha adoptou em 2009, a chanceler Merkel declarou:
"É um passo corajoso. Se no passado o tivéssemos feito, não teríamos tantos problemas hoje (...) Hoje estamos a fazer propostas para reforçar a confiança no euro", acrescentando que os limites de endividamento devem ser controlados por órgãos nacionais, não apenas europeus, independentes dos Governos no poder.
A quem o diz. Se algum órgão nacional tivesse conseguido controlar o despesismo dos governos Sócrates, esta catástrofe não tinha ocorrido.

Quanto às obrigações europeias — eurobonds —, a chanceler esclareceu: "A Europa ainda não está aí (...) Vivemos em democracia, é bom que haja discussões. Mas às vezes as pessoas procuram uma solução para pôr termo de uma vez à crise, e vamos resolver esta crise, mas passo a passo".
E o próximo passo será garantir que o endividamento público será reduzido no futuro, impondo um “travão” de natureza constitucional.

Ah, a chanceler Merkel não aceita que a Zona Euro se endivide como sucedeu aos Estados Unidos que têm uma dívida astronómica, 8% da qual nas mãos da China, que já é a segunda maior economia mundial...
Temos estadista.


países da UE que pertencem à Zona Euro (17): Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslováquia,
Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Países
Baixos, Portugal.
países da UE que pretendem pertencer à Zona Euro (8): Bulgária, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia,
República Checa, Roménia, Suécia.
países da UE com uma derrogação de pertença à Zona Euro (Reino Unido)
países da UE com uma derrogação que pode ser abolida por futuro referendo (Dinamarca)
países fora da UE com acordo para usar o euro (Mónaco, S. Marino, Vaticano)
países/regiões fora da UE que usam o euro, sem acordo (Andorra, Montenegro, Kosovo, Norte
de Chipre)


Edifício Europa, Bruxelas, futura sede do Conselho Europeu, que é composto pelos líderes dos 27 Estados membros da UE.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Medina Carreira e o "Fim da ilusão"


Na apresentação do seu livro "O fim da ilusão", Medina Carreira, ex-ministro das Finanças, afirmou que Portugal vai ter que "renegociar a dívida e arrumar a casa para atrair investimento".





Defendeu medidas de proteccionismo face aos países emergentes como a China, pois caso contrário "as indústrias manufactureiras desaparecem todas" da Zona Euro onde o desemprego "foi de 8 ou 9%, o que é uma brutalidade" e concluiu que "a Europa está a perder tudo e não dá trabalho aos da casa".


sexta-feira, 10 de junho de 2011

10 de Junho de 2011


As comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas decorreram na cidade de Castelo Branco por decisão do Presidente da República que quis chamar a atenção para o esquecimento a que tem sido votado o interior de Portugal e as potencialidades do meio rural para melhorar a situação económica e financeira do País:

"Portugal importa hoje cerca de 6 mil milhões de euros de bens agrícolas para consumo, sendo que as nossas exportações chegam apenas aos 3 mil milhões de euros. Um défice alimentar destas dimensões não tem razão de ser num país como o nosso. Esta situação não pode continuar. Temos de desenvolver um programa de repovoamento agrário do interior, criando oportunidades de sucesso para jovens agricultores."


Passemos ao discurso de António Barreto. Era o presidente da comissão organizadora das comemorações do 10 de Junho, nomeado pelo Presidente da República, e já se ouvem vozes de virgens ofendidas a clamar que o seu discurso “ofendeu a dignidade e solenidade do acto e a do próprio Presidente da Republica a quem devia lealdade”.
Não vamos alimentar polémicas estéreis com parasitas políticos. Retirando a contradição inicial, trata-se de um discurso límpido e uma boa peça literária que aborda o gravíssimo problema ético que conduziu o País à falência. Vamos transcrevê-lo, sublinhando as ideias que consideramos fundamentais:

"Nada é novo. Nunca! Já lá estivemos, já o vivemos e já conhecemos. Uma crise financeira, a falência das contas públicas, a despesa pública e privada, ambas excessivas, o desequilíbrio da balança comercial, o descontrolo da actividade do Estado, o pedido de ajuda externa, a intervenção estrangeira, a crise política e a crispação estéril dos dirigentes partidários. Portugal já passou por isso tudo. E recuperou. O nosso país pode ultrapassar, mais uma vez, as dificuldades actuais. Não é seguro que o faça. Mas é possível.

Tudo é novo. Sempre! Uma crise internacional inédita, um mundo globalizado, uma moeda comum a várias nações, um assustador défice da produção nacional, um insuportável grau de endividamento e a mais elevada taxa de desemprego da história. São factos novos que, em simultâneo, tornam tudo mais difícil, mas também podem contribuir para novas soluções. Não é certo que o novo enquadramento internacional ajude a resolver as nossas insuficiências. Mas é possível.

Novo é também o facto de alguns políticos não terem dado o exemplo do sacrifício que impõem aos cidadãos. A indisponibilidade para falarem uns com os outros, para dialogar, para encontrar denominadores comuns e chegar a compromissos contrasta com a facilidade e o oportunismo com que pedem aos cidadãos esforços excepcionais e renúncias a que muitos se recusam. A crispação política é tal que se fica com a impressão de que há partidos intrusos, ideias subversivas e opiniões condenáveis. O nosso Estado democrático, tão pesado, mas ao mesmo tempo tão frágil, refém de interesses particulares, nomeadamente partidários, parece conviver mal com a liberdade. Ora, é bom recordar que, em geral, as democracias, não são derrotadas, destroem-se a si próprias!

Há momentos, na história de um país, em que se exige uma especial relação política e afectiva entre o povo e os seus dirigentes. Em que é indispensável uma particular sintonia entre os cidadãos e os seus governantes. Em que é fundamental que haja um entendimento de princípio entre trabalhadores e patrões. Sem esta comunidade de cooperação e sem esta consciência do interesse comum nada é possível, nem sequer a liberdade.

Vivemos um desses momentos. Tudo deve ser feito para que estas condições de sobrevivência, porque é disso que se trata, estejam ao nosso alcance. Sem encenação medíocre e vazia, os políticos têm de falar uns com os outros, como alguns já não o fazem há muito. Os políticos devem respeitar os empresários e os trabalhadores, o que muitos parecem ter esquecido há algum tempo. Os políticos devem exprimir-se com verdade, princípio moral fundador da liberdade, o que infelizmente tem sido pouco habitual. Os políticos devem dar provas de honestidade e de cordialidade, condições para uma sociedade decente.

Vivemos os resultados de uma grave crise internacional. Sem dúvida. O nosso povo sofre o que outros povos, quase todos, sofrem. Com a agravante de uma crise política e institucional europeia que fere mais os países mais frágeis, como o nosso. Sentimos também, indiscutivelmente, os efeitos de longos anos de vida despreocupada e ilusória. Pagamos a factura que a miragem da abundância nos legou. Amargamos as sequelas de erros antigos que tornaram a economia portuguesa pouco competitiva e escassamente inovadora. Mas também sofremos as consequências da imprevidência das autoridades. Eis por que o apuramento de responsabilidades é indispensável, a fim de evitar novos erros.

Ao longo dos últimos meses, vivemos acontecimentos extraordinários que deixaram na população marcas de ansiedade. Uma sucessão de factos e decisões criou uma vaga de perplexidade. Há poucos dias, o povo falou. Fez a sua parte. Aos políticos cabe agora fazer a sua. Compete-lhes interpretar, não aproveitar. Exige-se-lhes que interpretem não só a expressão eleitoral do nosso povo, mas também e sobretudo os seus sentimentos e as suas aspirações. Pede-se-lhes que sejam capazes, como não o foram até agora, de dialogar e discutir entre si e de informar a população com verdade. Compete-lhes estabelecer objectivos, firmar um pacto com a sociedade, estimular o reconhecimento dos cidadãos nos seus dirigentes e orientar as energias necessárias à recuperação económica e à saúde financeira. Espera-se deles que saibam traduzir em razões públicas e conhecidas os objectivos das suas políticas. Deseja-se que percebam que vivemos um desses raros momentos históricos de aflição e de ansiedade colectiva em que é preciso estabelecer uma relação especial entre cidadãos e governantes. Os Portugueses, idosos e jovens, homens e mulheres, ricos e pobres, merecem ser tratados como cidadãos livres. Não apenas como contribuintes inesgotáveis ou eleitores resignados. É muito difícil, ao mesmo tempo, sanear as contas públicas, investir na economia e salvaguardar o Estado de protecção social. É quase impossível. Mas é possível. É muito difícil, em momentos de penúria, acudir à prioridade nacional, a reorganização da Justiça, e fazer com que os Juízes julguem prontamente, com independência, mas em obediência ao povo soberano e no respeito pelos cidadãos. É difícil. Mas é possível.

O esforço que é hoje pedido aos Portugueses é talvez ímpar na nossa história, pelo menos no último século. Por isso são necessários meios excepcionais que permitam que os cidadãos, em liberdade, saibam para quê e para quem trabalham. Sem respeito pelos empresários e pelos trabalhadores, não há saída nem solução. E sem participação dos cidadãos, nomeadamente das gerações mais novas, o esforço da comunidade nacional será inútil.

É muito difícil atrair os jovens à participação cívica e à vida política. É quase impossível. Mas é possível. Se os mais velhos perceberem que de nada serve intoxicar a juventude com as cartilhas habituais, nem acreditar que a escola a mudará, nem ainda pensar que uma imaginária "reforma de mentalidades" se encarregará disso. Se os dirigentes nacionais perceberem que são eles que estão errados, não as jovens gerações, às quais faltam oportunidades e horizontes. Se entenderem que o seu sistema político é obsoleto, que o seu sistema eleitoral é absurdo e que os seus métodos de representação estão caducos.

Como disse um grande jurista, “cada geração tem o direito de rever a Constituição”. As jovens gerações têm esse direito. Não é verdade que tudo dependa da Constituição. Nem que a sua revisão seja solução para a maior parte das nossas dificuldades. Mas a adequação, à sociedade presente, desta Constituição anacrónica, barroca e excessivamente programática afigura-se indispensável. Se tantos a invocam, se tantos a ela se referem, se tantos dela se queixam, é porque realmente está desajustada e corre o risco de ser factor de afastamento e de divisão. Ou então é letra morta, triste consolação. Uma nova Constituição, ou uma Constituição renovada, implica um novo sistema eleitoral, com o qual se estabeleçam condições de confiança, de lealdade e de responsabilidade, hoje pouco frequentes na nossa vida política. Uma nova Constituição implica um reexame das relações entre os grandes órgãos de soberania, actualmente de muito confusa configuração. Uma Constituição renovada permitirá pôr termo à permanente ameaça de governos minoritários e de Parlamentos instáveis. Uma Constituição renovada será ainda, finalmente, o ponto de partida para uma profunda reforma da Justiça portuguesa, que é actualmente uma das fontes de perigos maiores para a democracia. A liberdade necessita de Justiça, tanto quanto de eleições. Pobre país moreno e emigrante, poderás sair desta crise se souberes exigir dos teus dirigentes que falem verdade ao povo, não escondam os factos e a realidade, cumpram a sua palavra e não se percam em demagogia!

País europeu e antiquíssimo, serás capaz de te organizar para o futuro se trabalhares e fizeres sacrifícios, mas só se exigires que os teus dirigentes políticos, sociais e económicos façam o mesmo, trabalhem para o bem comum, falem uns com os outros, se entendam sobre o essencial e não tenham sempre à cabeça das prioridades os seus grupos e os seus adeptos.

País perene e errante, que viveste na Europa e fora dela, mas que à Europa regressaste, tens de te preparar para viver com metas difíceis de alcançar, apesar de assinadas pelo Estado e por três partidos, mas tens de evitar que a isso te obrigue um governo de fora.

País do sol e do Sul, tens de aprender a trabalhar melhor e a pensar mais nos teus filhos.

País desigual e contraditório, tens diante de ti a mais difícil das tarefas, a de conciliar a eficiência com a equidade, sem o que perderás a tua humanidade. Tarefa difícil. Mas possível.
"


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Temos um Governador no Banco de Portugal


Carlos Costa, governador do Banco de Portugal





Na intervenção que ontem fez no Tribunal Constitucional, Carlos Costa definiu os três princípios fundamentais — estabilidade, responsabilização e transparência — que garantiram, noutros países, uma consolidação orçamental duradoura, os quais "têm vindo a ser explicitamente consagrados em várias ordem jurídicas (…) no caso português, foram consagrados na revisão da Lei de Enquadramento Orçamental recentemente aprovada pela Assembleia da República e a aguardar promulgação".

E o regulador do sistema bancário nacional acrescenta: "Para quem eventualmente perfilhe alternativas que se afastem de estratégias de consolidação orçamental imediata [lembro] que Portugal violou reiteradamente as normas orçamentais da União Europeia desde a adesão ao Euro: em 12 anos de participação na área do Euro o défice orçamental foi, em média, 4,5% do PIB."

*

É confortante ler os comentários de apoio no Negócios, a mostrarem que as pessoas não estão anestesiadas, o que permite acreditar que o País tem futuro. Por exemplo:

teixo 28 Abril 2011 - 21:06
Responsabilização dos actos político-administrativos é vital para a Democracia
Obviamente, o Governador do BP não se referiu às decisões que implicaram aumento de encargos com apoios sociais a situações de emergência, mas a decisões em matéria de PPP, por exemplo, que consubstanciam verdadeiros actos de gestão danosa.
Personagens como Paulo Campos, secretário de Estado Adjunto, das Obras Públicas e das Comunicações, que actuou como um verdadeiro inimputável! O Governador do BP tem toda a razão, todos os actos praticados por este sujeito no âmbito do MOPTC deverão ser auditados e investigados pela IGF e PGR, pelas inúmeras suspeitas de corrupção e gestão danosa de dinheiros públicos, desde o modelo ruinoso da cascata de concessões e subconcessões rodoviárias, com a inversão do paradigma do risco das próprias PPP, ao negócio "magalhães", na fundação das Comunicações, entre outros, e em consequência deve ser acusado, julgado e responsabilizado, civil, financeira e criminalmente pelos danos que perpetrou ao erário público. Era a estes casos que o Governador do BP se referia...

jdiogenes 28 Abril 2011
Do lote que apresenta, falta!
Sim, falta o governador do BdP, à época, que tem nome e agora está, como prémio pela sua incompetência e não só, especialmente o não só, no BCE. É bom não esquecer que grande parte da nossa dívida está na banca, embora seja justo diferenciar a falida, BPP, BNP, da semi-falida, a restante. Sr. Costa, ter-lhe-ia ficado bem começar pela sua casa.
Estamos de acordo que deveriam sentar-se, todos, no mocho e aí ser decidido para que Aljube iria esta gentinha que vive às custas de quem trabalha com o apoio dos partidos, todos os que tem assento na AR, mas devemos destacar PS, PSD, CDS e o PCP pelo assalto que têm feito no poder autárquico, que também se tornou especialista em criar empresas municipais, pese embora que se tenha limitado a imitar as más práticas.

Rucky 28 Abril 2011
Carlos Costa: Políticos e gestores públicos são os culpados pela crise
Considero um acto de patriotismo, até de herói.
Desde que entrou para o BP, não tem tido papas na língua e não o vejo a "ajoelhar".
Tenho a certeza que a maior parte dos portugueses honestos e conscientes, já há muito têm na sua mente o que Carlos Costa agora disse.
Só tenho pena que ninguém leve por diante a criminalização dos responsáveis, incluindo o antecessor. Onde está o Ministério Público, que não está em gestão?
Espero que Carlos Costa não seja demitido ou enviado para Bruxelas. Portugal precisa dele e no BP ainda há quem se aproveite.
Parabéns pela sua coragem e patriotismo, pois bem se podia calar e gerir o seu silêncio.

tysan_14 28 Abril 2011
Finalmente!
É preciso e é urgente que a gentalha que tem decidido as políticas públicas pague a asneirada que trouxe o País até aqui. Agora quer que os portugueses paguem a incompetência, a falta de formação e de conhecimentos e também a corrupção e a fraude?
O País é o resultado de pôr um carroceiro a conduzir um Ferrari — é um desastre.
Mas a maior falta de vergonha é agora querer-se combater a corrupção que tem sido alimentada.
A pequenez desta gentalha é espelhada pela forma inconveniente e mal educada como se referem aos outros e até pela forma "estercada" como justificam as suas atitudes agressivas, sem respeito pelos símbolos do País e da Nação. São os políticos dos "Blackberry's", que não os tinham se não fossem os portugueses a suportar os custos de todas essas mordomias para gentalha arruaceira sem nível.

espaco1999 28 Abril 2011
A conversa da responsabilidade política é muito limitativa, é necessário ir mais além
A forma como Portugal tem sido conduzido é criminosa. Muitos vinham a alertar, há muito tempo, para o caminho que se estava a traçar e foram pura e simplesmente ignorados.
Governantes que duplicam a dívida pública em 6 anos elevando-a aos níveis que hoje conhecemos, apenas para servir clientelas e para iludir o povo com obras vistosas e sumptuárias, mas sem nenhum efeito real no desenvolvimento do país, são criminosos. Aqui englobo também autarcas de vários quadrantes políticos e Vítor Constâncio. Todos deviam ser julgados.

Joao Altamira 28 Abril 2011
Finalmente
Finalmente aparece alguém neste País que chama "os bois pelo nome". Toda esta cambada de políticos e gestores não podem passar imunes a esta bancarrota. Terão que ser julgados publicamente, responsabilizados e, para além de indemnizarem o Estado, deverão ser proibidos de exercerem no futuro quaisquer cargos públicos, sendo despedidos com justa causa e sem direito a qualquer indemnização.
Se isto acontece nas empresas privadas por quê não deverá acontecer nos cargos públicos? Deveria ser esta a primeira recomendação do FMI.
Se estes gestores públicos incompetentes tivessem vergonha, deveriam sair do País. Aconselho-os a irem vender banha da cobra para as Arábias.

abotelhos 29 Abril 2011 - 02:59
Recomeço a ter esperança
Será com Concidadãos desta grandeza, coragem e sensatez que vamos conseguir mudar e recuperar, não com os artistas mentirosos e criminosos no activo. O contraste, pela positiva, com o anterior e emigrado governador do BP que, como sabemos, era vesgo, surdo e mudo, é notório. Somemos ao actual Governador do BP, o trabalho exemplar do Presidente do Tribunal de Contas, do Concidadão que, cedido pela banca, passou pelas Contribuições e Impostos, deixando bom trabalho feito e exemplo a continuar e outros mais de igual craveira moral, profissional e patriótica, e vamos lá! Basta pensar um pouco mais, querer mudar e mudar mesmo, sem medos, sem poeira nos olhos e dizendo aos que nos tem enganado e roubado impunemente (por enquanto): Basta, desapareçam!
É notório o crescendo de indignação pelo mal que nos fizeram e o desejo de responsabilização e julgamento (Vide leis aplicáveis a circular) dos políticos e gestores públicos eleitos e empossados que mal se comportaram.

(actualizado)


sábado, 2 de abril de 2011

Quadro de Honra


Com a devida vénia, transcreve-se do blogue Moçambique para todos uma peça da política portuguesa daquele tempo em que os actores conheciam o significado das palavras respeito, dignidade e compromisso:


"Memórias de um Portugal que era respeitado

Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

O embaixador incumbiu-me — ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada — dessa missão.
Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo numa altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir, a esta distância, a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: Não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.
Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado — ao tempo Dean Rusk — teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país — Portugal — que respeitava os seus compromissos.

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral "perpétuo" da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas, ao tempo, por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar — é nada dever a quem quer que seja".

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando, há dias, vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado, pública e grosseiramente, pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses, de hoje, nem esse consolo tem.

Estoril, 18 de Abril de 2010
Luís Soares de Oliveira"


(Artigo já republicado em Abril de 2010 no blogue Plátanos e Glicínias)


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Morreu o economista Ernâni Lopes


Ernâni Lopes (Lisboa 20.02.1942 - Lisboa 02.12.2010), que era actualmente professor do Instituto de Estudos Europeus, Universidade Católica, foi ministro das Finanças no IX Governo Constitucional (bloco central liderado por Mário Soares), entre 1983 e 1985, durante a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) motivada pela situação de ruptura financeira do país.

Trabalhou no Banco de Portugal no período 1967-1975, tendo sido seu consultor económico entre 1985 e 1989.
Foi embaixador na República Federal da Alemanha no período 1975-1979 e em Bruxelas chefiou as negociações para adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1979-1983.

Licenciou-se em Economia em 1964, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG), Universidade Técnica de Lisboa, e fez o seu doutoramento em Economia em 1982, na Universidade Católica.

Em 1988 criou uma empresa de consultoria em Geopolítica, Estratégia e Competitividade, a Saer, onde nasceu a ideia do investimento na economia do mar para ajudar o país a sair da estagnação económica.
Encomendado pela Associação Comercial de Lisboa, o estudo "O Hypercluster da Economia do Mar" defende que o imenso conjunto de actividades ligadas ao mar podia ser "simultaneamente, uma força propulsora e um catalisador capaz de organizar e dinamizar um conjunto de sectores com elevado potencial de crescimento e inovação e capacidade para atraírem recursos e investimentos, nomeadamente externos, de qualidade".

Recentemente confessou numa entrevista:
"Devo dizer que em 1985, quando fechei o programa com o FMI, jamais me passou pela cabeça que voltasse a haver uma situação como a de hoje. Considerei que era um assunto que em Portugal não se repetiria. Quem estava errado era eu.
O governo de então resolveu o problema, estabilizou a economia e com a adesão
[à CEE] criou perspectivas de desenvolvimento como não havia há meio século. (...) [Mas, desde então] fez-se o contrário do que se devia fazer. (...)
[A situação do país] não tem a ver com taxa de juro, oferta de moeda nem finanças públicas. Tem a ver com qualquer coisa mais importante. Os problemas resolvem-se com estudo e trabalho e não com facilitismo e aldrabice."

*

Relembramos uma sua intervenção e arquivamos uma amostra dos comentários do Jornal de Negócios e do Público:


dropdead 02 Dezembro 2010 - 11:40
Um homem bom e íntegro
O Dr. Ernâni Lopes foi o homem certo no momento em que o País mais precisou dele, com determinação, humanismo e também um sentido de humor muito próprio. Uma voz moderada, lúcida, relativizando algumas tiradas mais bombásticas que outros pronunciavam, é para mim o exemplo do político de que Portugal precisa.
Tinha uma grande característica como político: não gritava. Os outros, como os actuais PM e o Ministro das Finanças, devem ir buscar ao nível de ruído a convicção que lhes falta para afirmar o que afirmam.
Portugal perdeu um grande homem, um homem bom que cumpriu a sua missão: foi o melhor que sabia e era capaz de ser.

3D 02 Dezembro 2010 - 12:02
Paz à alma do homem...
e o fim aos disparates que disse nos últimos tempos. Um teórico da treta que nunca trabalhou no duro nem percebeu o que é poupança e confiança.

fpessoal 02 Dezembro 2010 - 14:22
Para o 3D: Desapareceu uma mente lúcida
Nos últimos meses tentou abrir os olhos à sociedade portuguesa mas nunca foi ouvido e foi ignorado pelos governantes. Um homem que deixou uma mensagem clara do caminho que os Portugueses têm que percorrer para poderem dar um futuro melhor às futuras gerações.
É uma grande perda para Portugal. Uma perda que passará ao lado do povo anestesiado com as 1001 novelas e dos muitos 3D ignorantes que nunca souberam dar valor a quem realmente o tem.
A melhor forma de o homenagear será assistir aos dois programas do "Plano inclinado" em que nos dá a sua visão lúcida de Portugal, dos políticos e do povo português. Vale a pena investir 2 horas para aprender algo de útil:


31 Mai 2010 Portugal em 2014 - Economista Prof. Ernâni Lopes



14 Jun 2010 Sustentabilidade do nosso Fundo de Pensões


Salvador costa 02 Dezembro 2010 - 14:54
"Ernâni Lopes: A lucidez da sabedoria"
1- Ernâni Lopes não era somente um economista respeitado, um ex-governante que teve a difícil missão da negociação da entrada de Portugal na C.E.E. Ernâni Lopes era um homem de cultura, de uma enorme lucidez na análise da situação económica, política e cultural do país e do mundo.
2- O seu exemplo de professor marcou seguramente gerações de alunos.
3- Tinha a virtude da honestidade intelectual e a frontalidade de quem defende valores e convicções.
4- Morreu um Português de valor e de dedicação a Portugal.


Francisco Melo Albino, Portugal. 02.12.2010 14:00
Prof. Ernâni Lopes
A minha modesta homenagem ao meu Professor do Instituto de Estudos Europeus no XV Curso de Pós-graduação e na 1ª edição do Mestrado em Estudos Europeus, tendo o Professor Ernâni Lopes sido o orientador da minha dissertação, nesse Mestrado.
Com ele aprendi muito do que sei hoje e reaprendi noutra perspectiva algumas coisas que já sabia de outro modo. Um Professor muito exigente, enciclopédico no ensino. Para ele, estudar a Europa e a integração europeia, exigia estudar Economia, História, Geoestratégia, Prospectiva, Planeamento, Gestão, Diplomacia, ... Sem isso tudo, entendia o Professor Ernâni Lopes, não se compreenderia nunca o mundo em que vivemos, porque chegámos aqui e onde estaremos daqui a 20 anos...
Portugal deve-lhe muito e oxalá o nosso país fosse capaz de começar a praticar o que nós chamávamos os "7 mandamentos do Professor Ernâni", a saber: estudar, estudar, estudar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, como ele repetia incessantemente nas aulas. Esse é o único segredo que nos pode tirar da má situação em que estamos.
Bem haja Professor e descanse em Paz.

Anónimo, Lisboa. 02.12.2010 18:03
Na sala de espera
Perdi a conta às vezes que me cruzei com ele nas salas de espera do IPO.
Lembro-me como sempre me fazia sentir bem a sua presença. Alguém com a sua dimensão humana e intelectual, ali, ao meu lado, a escassas cadeiras de distância, por vezes menos. Esperava, como eu esperava, sentado num hospital público.
Aguardava pacientemente, acompanhado sempre por alguém que imagino ser a sua esposa, que o seu nome fosse chamado no altifalante, momento em que o anonimato, caso dúvidas ainda houvesse, seria totalmente desfeito.
Embora pudesse certamente, como eu posso, comprar um pouco mais de conforto e privacidade num qualquer hospital privado, desses da moda, em que o dinheiro compra tudo menos a vida.
Nunca falei com ele. Mas vou sentir a sua falta na sala de espera.
Até breve Doutor Ernâni Lopes.