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terça-feira, 7 de julho de 2015

Humor grego - III





Cartoon do jornal grego Ekathimerini



Anónimo
13:10
GREGOS, IDE COM A GRAÇA DIVINA, COMEI E BEBEI À FARTAZANA, E DEIXAI OS POBRES COITADOS DOS RESTANTES EUROPEUS SOZINHOS! (Oração de São Gregório aos caloteiros).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Varoufakis sai, Tsakalotos passa para as Finanças gregas


O ministro suplente dos Negócios Estrangeiros grego, Euclides Tsakalotos, vai substituir Yanis Varoufakis que pediu a demissão.


O novo ministro das Finanças, Euclides Tsakalotos, (D) presta juramento durante a cerimónia de posse na presença do presidente Prokopis Pavlopoulos (C) e do primeiro-ministro Alexis Tsipras (E).
REUTERS/Alkis Konstantinidis

07 Jul, 2015, 08:21


Tal como sucedeu com a sua nomeação, foi Varoufakis quem anunciou a demissão no Twitter. E, na hora da saída, enalteceu a vitória no referendo, deixando uma alfinetada aos credores que, subtilmente, envolve Tsipras:
Já não sou ministro

O referendo de 5 de Julho vai ficar na história como um momento único em que uma pequena nação europeia se levantou contra a servidão da dívida.

Como todas as lutas pelos direitos democráticos, também esta histórica rejeição do ultimato do Eurogrupo de 25 de Junho tem um custo elevado. É, portanto, essencial que o enorme capital outorgado ao nosso governo pelo esplêndido voto no 'NÃO' seja imediatamente investido num 'SIM' a uma resolução adequada — num acordo que envolva a reestruturação da dívida, menos austeridade, redistribuição a favor dos necessitados e verdadeiras reformas.

Pouco depois do anúncio dos resultados do referendo, fizeram-me saber de uma certa preferência de alguns participantes do Eurogrupo, e vários 'parceiros', pela minha… 'ausência' das suas reuniões; uma ideia que o Primeiro-Ministro julgou ser potencialmente benéfica para poder chegar a um acordo. Por esta razão deixo hoje o Ministério das Finanças.

Considero ser meu dever ajudar Alexis Tsipras a tirar partido, como ele entender, do capital que o povo grego nos concedeu através do referendo de ontem.

Vou usar a aversão dos credores com orgulho.

Nós, da Esquerda, sabemos como agir colectivamente sem nos preocuparmos com os privilégios da função. Darei todo o meu apoio ao primeiro-ministro Tsipras, ao novo Ministro das Finanças e ao nosso governo.

O esforço sobre-humano para honrar o bravo povo da Grécia, e o famoso OXI [NÃO] que ele deu aos democratas de todo o mundo, está apenas a começar.

06 Jul, 2015, 20:39

A fascinação cultivada por Varoufakis havia sofrido um rombo com a entrevista ao Paris Match mas, apesar de ter sido relegado para segundo plano nas negociações dentro do Eurogrupo, conseguia permanecer no palco fornecido pela comunicação social.

Chamar terroristas, em entrevista ao El Mundo, aos colegas do Eurogrupo, aos líderes políticos europeus e aos responsáveis do BCE por se recusarem a aumentar o valor da assistência de liquidez de emergência (ELA) à banca grega, foi a gota de água que fez transbordar a impaciência dos líderes europeus e de... Tsipras.

O novo ministro das Finanças grego, Euclides Tsakalotos, já era, desde Abril, o responsável pela coordenação das negociações com os credores no Eurogrupo, sendo visto como um moderado.

Filho de um engenheiro naval, Tsakalotos nasceu em 1960 em Roterdão, nos Países Baixos, e cresceu no Reino Unido, tendo frequentado a privada e exclusiva St. Paul's School por onde passaram muitos ministros britânicos, incluindo o seu homólogo George Osborne. Casado com uma escocesa, estudou Política, Filosofia e Economia na universidade de Oxford onde fez o doutoramento em 1989. Perfilha a doutrina marxista e pertence ao comité central do Syriza, sendo próximo de Tsipras.

Vai desempenhar a função de construir pontes com os ministros das Finanças dos restantes 18 países da Zona Euro com o objectivo de, partindo da estaca zero, conseguir um acordo que permita à Grécia aceder a um terceiro resgate.

Reunidos hoje no Eliseu, François Hollande e Angela Merkel abriram as portas à negociação com a Grécia, deixando advertências:

06 Jul, 2015, 19:15


Para o presidente da França cabe agora ao governo de Alexis Tsipras "fazer propostas sérias que traduzam essa vontade de ficar na Zona Euro". Sublinhou que "a Europa é um conjunto fundado em valores e princípios, numa concepção do mundo. Nesta Europa há lugar para a solidariedade. Mas também há responsabilidade". O tempo urge: 20 de Julho é o fim da linha.

"A porta está aberta a conversações, mas neste momento ainda não temos condições para as iniciar. São precisas propostas concretas e de médio prazo que assegurem a estabilidade e a prosperidade da Grécia", repetiu a chanceler da Alemanha, tendo acrescentado: "Respeitamos a decisão do povo grego, mas temos de saber qual é a vontade dos outros 18 governos do euro que foram também eleitos democraticamente."


domingo, 5 de julho de 2015

O resultado do referendo grego

05 Jul, 2015, 20:58

Três sondagens realizadas pela GPO, Metron Analysis e MRB já mostravam que o 'Não' ia à frente por três pontos. Uma sondagem da Marc estimava que 49,5 a 54,5 por cento dos gregos tinham votado ‘não’.

Mas a vantagem do 'não' é muito mais significativa e observa-se em todos os distritos eleitorais. Os resultados do referendo no sítio da Internet do Ministério do Interior grego:

██ Não 61,31 %
██ Sim 38,69 %




Reuters/Yves Herman

Com a vantagem do ‘não’, o futuro da Grécia está descrito numa entrevista do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, um político pertencente ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), e será fora da Zona Euro.
"A Grécia continua no euro após este referendo? Certamente, mas se disserem ‘não’, vão ter que introduzir outra moeda depois do referendo porque o euro já não estará disponível como forma de pagamento", afirmou Schulz em entrevista à rádio alemã Deutschlandfunk.
"Como vão conseguir pagar salários? Como vão pagar pensões? Assim que introduzirem uma nova moeda vão sair da Zona Euro. Esses são os elementos que me dão alguma esperança de que as pessoas não vão votar ‘não’ hoje".

No sábado, o presidente do Parlamento Europeu tinha avançado que estava a ser avaliada a possibilidade de serem concedidos créditos de emergência à Grécia para evitar uma crise humanitária.
"Vamos ver-nos obrigados a conceder créditos de emergência à Grécia como medida de transição, para que os serviços públicos possam continuar a funcionar e as pessoas necessitadas recebam dinheiro. Para isso haveria dinheiro a curto prazo em Bruxelas", disse Schulz, numa entrevista ao jornal Welt am Sonntag.

Mas hoje os gregos festejam, indiferentes a estes alertas:


REUTERS/Christian Hartmann



AFP/Aris Messinis


*


Os gregos queriam permanecer na Zona Euro, mas votaram para regressar ao dracma. Se não houver um acordo entre a Grécia e os credores sobre um terceiro resgate, o país vai falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao Banco Central Europeu, no dia 20 de Julho, e este banco terá de encerrar a assistência de liquidez de emergência (ELA). Os bancos gregos ficarão insolventes e, em consequência, o governo grego terá de criar moeda.

O caminho de transição do euro para a nova moeda grega está apinhado de dificuldades, como se explica neste artigo que fala da experiência da Alemanha, quando estendeu o marco ao leste alemão, do divórcio checo e eslovaco de 1993 e da criação de uma moeda na Croácia, face à implosão da Jugoslávia.


Notas e moedas do antigo dracma grego
Bloomberg/Kostas Tsironis

No entanto, ao obrigar os gregos a viverem com aquilo que produzem, a saída da Zona Euro vai desencadear as profundas reformas de que a Grécia necessita e que passam pela reestruturação da administração pública grega, bem como da economia e das finanças do País.

Mas nada disto será feito pelo governo liderado por Alexis Tsipras, um demagogo sem estatura política que, em 5 meses, ainda não tomou uma única medida para revitalizar a economia ou para combater a corrupção.

Os tempos mais próximos serão de grande instabilidade. Só depois da maioria dos gregos entender que o dinheiro externo acabou e que foram enganados por extremistas irresponsáveis que prometeram conseguir um acordo com perdão de dívida, se o 'não' vencesse, pode haver espaço para surgir um governo grego com conhecimento e capacidade para implementar as reformas de que a Grécia carece.

O problema grego é que políticos corruptos do PASOK (centro-esquerda) e da Nova Democracia (centro-direita) criaram na população grega, desde 1981, data da adesão do país à então comunidade económica europeia (CEE), uma dependência de dinheiro externo.
Na primeira década, dissiparam as verbas para o desenvolvimento económico vindas da CEE. Depois falsificaram a contabilidade para entrarem na Zona Euro e passarem a receber fundos estruturais que também não usaram para criar riqueza, foram distribuídos.
E como as clientelas, criadas de alto a baixo na sociedade grega, votavam sempre naqueles que prometiam mais, drogaram-se com empréstimos.

A dívida pública cresceu desmesuradamente. Um governo do partido socialista grego liderado por George Papandreou descobriu que o país estava fora dos mercados financeiros e começou a aceitar taxas de juros agiotas até que teve de pedir ajuda financeira ao FMI/CE/BCE, em 2010.

Começava o longo calvário da austeridade que se vai prolongar por muitas décadas. Hoje os gregos escolheram trilhar esse caminho da forma mais dolorosa — sozinhos e pela mão de aventureiros.

O alargamento do leque salarial, colossal, injusto e mundial, que adveio da implosão dos regimes socialistas dos países da Europa de Leste, com favorecimento dos gestores empresariais que se aproveitaram do triunfo das economias de mercado, é um problema que temos de exigir que os líderes europeus também resolvam. Mas não tem nada a ver com a questão grega — aqui é um país que se habituou, e quer continuar, a viver à custa dos outros 18 países da Zona Euro.


Humor grego - II





Cartoon do jornal grego Ekathimerini





Cartoon do jornal Público




sexta-feira, 3 de julho de 2015

Os gregos divididos ao meio


As manifestações que hoje decorreram na Grécia mostram um País dividido ao meio a respeito da decisão sobre uma proposta caducada feita no âmbito de um programa que já não existe, terminou no dia 30 de Junho.

Os gregos que não desejam austeridade, apoiam Alexis Tsipras, estão na praça Syntagma e vão votar “ΌΧΙ” (“não” em grego) no referendo de 5 de Julho.

Os gregos que querem manter o País na Zona Euro e conservar a moeda, apoiam a União Europeia, estão no estádio olímpico Kalimarmaro e vão votar “ΝΑΙ” (“sim”).

As sondagens dão um empate técnico.







Se ganhar o “não”, Alexis Tsipras vai prosseguir a estratégia que iniciou há seis meses: empurrar paulatinamente a Grécia para fora do euro. Quando os gregos passarem a vida em filas para adquirir comida, vão perceber a diferença entre austeridade e fome, mas será demasiado tarde porque o Syriza vai ficar colado ao poder como uma lapa por longo tempo.

Se o “sim” sair vencedor, Tsipras vai procurar manter-se agarrado ao poder, andando numa roda-viva entre Atenas e Bruxelas, a fingir que pretende alcançar um acordo com os outros 18 líderes da Zona Euro. Mais tarde ou mais cedo acabará por ser corrido por manifestações de funcionários públicos com os salários em atraso e por pensionistas que deixaram de receber parte das pensões. Não foi assim que os regimes socialistas dos países da Europa de Leste implodiram em 1989?


A Grécia em default parcial - I c. A dívida grega


A Grécia pretende negociar com os seus credores da Zona Euro para obter um acordo antes que o governo endividado fique sem dinheiro. Veja nesta página interactiva do Wall Street Journal quanto a Grécia deve e quando.

A unidade dos gráficos é o milhar de milhão de euros.

O FMI concedeu empréstimos à Grécia que ascendem a 21 mil milhões de euros, dos quais 1,6 mil milhões venceram em 30 de Junho e não foram pagos.

O BCE emprestou 27 mil milhões de euros, mas poderá ser preciso adicionar os 89 mil milhões de euros emprestados aos bancos gregos ao abrigo da Assistência de Emergência de Liquidez (ELA) — fixa desde domingo, 28 de Junho, o que obrigou ao encerramento dos bancos — que, por enquanto, são um risco do banco central grego.

A dívida aos investidores privados é apenas 34 mil milhões de euros porque, aquando do segundo resgate à Grécia, assumiram a perda de aproximadamente metade dos empréstimos.
Pior estão os Estados-membros da Zona Euro que emprestaram 53 mil milhões aos gregos no primeiro resgate, em 2010.

Depois do segundo resgate, em 2012, quem ficou a suportar a fatia de leão dos empréstimos foi o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), o antigo fundo de resgate do euro, que entrou com 131 mil milhões de euros.

Se o governo liderado por Alexis Tsipras mantiver o encerramento dos bancos e o controle de capitais na Grécia até 20 de Julho, conseguirá aguentar a banca grega com liquidez mas, nessa data, quando Atenas falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao BCE, o país entra em bancarrota.








quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I b. Quem paga um terceiro resgate?


A Grécia pediu aos seus credores da Zona Euro para negociar um terceiro resgate estimado em, pelo menos, 36 mil milhões de euros.

Imediatamente os contribuintes dos países da Zona Euro começaram a fazer contas para saber com quanto terão de contribuir. Veja um conjunto de perguntas e respostas sobre o processo e qual o impacto para Portugal.


Como o fundo de resgate do euro obtém capital e financiamento?
O fundo que tem actualmente a responsabilidade de financiar novos resgates ou outros apoios a Estados-membros da Zona Euro que enfrentem dificuldades — Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) — tem o capital de 80 mil milhões de euros que já foi subscrito pelos vários Estados-membros, incluindo Portugal.

Este dinheiro serve como garantia para os investidores aceitarem comprar obrigações emitidas pelo MEE, permitindo-lhe endividar-se nos mercados financeiros até 500 mil milhões de euros, dos quais 47 mil milhões foram aplicados. No final de 2014 restavam 453 mil milhões de euros.

Depois o MEE usa este financiamento para emprestar a Estados-membros que precisem de ajuda financeira, cobrando uma taxa de juro igual ao custo de financiamento mais um spread.

Portugal terá de gastar mais dinheiro num terceiro resgate à Grécia?
Em princípio, não. O MEE tem um capital de 80 mil milhões de euros já subscrito pelos Estados-membros da Zona Euro, dos quais 2 mil milhões de euros saíram de Portugal, de acordo com a nossa participação no capital do BCE que é 2,5%.

No entanto, além dos 80 mil milhões de euros já subscritos, os Estados-membros da Zona Euro comprometeram-se a reforçar o capital do MEE até mais 625 mil milhões de euros, em caso de necessidade. Isto obrigaria Portugal a contribuir com mais 15,6 mil milhões de euros.

Qual o valor do terceiro resgate?
Na carta que dirigiu a MEE a pedir um novo programa de financiamento, o primeiro-ministro grego disse que esse financiamento seria somente para cumprir o pagamento de dívida e custos associados, tendo indicado que o montante de dívida (excluído títulos de curto prazo como bilhetes do Tesouro) que chega à maturidade até ao final de 2017 ascende a 29,1 mil milhões de euros.

No entanto, o programa anterior — que expirou a 30 de Junho sem que o governo liderado por Alexis Tsipras e os credores tenham chegado a acordo —, além de dinheiro para financiar dívida que chegava à maturidade, tinha disponíveis 10,9 mil milhões para financiar a recapitalização de bancos. Dinheiro que provavelmente será incluído num terceiro resgate.

O terceiro resgate vai mesmo acontecer?
O que houve até agora foi apenas um pedido formal da Grécia ao MEE a solicitar este programa com duração de dois anos (sem intervenção do FMI).

Os ministros das Finanças do Euro, na reunião de 30 de Junho, mostraram abertura para o negociar, mas um financiamento estará sempre associado a um programa de reformas que dêem a garantia de que será reembolsado.

Os outros líderes europeus já salientaram que não haverá negociações sobre um terceiro resgate antes do referendo de 5 de Julho, no qual os gregos vão ser chamados a pronunciar-se sobre a proposta dos credores que o Governo grego recusou.
Esta quarta-feira, 1 de Julho, foi notícia a carta que o primeiro-ministro grego enviou ao BCE, Comissão Europeia e FMI, disponibilizando-se para aceitar esta última proposta, embora com alterações.

Mas há risco para Portugal num terceiro resgate à Grécia?
Sim, como em todos os empréstimos, há juros e risco.

Se, no futuro, a Grécia não pagar os empréstimos ao MEE, este fundo europeu de resgate terá de abater as perdas no capital já subscrito.

Depois terá de solicitar aos Estados-membros que reforcem esse capital para garantir que a relação entre capital subscrito (actualmente 80 mil milhões de euros) e a capacidade de financiamento (os actuais 500 mil milhões de euros) é de, pelo menos, 15%.

Quando dinheiro é que Portugal já emprestou à Grécia?
Em 2012, Portugal estava sob um programa de resgate e, por isso, não teve de participar no empréstimo feito pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) que financiou o segundo resgate grego com 141,9 mil milhões de euros.

Ao abrigo do primeiro programa de resgate grego que foi financiado por empréstimos bilaterais, num total de 52,9 mil milhões de euros, o nosso País entrou com 1,1 mil milhões de euros.

A este montante junta-se uma exposição indirecta via BCE com duas componentes:
  • cerca de 0,7 mil milhões de euros das obrigações gregas compradas pelo banco central no pico da crise europeia ao abrigo do programa SMP (2,5% dos 27 mil milhões que estão no balanço do BCE)
  • e ainda 2,8 mil milhões de euros dos empréstimos do BCE aos bancos gregos através das operações regulares de liquidez (2,5% dos 110 mil milhões de euros).
    Este valor só estará em risco, se a Grécia sair da Zona Euro, tendo o BCE a possibilidade de descontar o colateral com valor em sua posse (dívida grega terá reduzido valor).


*

Um comentário certeiro lido no Negócios:

Anónimo
02 Julho 2015 - 17:49
Eu acho que agora todos os países do euro deviam fazer um referendo para saber se os europeus aceitam fazer um terceiro resgate à Grécia.
Se eles podem escolher estar ou sair, nós devíamos escolher se queremos continuar a ajudar um país que é um saco sem fundo.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

A Grécia em default parcial - I a. A estratégia de Tsipras


Novo artigo sobre a Grécia do jornalista João Carlos Barradas onde o autor desmonta a estratégia do líder do governo grego que envolve graves riscos para a economia e para a sociedade, altamente subestimados por Alexis Tsipras:


"A renúncia da Grécia"
01 Julho 2015, 00:01 por João Carlos Barradas

"A lógica leninista de Alexis Tsipras iludiu os parceiros do euro e arrastou-os para um universo fantasmagórico em que um referendo sobre coisa nenhuma é transfigurado em acto político da maior relevância.

O líder grego apostou numa estratégia de ruptura exigindo que os credores aceitassem as suas responsabilidades pelo endividamento helénico para os obrigar a admitir perdões de dívida e financiamentos a fundo perdido.

Na frente doméstica o Syriza denunciou, por seu turno, a cumplicidade da oligarquia capitalista, de conservadores e socialistas, em políticas impostas pela troika que redundaram em pauperização sem prover a solvência do Estado.

A convocação de um referendo sobre propostas caducas e de nulas consequências na ordem jurídica interna e europeia foi dos últimos artifícios para legitimar politicamente a ruptura.

O dia seguinte

No abstruso referendo, Tsipras triunfa se o eleitorado votar contra a aceitação de dois documentos sem validade jurídica e ganha caso haja assentimento quanto às propostas da troika datadas de 25 de Junho e, entretanto, prescritas.

A manobra passa por atemorizar os parceiros europeus com as consequências gravosas de uma saída da Grécia do euro, a "bomba atómica" com que Tsipras sempre ameaçou.

O governo de Atenas anunciou, ao mesmo tempo, que contestaria no Tribunal de Justiça da UE actos que impliquem a exclusão de Atenas da Zona Euro e o fim de financiamentos da parte do BCE.

O pedido de um terceiro resgate às instituições europeias — via Mecanismo Europeu de Estabilidade, excluindo o FMI e sem contrapartidas vinculativas legais de reforma do Estado — visou demonstrar empenhamento negocial e condicionar politicamente o BCE.

Sustentar a liquidez da banca grega até 20 de Julho não seria impossível, a manterem-se até lá as restrições a movimentos de capitais na Grécia, mas, nessa data, quando Atenas falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao BCE, não haverá alternativa estatutária em Frankfurt ao corte de financiamento.

Caras e coroas

Tsipras só tem a ganhar com a creditação política (carente de valor legal) para negociações a curtíssimo prazo, defendida por Jean-Claude Juncker e Angela Merkel, de um referendo (sem implicações jurídicas) que, alegadamente, oporia um sim/não à manutenção da Grécia no euro.

Ante um eleitorado que rejeita mais cortes orçamentais ou aumentos da carga fiscal e recusa, simultaneamente, perder o euro, Tsipras apresenta-se como defensor da soberania nacional e do vínculo europeu e, salvo evento catastrófico que acarrete uma vitória esmagadora do "sim", mantém a iniciativa política.

Remodelação governamental ou convocação de eleições antecipadas são opções que lhe quedam sempre em aberto independentemente do resultado do referendo.

A radicalização política e o colapso do bipartidarismo conservador-socialista impedem a formação, por via eleitoral, de coligações minimamente consistentes para reformas de uma economia sem capacidade competitiva no âmbito do euro e de um Estado viciado no financiamento externo a fundo perdido de clientelas enquadradas por sistemas de patrocínio.

Os parceiros europeus não terão interlocutores do lado grego para obviar à bancarrota de Atenas.

Lenin explica

Muito leninista, apostado na subversão anticapitalista de etapa em etapa até à estocada final, esticou demasiado a corda e acabou mal.

Presume o leninista de Atenas que a ruptura com a Zona Euro e a ampla margem de manobra que sobrará para subverter o funcionamento da UE e, eventualmente, alguma chantagem na NATO, serão politicamente viáveis através da mobilização nacionalista.
Tsipras sabe tocar as teclas da tradição e do sentimento.

Exalta o popular poema de 1901 de Konstandinos Kavafis "A algumas pessoas um dia cai/em que o grande Sim ou o grande Não sobrevém/dizer".

Glorifica a "grande renúncia", evocando o mitificado "Não" do general Ioannis Metaxas ao ultimato de Mussolini de 28 de Outubro de 1940 (dia celebrado por todas as comunidades helénicas) que levou ao ataque fascista à Grécia.

Tsipras subestima, contudo, a dimensão da implosão económica e social que advirá da bancarrota, primeiro pelo incumprimento ante o FMI e, depois, pelo colapso da banca com o fim do financiamento do BCE.

A corda

Lenin desprezava capitalistas estúpidos a ponto de lhe venderem a corda com que os iria enforcar.

Tsipras quer atemorizar capitalistas ainda mais estúpidos para que lhe ofereçam a corda para enforcar oligarcas e burocratas no altar do euro.

Nesta coisa de forcas e matanças muito gente padeceu, feneceu e morreu.


P.S.: a versão portuguesa de "Che fece .... il gran rifiuto" pode ler-se em "Os Poemas", Konstandinos Kavafis, tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, "Relógio D' Água", Lisboa, 2005."


*


Este poema do poeta grego Konstantínos Kaváfis adopta como título um verso (Canto III, v. 60) da "Divina Comédia – Inferno" de Dante,

che fece per viltade il gran rifiuto (que fez por cobardia a grande recusa)

mas substitui duas palavras essenciais — per viltade — por quatro pontos para metamorfosear o significado da palavra "recusa", retirando-lhe a carga negativa conferida por Dante ao associá-la a "cobardia" e arrastar a alma de quem disse "Não" para a danação eterna no Inferno.
Depois o poema dá-lhe um sentido positivo, enaltecendo aqueles que têm a coragem de dizer “Não”. Justamente o sentido que convém a Tsipras para condicionar o voto do eleitorado grego no referendo do próximo domingo.

Ao contrário das traduções inglesas do poema (ver este interessante artigo), a tradução portuguesa vai ainda mais longe e denigre aquele que diz “Sim” como alguém que se desonra e mente a si próprio:


Che fece .... il gran rifiuto

A algumas pessoas um dia cai
em que o grande Sim e o grande Não sobrevém
dizer. Logo surge ao de cima a que tem
pronto dentro de si o Sim e ao dizê-lo vai

além da sua honra e do que está convencida.
A que negou não se arrepende. De novo interrogada
voltaria a dizer não. Mas tem-na derrotada
aquele não — o correcto — toda a sua vida.



terça-feira, 30 de junho de 2015

Humor grego - I


Um britânico de 29 anos propõe pagar a dívida grega de 1,6 mil milhões de euros ao FMI, que venceu hoje, com recurso ao crowfunding. Em dois dias recolheu cerca de 466 mil euros.

Os presentes em troca de cada contribuição:
Por três euros recebe-se um postal de Alex Tsipras. Com seis euros obtém-se uma salada de queijo feta e azeite. Dez euros serão recompensados com uma garrafa de Ouzo e 25 euros com uma garrafa de vinho grego. Quem doar 160 euros, recebe um cesto com todos estes produtos gregos. Cinco mil euros dão direito a uma semana de férias para dois em Atenas. E os corações generosos que oferecerem 1 milhão de euros ganham a gratidão do povo grego.

A iniciativa termina dentro de seis dias e já serviu para uma alfinetada lusa:

nemo
30 Junho 2015 - 22:27
Agradeço que me informem com quanto é que já contribuíram estes generosos portugueses:

- António Luís Santos da Costa
- Catarina Soares Martins
- Jerónimo Carvalho de Sousa

Obrigado.


A Grécia à beira da bancarrota - III i. O default no empréstimo do FMI


A Grécia não pagou a dívida de 1,6 mil milhões de euros ao Fundo Monetário internacional (FMI) que vencia esta terça-feira, 30 de Junho. O FMI comunicou que o Governo de Atenas solicitou o adiamento da amortização do empréstimo e que a instituição declarou o pagamento em atraso.

O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, já tinha confirmado esta manhã que a Grécia não ia pagar as quatro parcelas que deveriam ser reembolsadas hoje ao FMI.

À noite, em entrevista à estação de televisão pública ERT, Yannis Dragasakis, vice-primeiro-ministro grego, avançou que a Grécia tinha apresentado um pedido ao FMI para que o pagamento das quatro parcelas de Junho, que deveriam ter sido reembolsadas hoje, fosse adiado para o fim de Novembro.

O comunicado de Gerry Rice, director de comunicação do FMI, é lacónico e fala apenas em atraso:
Confirmo que o reembolso de DES [Direitos Especiais de Saque, a unidade de conta do FMI] 1,2 mil milhões (cerca de EUR 1,5 mil milhões) devidos hoje pela Grécia ao FMI não foram recebidos. Informámos o nosso Conselho de Administração que a Grécia está agora em atraso e só poderá receber financiamento do FMI quando cumprir o pagamento em atraso.

Também posso confirmar que o FMI recebeu hoje um pedido das autoridades gregas de prorrogação da obrigação de reembolso da Grécia que vencia hoje, que irá para o Conselho de Administração do FMI em devido tempo.

Dentro de 15 meses, o FMI emite uma “declaração de não-cooperação” (até Setembro de 2016), podendo ser suspensa a assistência técnica à Grécia. As restrições prosseguem, com a suspensão dos poderes de voto do país no FMI ao fim de 18 meses. Se, ao fim de dois anos, a Grécia continuar sem pagar o empréstimo, pode ser expulsa da instituição.


*

As reacções à notícia vão desde comentários circunspectos a outros bem-humorados. Dois exemplos nos antípodas:

Anónimo:
30 Junho 2015 - 22:41
Está lá, é do FMI? Olhe, a gente não conseguiu SACAR o dinheiro aos UE, por isso tenham paciência, aguentem mais um tempinho que a gente vai continuar a bater nos bolsos deles a ver se saltam alguns Euros.

00SEVEN
30 Junho 2015 - 23:25
Uma garotada a espatifar o país!
Mas quem escolheu foram os gregos.
O default consumou-se há 25 minutos!
Só se alterarem os Bye-Laws do FMI, mas para isso precisam que os 188 países-membros deliberem sobre esta façanha grega!


A Grécia à beira da bancarrota - III h. O fim do resgate europeu


O governo grego solicitou ao Eurogrupo a extensão do actual programa de resgate. Ao fim da tarde, o fundo de resgate do euro declarou que o programa de assistência à Grécia termina hoje, terça-feira, 30 de Junho.

O fundo de resgate do euro — Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) — emitiu esta tarde um comunicado oficial a alertar que o programa de assistência financeira à Grécia expira à meia-noite de hoje, terça-feira, 30 de Junho.

A instituição presidida por Klaus Regling alerta que, com o fim do programa do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), que antecedeu o MEE, a Grécia perde o acesso à última tranche de 1,8 mil milhões de euros do empréstimo concedido. A Grécia vê também cancelado o acesso aos 10,9 mil milhões de euros destinados à recapitalização da banca que estavam previstos no programa.

Regling afirma ser "de lamentar que o programa do FEEF termine hoje sem que haja qualquer acordo e que os resultados positivos do programa sejam colocados em risco", acrescentando que "devido às políticas económicas adoptadas no âmbito do programa do FEEF, o país estava num bom caminho para um forte crescimento até ao segundo semestre de 2014". Realça que "os grandes sacrifícios exigidos ao povo grego estavam a dar resultado" e havia "perspectivas encorajadoras de crescimento".

O programa do FEEF começou em 21 de Fevereiro de 2012. Previsto para terminar a 31 de Dezembro de 2014, foi estendido por dois meses a pedido do governo de Antonis Samaras e, em Fevereiro deste ano, já com o governo de Alexis Tsipras, foi prolongado por mais quatro meses.
O montante do empréstimo em dívida ascende a 130,9 mil milhões de euros, o que torna o FEEF, de longe, o maior credor da Grécia.

O comunicado sublinha a singularidade do programa que hoje termina:
O programa de assistência financeira da Grécia foi único em muitos aspectos. Devido à gravidade das deficiências estruturais do país e das necessidades de ajustamento, foi o maior programa do FEEF ou do MEE de sempre. Também tinha, de longe, as condições de crédito mais favoráveis jamais concedidas a um programa do FEEF ou do MEE de um país. Incluiu o envolvimento do sector privado, com perdas consideráveis para os investidores privados. A Grécia beneficia de um empréstimo com a maturidade média de mais de 30 anos. O país não paga, nem taxas de juros, nem de resgate, sobre parte esmagadora dos empréstimos do FEEF até 2023.

O governo grego também solicitou um terceiro programa de resgate e reestruturação da dívida ao fundo de resgate do euro.
Os ministros das Finanças da Zona Euro já fizeram uma primeira avaliação negativa da proposta da Grécia, em reunião por teleconferência nesta terça-feira, mas pediram a Atenas para aprofundar e pormenorizar a sua proposta.


*


A Grécia gastava 17,5% do PIB com os pagamentos de pensões, mais do que qualquer outro país da União Europeia, de acordo com os dados de 2012, os últimos disponíveis no Eurostat. Os cortes efectuados pelo Governo de Samaras baixaram este valor para 16%, mas Tsipras recusa fazer mais cortes de pensões porque a taxa de desemprego é elevadíssima, mais de 25% da população activa, e os pensionistas estão a sustentar as famílias dos filhos desempregados.

De 2010 a 2014, as pensões foram cortados 27%, em média, e 50% para os mais ricos. A idade média de reforma subiu dois anos em 2013. Mesmo assim, agora os homens gregos aposentam-se, em média, aos 63 e as mulheres aos 59 anos.

Actualmente as pensões gregas rondam 833 euros por mês, em média. Mas baixaram de 1350 euros, que era a média em 2009, segundo o instituto do maior sindicato do país, o INE-GSEE. Além disso, o governo de Tsipras fixou a linha de pobreza em 665 euros mensais e 45% dos pensionistas recebem pagamentos mensais abaixo desse valor.

A título de comparação, recorde-se que, em 2015, o Complemento Solidário para Idosos (CSI) dos pensionistas portugueses, com mais de 66 anos de idade, é 4909 euros por ano, ou seja, 409 euros mensais.

Se aos gastos com as pensões juntarmos os salários, obtém-se 80% dos gastos primários do Estado, ou seja, antes dos custos do serviço da dívida. "Os 20% restantes já foram cortados até o osso, de facto foi longe demais", disse uma fonte ligada às negociações. "Os funcionários públicos não têm lápis para escrever, os edifícios que necessitam de manutenção estão a desmoronar-se. Não é possível tornar sustentáveis as finanças públicas sem trabalhar sobre os salários e pensões."

Agora a Grécia perde tranches que totalizam 12,7 mil milhões de euros, a taxas de juro quase nulas, por recusar fazer as reformas profundas que a economia grega precisa e insistir numa nova reestruturação da dívida pública grega que iria penalizar os restantes 18 países da Zona Euro.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III g. Os pensionistas esquecidos


Os gregos encontraram hoje os bancos com as grades descidas e as máquinas automáticas fechadas durante a manhã para se proceder ao controlo dos levantamentos de dinheiro.
Os pensionistas que não têm cartões bancários para levantamento de dinheiro não conseguiram receber as suas pensões.


No seguimento do colapso nas negociações entre o governo de Alexis Tsipras e os credores, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu não reforçar os valores da linha de financiamento de emergência (ELA) para a banca grega, mantendo o anterior limite de 89 mil milhões de euros.

Alertado pelo governador do banco central grego de que a banca não conseguiria suportar o ritmo crescente dos levantamentos de depósitos das últimas semanas, o primeiro-ministro grego anunciou ontem o encerramento dos bancos gregos e a imposição de controlo de capitais. Tsipras fez questão de dizer aos gregos para permanecerem "calmos", assegurando que os "depósitos estão salvaguardados" e que o pagamento de salários e pensões não estava em perigo.
A seguir o Ministério das Finanças informou que os bancos vão permanecer fechados até 7 de Julho e que o controlo de capitais ia limitar a 60 euros o montante máximo diário de levantamentos de dinheiro nas caixas automáticas.

Os pensionistas que não têm cartões bancários dirigiram-se hoje aos bancos na esperança de levantarem dinheiro das suas pensões, mas não conseguiram porque não se confirmou os rumores de que os bancos poderiam abrir para os pensionistas.


Pensionistas fazem fila fora de uma sucursal do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, em Atenas, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Yannis Behrakis


Os pensionistas que esperam fora de uma sucursal fechada do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, discutem com um funcionário do banco (E) em Heraklion, na ilha de Creta, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Stefanos Rapanis

REUTERS/Stefanos Rapanis


Um gerente bancário explica a situação aos pensionistas que esperam fora de uma sucursal do Banco Nacional da Grécia na esperança de obterem as suas pensões, em Tessalónica, Grécia, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Alexandros Avramidis


Pessoas sentadas fora de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica


Pessoas, na sua maioria pensionistas, discutem com um membro do pessoal (C) de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, na sede do banco em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica

REUTERS/Marko Djurica


As pessoas, na sua maioria pensionistas, discutem entre si fora de uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, na sede do banco em Atenas, em 29 de Junho de 2015.
REUTERS/Marko Djurica

Perante o drama destas pessoas, um funcionário do governo grego veio dizer que é expectável que abram 850 sucursais bancárias para o pagamento de pensões: "As sucursais dos bancos vão abrir antes de segunda-feira. Há um esforço para que abram na quinta-feira."


*


Os bancos recebem o dinheiro depositado pelos clientes e fazem empréstimos às empresas e aos particulares. Para satisfazerem os levantamentos de dinheiro por parte dos seus clientes, os bancos socorrem-se de financiamento do BCE. Se houver algum motivo que leve este banco central a recusar, vão à falência.
Por exemplo, o Banco Espírito Santo sofreu uma medida de resolução no ano passado quando, depois de apresentar prejuízos elevadíssimos nas contas do primeiro semestre, o BCE recusou manter o financiamento ao banco.

Depois dos levantamentos de dinheiro da última semana, concomitantes com o arrastar das negociações do ministro das Finanças grego com os seus parceiros dos restantes 18 países da Zona Euro, a banca grega pediu mais um reforço do financiamento de emergência ELA.

Com a manutenção do ELA em 89 mil milhões de euros, o colapso das negociações no sábado e a corrida às caixas multibanco do fim-de-semana, a banca grega estava na iminência de falir. Nada mais restava ao primeiro-ministro grego e ao seu ministro das Finanças senão imporem o encerramento dos bancos e o controlo de capitais.

A questão é que nem Tsipras, nem Varoufakis, nem ninguém no governo grego se lembrou das dezenas de milhar de pensionistas que não dispõem de cartão de débito bancário e que iam ficar mais de uma semana, em desespero, sem dinheiro para comer.

Este infeliz incidente revela a inexperiência dos actuais governantes gregos e a irresponsabilidade com que tomam decisões, sem acautelar as consequências sobre os gregos mais desprotegidos que, ideologicamente, dizem defender. Mas pode abrir os olhos aos eleitores gregos que confiaram o seu voto a Tsipras e que, depois deste episódio dramático, irão reflectir e eventualmente votar "Ναί" ("Sim", em grego) no referendo de 5 de Julho.



Actualização em 1 de Julho

Cerca de um terço das sucursais dos bancos gregos abriram hoje mas apenas para o pagamento de pensões. Os pensionistas sem cartões multibanco podem levantar até 120 euros por semana.

Cerca de um terço das sucursais dos bancos gregos, ou seja, aproximadamente mil balcões abriram esta quarta-feira, 1 de Julho, para permitir que os pensionistas sem cartão multibanco fizessem levantamentos de dinheiro. Mas só podem descontar até 120 euros, por semana, dos cheques das pensões, muito menos do que os outros clientes dos bancos.

Contudo, estarem a ver, desde sábado, as pessoas a formarem longas filas diante das caixas multibanco para levantarem dinheiro e ficarem impedidos de aceder às pensões, durante dois dias, deixou marcas nos pensionistas e houve tensão à porta dos bancos gregos:






domingo, 28 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III f. O encerramento dos bancos


Após a decisão do Banco Central Europeu de não reforçar os valores da linha de financiamento de emergência (ELA) para a banca grega, o governo de Alexis Tsipras decretou o encerramentos dos bancos e o controlo de capitais.

Em declaração televisiva feita ao povo grego este domingo, por volta das 19:00 em Lisboa, o primeiro-ministro da Grécia anunciou o encerramento dos bancos gregos e impôs o controlo de capitais.
Tsipras disse ter aceite uma recomendação do banco central grego ao seu Governo depois do bloqueio das negociações no sábado.
E fez questão de avisar os gregos para permanecerem "calmos", assegurando que os "depósitos estão salvaguardados" e o pagamento de salários e pensões não está em perigo.

Entretanto a comunicação social revelou que o Ministério das Finanças anunciou que os bancos vão permanecer fechados até 7 de Julho e o controlo de capitais imposto limita a 60 euros o montante máximo de levantamentos por dia.

Recordemos que, durante a crise do sistema financeiro cipriota em 2013, foram impostas medidas de controlo de capitais que apenas impediam o levantamento de quantias superiores a 300 euros diários e proibiam as transferências de dinheiro, ou a posse em saída para o estrangeiro, de quantias superiores a 3 mil euros.


*


A resposta dos gregos foi uma corrida aos levantamentos de dinheiro, formando-se longas filas defronte das caixas multibanco, com muito mais gente do que no sábado, quando foi divulgado o bloqueio das negociações dentro do Eurogrupo.








Os comentários dos outros:

Grexit
28 Junho 2015 - 21:24
O Tsipras é o maior, limita o levantamento a 60 euros diários. Ora toma e embrulha povo Grego! Começou a austeridade à Syriza!

xxxx
28 Junho 2015 - 22:06
A Catarina e o Louçã emudeceram? Não falam da reestruturação da dívida?
E o Costa já não aplaude o Syriza? Esse oportunista e traidor vai ficar mais 4 anos na oposição. Quem se está a mijar de tanto rir é o Seguro!

Paulo Paiva Santos @ Facebook
28 Junho 2015 - 22:45
Tsipras toma uma das primeiras medidas de austeridade, levantamento de Eur. 60,00 diários e Banca encerrada até próximo dia 7 Julho.
Faz-me lembrar de experiências vividas pós-25 de Abril, em que o Governo Socialista de Mário Soares impôs, como forma de controle de capitais (evasão de capitais) que os portugueses que se deslocassem ao estrangeiro não podiam gastar mais que Escudos 12.500 por ano, com registo e averbamento no passaporte.
Inédito não é, original, verdade! Pois é, assim foi na altura. É o mesmo que dizer que durante esse período os portugueses tinham um passaporte, mas poucas ou nenhumas condições para viajar.
Quanto a Mário Soares... "Oh Sr. Polícia deixe-nos em paz", óbvio, as medidas que tomava, eram destinadas aos outros, a Ele nunca lhe tocaram à porta. Os Traidores gozam de certas regalias...

PF
28 Junho 2015 - 22:49
Parabéns Tsipras. Acabou de condenar toda a esquerda radical da Europa.

Miguel Bél @ Facebook
28 Junho 2015 - 23:40
Não era melhor fazerem um referendo para ver se o povo aceita que se encerrem os bancos, tal como querem fazer para não pagar os calotes?


A Grécia à beira da bancarrota - III e. O esclarecimento de Lagarde


A directora-geral do FMI, Christine Lagarde, afirmou que o referendo na Grécia deixa de fazer sentido com o fim do resgate na terça-feira.

"Não posso falar pelo programa do FMI, porque o programa do FMI continua válido, mas o resgate financeiro europeu expira a 30 de Junho. Portanto, pelo menos do ponto de vista legal, o referendo terá a ver com propostas e acordos que já não são válidos. É uma questão legal", afirmou Lagarde hoje, em entrevista à BBC.

Christine Lagarde acrescentou que a Grécia deixará de ter acesso a qualquer financiamento dos países que constituem o FMI, se não reembolsar os 1,6 mil milhões de euros com vencimento em 30 de Junho até às 18:00 em Washington (23:00 em Lisboa), tendo explicado o motivo:
"É dinheiro que é devido à comunidade internacional, incluindo povos que têm um nível de vida inferior ao dos gregos, e espero que esse pagamento seja feito na terça-feira até às 18:00 (tempo de Washington). Se não for pago, isso significa que a Grécia continua a ser um membro do FMI, a ser representada na administração, a beneficiar de assistência técnica mas não posso continuar a emprestar mais dinheiro em benefício da Grécia."


*

Alexis Tsipras chegou ao poder num País com uma enorme dívida mas com superavit primário, ou seja, as receitas já cobriam as despesas do Estado sem contabilizar os juros. Portanto se os credores perdessem o dinheiro emprestado, os gregos podiam criar nova dívida e regressar ao nível de vida que usufruíam antes do resgate e o Syriza eternizar-se-ia no poder.

Era uma táctica inteligente mas prejudicava gravemente as populações dos países pertencentes ao FMI que contribuíram com verbas para emprestar aos países europeus então sob resgate — Grécia, Irlanda e Portugal. O FMI, como lhe competia, defendeu os interesses dos credores, de modo que a artimanha grega não vai funcionar.

Em Fevereiro, o Governo liderado por Tsipras recebeu um prolongamento por quatro meses do programa de resgate, a terminar no último dia de Junho. Dia em que, recentemente, pediu para juntar os pagamentos ao FMI devidos em diferentes dias desse mês. Teve tempo de sobra para preparar o referendo onde seria perguntado aos gregos se aceitavam a última proposta do Eurogrupo. Esse referendo deveria estar a decorrer hoje. Mas não está.

Na verdade, Tsipras pretende conduzir a Grécia para fora do Euro mas, como a economia grega vive, em larga medida, dos turistas oriundos dos países da Zona Euro, precisava de tempo para conseguir que os gregos aceitem a ideia.
Um referendo sobre uma proposta dos credores que expira em 30 de Junho e, por isso, sem valor legal em 5 de Julho, permitir-lhe-ia esticar o prazo, além de lavar as mãos como Pôncio Pilatos. A maior parte dos eleitores gregos nem vai perceber que se está a pronunciar sobre uma proposta de acordo que já não existe.

É a grande vantagem da democracia: o povo fica com a responsabilidade, embora muitas vezes nem tenha a noção das consequências da escolha que faz com o seu voto, e os políticos livres como passarinhos.
Lembremos as palavras do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, no Contrato Social, sobre esta forma de governo: "Se houvesse um povo de deuses, esse povo se governaria democraticamente. Um governo tão aperfeiçoado não convém aos humanos."
Temos de procurar informação em fontes fidedignas antes de tomarmos decisões para não nos deixarmos manipular por políticos interessados unicamente em usufruir as regalias inerentes ao exercício do poder.

Se, no referendo, os gregos aceitassem o acordo, Tsipras diria que era preciso continuar as negociações porque o acordo já não era válido. Os gregos habituavam-se a não cumprir os prazos de pagamento dos empréstimos e os outros países adaptavam-se aos calotes gregos. Era uma ideia fantástica: com o decorrer do tempo adquiriam o direito de não pagar. Jogaram e perderam. É a vida.

Outras reacções à notícia no Negócios:

a
10:24
A união europeia com isto mostra que lhe falta muito para ser democrata. Só lhes ficava bem dar mais 5 dias pois assim estão a mostrar que isto não é uma negociação mas sim um ultimato encoberto.

Anónimo
11:02
Um referendo de boa fé, devia ter programado para hoje e não dia 5 de Julho. É mais uma manobra!

Anónimo
11:18
O Programa da UE terminava em Fevereiro, foi prolongado até 30 de Junho, exactamente para "dar tempo" aos Gregos e agora este "salto-mortal"? A esquerdalhada funciona assim, viram o texto-ao-contrário e andam permanentemnete em "manobras de esquivar-se" e no fim atacam pelas costas!

litos335
13:34
Com a recusa em aceitar condições, com o fim do actual resgate em 30 deste mês, com a falta de pagamento em Julho ao BCE e entrada em default, resta à Grécia começar desde já a imprimir novos Dracmas para poder pagar vencimentos e pensões.
Ninguém corre com a Grécia. A Grécia sai pelo seu pé, porque não tem condições de permanência e os 18 não estão dispostos a continuar a engordar a Dívida Grega sem esperança de voltar a ver os euros emprestados.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III b. As propostas finais


Com 30 de Junho a aproximar-se — dia em que termina o programa de resgate e, além disso, expira o prazo para a Grécia reembolsar quase 1,5 mil milhões de euros ao FMI —, adensa-se a tensão nas negociações entre os representantes do Governo grego e as instituições da troika FMI/BCE/CE.
Além de reuniões do conselho dos ministros das Finanças da Zona Euro — o Eurogrupo — há reuniões mais restritas para tentar desbloquear as negociações e chegar a um acordo que satisfaça o Governo grego e os credores.
Um interessante diário minuto-a-minuto desta quinta-feira aqui.

Ao início da tarde, as instituições apresentaram uma nova proposta e os ministros das Finanças da Zona Euro interromperam as negociações até que o lado grego refaça a sua proposta. Logo a seguir, começou a Cimeira dos líderes europeus.
O Eurogrupo tem uma reunião decisiva no sábado.


*


Actualização em 26 de Junho

Na quinta-feira à tarde as instituições apresentaram ao Eurogrupo uma proposta que continha algumas cedências em relação à proposta grega, mas continuava a exigir mais cortes nas pensões e menos aumento de impostos. Está resumida nesta infografia do Negócios:






terça-feira, 23 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - III a. Inicia-se a semana final


Na segunda-feira, o Governo grego apresentou uma nova proposta de reformas assente quase exclusivamente em aumentos de impostos e subida das contribuições para a Segurança Social.
As medidas estão discriminadas aqui e o impacto que terão no orçamento grego foi resumido neste quadro:



O aumento das receitas ascendia a cerca de 8 mil milhões de euros e a proposta provocou alvoroço na Zona Euro, tendo recebido rasgados elogios dos seus líderes.
Christine Lagarde foi o único líder mundial que não se deixou impressionar, não tendo embarcado nos encómios.

Sabendo que os gregos com condições para pagar impostos recorrem a todas as artimanhas para não o fazerem e que a máquina fiscal grega é ineficiente e corrupta, esta proposta grega só devia ter merecido um sorriso amarelo. Além de que o aumento da taxa de IRC para 29%, num país exangue pela fuga de capitais — segundo o banco central, desde Outubro foram retirados cerca de 30 mil milhões de euros dos bancos gregos — só vai afastar para bem longe o investimento privado.

Denota lucidez o jornalista que escreveu este artigo de opinião premonitório que transcrevemos com a devida vénia:


"A farsa da Grécia"
23 Junho 2015, 19:50 por João Carlos Barradas

"Actuam como farsantes no meio de uma tragédia os líderes europeus que fingem acreditar nas promessas de última hora chegadas de Atenas para adiar a bancarrota da Grécia.

Para começar, as propostas de Alexis Tsipras só serão aprovadas pelo parlamento de Atenas, nos termos divulgados terça-feira, com apoio da oposição conservadora e socialista à custa de cisões no Syriza e, eventualmente, do fim da coligação com os xenófobos de extrema-direita Gregos Independentes.

Admitindo que o pacote austeritárito de Tsipras sobreviva a uma crise governamental, o calendário do processo legislativo grego impossibilita que Atenas aprove legislação atempadamente para honrar os seus compromissos a 30 de Junho.

Christine Lagarde terá, então, de admitir um período de graça de 30 dias após a Grécia falhar o pagamento de 1,6 mil milhões de euros ao FMI ou os credores estão condenados a adiantar 7,2 mil milhões de euros sem garantias legais.

Recessão e fantasia

As receitas estimadas do aumento de impostos — em especial do IVA, eliminando ainda regimes de excepção em ilhas do Egeu, e do IRC — implicam um acto de fé na administração fiscal grega que se caracteriza pela ineficácia e altos níveis de corrupção.

O acréscimo de contribuições para a segurança social — que com o agravamento da carga fiscal geraria presumivelmente receitas e poupanças (sendo vaga a diferença entre o poupar e o ganho) de 2,7 mil milhões de euros este ano e 5,2 mil milhões de euros em 2016 — redundaria, de facto, em maior incentivo à expansão da economia paralela.

O consequente penar e agravar das condições de subsistência, sobretudo entre mais de um milhão de reformados com pensões inferiores a 665€/mês, alastraria a mancha de pobreza que flagela mais de 30% da população.

A opção pela supressão gradual de reformas antecipadas antes dos 67 anos até 2025 é sinal de óbvia incapacidade política de reforma de um sistema insustentável, por quebra demográfica e redução de rendimentos, em que o pagamento de pensões equivale a 16% do PIB.

Um excedente orçamental primário de 1% em 2015 ou de 2% em 2016 só será possível agravando níveis económica e socialmente incomportáveis de congelamento e redução do investimento e despesa públicas.

Pagam os outros

As excepcionalmente favoráveis taxas de juros e prazos de maturidade (só a partir de 2022 Atenas começará a pagar o grosso da dívida aos parceiros europeus) tornam difícil um perdão que, de uma forma ou doutra, será concretizado à custa dos demais países do euro.

Nos países de rendimentos "per capita" inferiores à Grécia, caso, por exemplo da Eslováquia ou Letónia, é insuportável levar eleitores/contribuintes a sustentar um Estado grego viciado no financiamento externo a fundo perdido de taras clientelistas.

Para Portugal uma exposição de 4,6 mil milhões de euros, segundo estimativa do Barclays Bank, é de ter em conta para efeitos de eventual bancarrota helénica ou reestruturação de dívida.

O pagamento da dívida de 317 mil milhões de euros, equivalente a 180% do PIB, é inviável sem crescimento económico e por baixa competitividade na venda ao exterior de bens e serviços, a Grécia (apesar de reduções nominais e reais de salários) revela não ter condições para subsistir na Zona Euro.

A banca helénica, exangue pelos temores de depositantes, está em vias de esgotar as garantias devidas ao BCE e tão cedo não terá condições de injectar crédito a empresas, autarquias e particulares.

A promessa de financiamentos de 35 mil milhões de euros da Comissão Europeia para investimentos em infra-estruturas e projectos a longo prazo é irrelevante para obviar à contracção da economia grega agravada pela deflação.

Desmanchar a tenda

A farsa começou em 2001 quando a Grécia adoptou o euro graças a uma contabilidade nacional fraudulenta com conhecimento e conivência da Alemanha e França e aquiscência dos demais parceiros.

Agora, expostas as taras políticas e económicas da moeda única numa conjuntura em que voltam à discussão propostas para federalização política de forma a sustentar o euro, tornou-se incontornável o choque entre soberanias nacionais.

A Grécia — arruinada por conservadores, socialistas e extremistas de esquerda e direita — chegou ao fim da linha.

Tentar manter Atenas na moeda única pesa ainda mais do que arrostar com os tremendos custos que vai acarretar a sua queda borda fora da Zona Euro."


quinta-feira, 4 de junho de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - II


O FMI anunciou o pedido do governo de Alexis Tsipras em comunicado enviado por e-mail pelo seu porta-voz Gerry Rice:
As autoridades gregas informaram hoje o Fundo que tencionam juntar os quatro pagamentos devidos em Junho num só, que terá agora de ser realizado em 30 de Junho.

No âmbito de uma decisão do Conselho Executivo adoptada em finais da década de 1970, os países membros podem pedir para agrupar vários pagamentos de empréstimos com vencimento num mês do calendário [os pagamentos de juros não podem ser incluídos nesse pacote]. A decisão destinava-se a atender às dificuldades administrativas de fazer vários pagamentos num curto período.

William Murray, porta-voz adjunto do Departamento de Comunicação do FMI, já havia informado que os países têm a opção de agrupar vários pagamentos, num determinado mês, em um único pagamento no final do mês, na conferência de imprensa do passado dia 28 de Maio:

May 28, 2015


"Pergunta: A Grécia solicitou o agrupamento dos quatro próximos pagamentos em um? Qual é a posição do FMI sobre isso? Quem toma essa decisão, o Director-Geral ou o conselho, e isso é algo comum? Já aconteceu antes?

SR. MURRAY: Obrigado por essas questões. A resposta curta é não, não houve pedido para este agrupamento que tem obtido a atenção dos media, penso que, na semana passada. Não é específica para a Grécia, porque não houve nenhum pedido para o agrupamento, mas um país, apenas como cenário para sua orientação, os países possuem as opções de agrupamento, quando têm uma série de pagamentos num determinado mês. Têm a opção de agrupar, fazer um único pagamento no final do mesmo mês. Esta é uma política que foi adoptada na década de 1970. É usada raramente. Só estou ciente de um caso e passou-se em meados dos anos 80 em que um país agrupou pagamentos ao Fundo.

Pergunta: Sabe qual o país?

SR. MURRAY: Sim. Foi a Zâmbia.

Pergunta: E quem toma tal decisão?

SR. MURRAY: É um pedido das autoridades. É uma notificação por parte das autoridades de que vão agrupar. Esta política foi adoptada pelo Conselho Executivo, por isso, se um país diz, como sabe temos quatro pagamentos devidos no mês de Junho, vamos fazer um pagamento em 30 de Junho, um pagamento único em 30 de Junho. Têm todo o direito de fazê-lo, se quiserem.

Pergunta: As autoridades gregas têm ameaçado não pagar ao FMI os próximos três pagamentos. Está confiante de que eles vão reembolsar o FMI, e o que pode acontecer se não o fizerem? A Grécia pode ser eventualmente excluída do FMI, é algo que pertence à gama de opções?

SR. MURRAY: Obrigado. Dizer que já ameaçaram, essa caracterização não é o caso. No nosso entendimento, e o Sr. Varoufakis e outros declararam isto, é que pretendem pagar ao Fundo. Então, enquanto estivermos exactamente nesta situação, esperamos que as autoridades gregas vão pagar-nos.

Pergunta: E o que pode acontecer se não o fizerem?

SR. MURRAY: Para qualquer país que não cumpra os seus compromissos com o Fundo há um processo, um processo muito longo no tempo mas, inicialmente, o processo é que são declarados em mora e não têm acesso a financiamento do FMI.

Pergunta: Então, poderia descrever-nos essa mecânica? O primeiro pagamento, exactamente quando é devido, em que data e que horas? E quão rapidamente o FMI vai enviar, como sabe, um telegrama para a Grécia dizendo que falharam esse pagamento?

SR. MURRAY: Não tenho essa granulosidade em termos do que fazer, enviamos um telegrama ou qualquer coisa assim. Quer dizer, penso que a política em 1970 pelo agrupamento foi um resultado — Telex foi amplamente usado nos anos 70, mas não tenho a certeza sobre telegramas agora. É basicamente no fecho das operações na data do pagamento que é devido que um país seria declarado em atraso.

Pergunta: Fecho das operações na Grécia ou aqui?

SR. MURRAY: Aqui. Sim, seria, como sabe, meia-noite. Não é tão forte e rápido, mas é — nós damos-lhes um dia, como sabe, o dia em que é devido.

Pergunta: Quero dizer, o senhor apenas disse que eles não poderiam ter acesso ao financiamento do FMI, se falharem um pagamento. Isto é --

SR. MURRAY: Se um país, não estou a ser profético em qualquer extensão ou em qualquer país agora, mas se um país não cumprir os seus compromissos financeiros com o Fundo, que é um reembolso do que é devido, é declarado em mora e sob a nossa política já não tem acesso até que pague a mora. Não tem mais acesso a novo financiamento.

Agora o senhor tem de lembrar-se que o Fundo é um fundo de 188 países. É a nossa responsabilidade fiduciária. Somos os guardiões dos recursos de 188 países que reciclamos, que emprestamos a outros países. É por isso que é importante que os países reembolsem o Fundo, porque estão a receber empréstimos de 187 outros países. Vou seguir em frente a partir daqui. Não tenho muito mais a dizer, mas deixe-me ir para outra pessoa e, em seguida, vamos seguir em frente.

Pergunta: A última vez que perguntámos a Gerry [Rice, Director de Comunicação] sobre isto, ele disse que o FMI não tinha uma boa noção de quanto dinheiro a Grécia tem, porque não tinham tido discussões técnicas. Agora que as discussões técnicas estão a decorrer há algum tempo, estava a pensar se podia fornecer uma avaliação mais detalhada sobre a situação? Sei que é difícil por causa do local — algumas cidades locais têm dinheiro.

SR. MURRAY: Quer que lhe dê um valor de quanto dinheiro a Grécia tem?

Pergunta: Bem, qual é a avaliação do FMI?

SR. MURRAY: Sim, não tenho --"





*

Este é o segundo passo de gigante da Grécia no caminho que vai conduzir o país à bancarrota.

Recordemos que o primeiro passo foi dado em 12 de Maio passado quando a Grécia esvaziou a conta de reserva que os países-membros têm junto do FMI para pagar o reembolso de 750 milhões de euros devidos... ao próprio FMI.

A derradeira etapa estará percorrida dentro de pouco tempo, precisamente à meia-noite do dia 30 do corrente mês de Junho.
Os pormenores são claramente explicados na conferência de imprensa acima referida e os restantes países-membros do FMI vão suportar o calote do governo de Tsipras.

Por coincidência, o prazo para pagar os 1,5 mil milhões ao FMI coincide com o prazo de validade do actual programa de assistência da troika.

Resta fazer uma pequena, mas importante correcção: nem todos os restantes 187 países-membros do FMI vão aguentar com o calote grego, porque só alguns aceitaram encher os cofres do FMI para ajudar os países europeus que revelaram dificuldades financeiras.
Em especial, dois importantes países-membros do FMI recusaram emprestar sequer um dólar com o argumento de que, sendo a zona Euro a região mais rica do mundo, os seus países-membros não merecem ajuda.

A opinião dos outros:

Anónimo
04 Junho 2015 - 21:17
O circo do governo grego lá continua com o seu número e por cá há muita gente que comprou bilhete para ver o circo!
Enquanto não pagarem ao FMI ou outro credor qualquer vão bater palmas, quando não pagarem salários e reformas vão bater em alguém. No entanto, será mais certo a ditadura.

Anónimo
04 Junho 2015 - 22:10
"A vitória do Syriza marca o início de um novo ciclo na Europa"
António Costa - Janeiro de 2015

Criador de Touros
05 Junho 2015 - 13:39
Sou a favor de encarar os problemas de frente: antes prefiro a Grécia fora do sistema do que dentro. Com pessoas que não são sérias não se pode fazer negócios.

05 Junho 2015 - 14:03
As pessoas já sabem o que eu penso da política portuguesa: a esquerda é um inferno, a direita vale pouco. Os portugueses terão de evoluir muito, mas irá demorar bastante tempo.

05 Junho 2015 - 17:21
Esta possibilidade de os gregos ganharem tempo já tinha sido prevista por muitos, para mim, a Grécia entra em default hoje e, torno a dizer, não estou a ver como haverá acordo até ao fim de Junho. A UE tem medo, não há Homens a mandar.


terça-feira, 12 de maio de 2015

A Grécia à beira da bancarrota - I


A Grécia esvaziou a conta de reserva que os países-membros têm junto do Fundo Monetário Internacional (FMI) para pagar o reembolso de 750 milhões de euros devidos ao próprio FMI.
Segundo o jornal Ekathimerini, o FMI teve de dar autorização para que essa conta de emergência no banco central grego pudesse ser usada, e o montante retirado teria de ser reposto dentro de algumas semanas.

Os 188 países-membros do FMI têm duas contas junto da instituição — uma onde as suas quotas anuais são depositadas e uma conta de depósito que pode ser usada em situações de emergência.

Segundo explicou uma fonte governamental grega à Reuters, Atenas utilizou os 650 milhões de euros da conta de depósito de emergência para fazer o pagamento ao FMI.
"Fizemos uso do dinheiro na nossa conta no fundo", disse essa fonte, "e o governo também utilizou cerca de 100 milhões de suas reservas de caixa".

O Governo tem conseguido evitar uma situação de incumprimento, até agora, graças a um decreto que obriga as autarquias e empresas públicas a transferir para o banco central grego todo o excesso de liquidez, ao mesmo tempo que tem adiado pagamentos a terceiros.

O porta-voz do Governo divulgou que, por via deste decreto, o Governo central conseguiu angariar 600 milhões de euros. Contudo a associação de municípios decidiu neste fim-de-semana que não transferirá mais verbas para o Governo central "a menos que o governo reconheça publicamente que o país está em dificuldades", afirmou o seu presidente, Giorgos Patoulis.

Por outro lado, dados revelados ontem mostram que as dívidas do Estado grego ao sector privado subiram mais de 10% em Março, tendo atingido 4,43 mil milhões de euros.



Depois do reembolso de hoje, Atenas tem de pagar, em Junho, mais 1,5 mil milhões de euros ao FMI. Em Julho e Agosto, tem de devolver 3 mil milhões ao BCE.

O ministro das Finanças Yanis Varoufakis disse ontem que a situação de liquidez é "grave" pelo que é "terrivelmente urgente" alcançar um acordo com a troika que permita libertar a última tranche do empréstimo à Grécia, no valor de 7,2 mil milhões de euros, nas próximas semanas.


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Em 25 de Janeiro, apenas 35,5% dos votantes entregaram o voto à coligação radical de esquerda. Todas as sondagens, mesmo as mais recentes, mostram que 75% do povo grego quer manter o euro como a sua moeda.
Suave, consciente e paulatinamente, o Syriza está a empurrar a Grécia para a saída do euro — o GREXIT.