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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O drama grego II: sistema financeiro com liquidez de emergência


O primero-ministro grego Alexis Tsipras e o seu ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, terminaram hoje o périplo pela União Europeia.

Varoufakis propôs na segunda-feira, em Londres, durante uma entrevista ao Finantial Times, que os títulos de dívida pública grega detidos pelos estados-membros da Zona Euro e pelo respectivo fundo de resgate fossem trocados por obrigações indexadas ao crescimento da economia grega. E ontem deslocou-se a Frankfurt para propor a Mario Draghi a troca dos títulos gregos detidos pelo Banco Central Europeu (BCE) por obrigações perpétuas.

À saída do encontro com Draghi, o político grego disse à Reuters sentir-se "encorajado" pelo facto do BCE continuar a garantir o apoio ao sistema financeiro helénico: "O BCE é o banco central da Grécia. O BCE vai fazer o que for preciso para apoiar os estados membros da Zona Euro." Já o Finantial Times dizia que Draghi não aceitara a proposta de Varoufakis.
A dúvida desfez-se à noite, após a reunião quinzenal dos governadores do BCE. O comunicado de imprensa subsequente anunciava que o BCE deixou de aceitar obrigações do tesouro gregas como colateral para financiamento do sistema financeiro:


O Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) decidiu hoje levantar a isenção que afecta os instrumentos de dívida transaccionáveis emitidos ou integralmente garantidos pela República Helénica. A isenção permitia que esses instrumentos fossem usados em operações de política monetária do Eurosistema, apesar do facto de que não cumpriam os requisitos mínimos de notação de crédito. A decisão do Conselho de Governadores baseia-se no facto de que, de momento, não é possível assumir uma conclusão bem sucedida da avaliação do programa e está em consonância com as regras do Eurosistema.

Esta decisão não tem consequências sobre a situação de contraparte das instituições financeiras gregas em operações de política monetária. As necessidades de liquidez das contrapartes do Eurosistema, para contrapartes que não tenham suficiente garantia alternativa, pode ser satisfeita pelo banco central nacional competente por meio de assistência de liquidez de emergência (ELA), dentro das regras do Eurosistema.

Os instrumentos em questão deixarão de ser elegíveis como garantia a partir da data de vencimento da operação principal de refinanciamento em curso (11 de Fevereiro de 2015).

Esta decisão afecta todos os bancos, mas vai penalizar sobretudo os bancos gregos pois são estes que têm mais dívida pública grega nos seus balanços: 21 mil milhões de euros segundo os dados mais recentes. Fora do país, as bancas alemã e britânica são as que detêm mais obrigações do tesouro do Estado grego: 10 mil milhões cada uma.

A partir de 2008, as dificuldades de financiamento no mercado interbancário obrigaram os bancos a recorrer ao BCE para conseguirem obter liquidez, mas este banco central tem regras rígidas em relação à qualidade do colateral que pode aceitar: os títulos têm de obter um rating acima de junk (lixo) de uma, pelo menos, das maiores agências de notação financeira — Standard&Poor’s, Moody’s, Fitch e DBRS.

Quando alguns países da Zona Euro pediram ajuda financeira e ficaram sujeitos a programas de ajustamento, o BCE continuou a ceder liquidez aos bancos que usaram títulos de dívida destes países como colateral porque passavam nas avaliações periódicas de uma troika em que participava o próprio BCE. Note-se que as obrigações do tesouro portuguesas nunca foram afectadas por aquelas regras porque a DBRS sempre as classificou num grau de investimento.

Ora o programa de assistência à Grécia foi prolongado por dois meses, em Dezembro, na sequência do impasse entre o governo liderado por Antonis Samaras e a troika por causa das reformas estruturais que deviam ser introduzidas no orçamento do Estado para 2015, e expira no final do corrente mês de Fevereiro. Não só está bloqueada a última tranche do empréstimo, no valor de 7 mil milhões de euros (e 11 mil milhões ainda reservados para a banca), como também não foi negociada nenhuma linha de crédito cautelar que assegure as necessidades de financiamento no período que se segue ao final do resgate financeiro.

Ainda assim, a Grécia não entrou por enquanto num beco sem saída. As necessidades de financiamento dos bancos gregos que não tenham colaterais com qualidade continuarão a ser satisfeitas através do programa de assistência de liquidez de emergência (emergency liquidity assistance — ELA), providenciado pelo banco central grego com recursos do BCE.
Dias antes das eleições de 25 de Janeiro, o Banco da Grécia pediu ao BCE que os bancos gregos acedessem a esta linha de emergência para suportarem uma fuga de capitais do país no valor de 15 mil milhões de euros. O BCE aceitou e, pelo menos, dois bancos já recorreram a esta linha, obtendo financiamento de 2 mil milhões de euros, depois da vitória de uma coligação de partidos da extrema-esquerda, o Syriza, nestas eleições antecipadas.
Hoje o BCE decidiu conceder 60 mil milhões de euros à banca grega para que possa suportar a corrida aos depósitos. A taxa de financiamento do banco central está actualmente nos 0,05%, mas para os bancos gregos a taxa de juro será 1,55%, além de que o Conselho Executivo do BCE tem o poder de retirar este financiamento, bastando para tal obter dois terços dos votos dos seus seis membros.

Já no que respeita a emissão de obrigações do tesouro, a Grécia está bloqueada. No dia 1 de Fevereiro, após o encontro com o seu homólogo francês, Michel Sapin, Varoufakis anunciou que tinha pedido para emitir 10 mil milhões de euros em dívida de curto prazo, garantidos pelos países da Zona Euro. O BCE não aceitou porque a Grécia já tinha atingido o tecto máximo de 15 mil milhões de euros para a emissão de títulos de curto prazo.

Claramente estas decisões do BCE têm o objectivo de pressionar o governo de Tsipras a fazer reformas estruturais e a cumprir os compromissos assumidos pelo Estado grego com as instituições financeiras europeias.

A decisão de ontem teve reflexos imediatos esta manhã, provocando não só a subida das taxas de juro (yields) da dívida no mercado secundário mas também a queda dos mercados bolsistas, em especial dos títulos da banca.
A yield das obrigações do tesouro helénico a três anos disparou 337,6 pontos base para 19,702%, a cinco anos subiu 219,1 pontos para 15,201%, enquanto na maturidade a dez anos avançou 86,9 pontos para 10,547%.
Nos restantes países periféricos, os juros da dívida pública estão a subir em todas as maturidades mas os acréscimos são muito inferiores aos registados na Grécia. Em Portugal, a taxa da dívida a dez anos sobe 4,0 pontos base para 2,527%. Em Espanha a subida é de 3,9 pontos para 1,470% e em Itália é de 2,4 pontos para 1,572%.

O governo de Tsipras reagiu através do porta-voz, afirmando que "não há motivo de preocupação" e que se trata de uma "pressão política" por parte do BCE no âmbito do processo de negociação da Grécia com os seus parceiros. "Não vamos chantagear, nem tão pouco vamos deixar que nos chantageiem".

Por sua vez, o ministério das Finanças grego frisou que o sistema bancário vai manter-se adequadamente capitalizado e completamente protegido através do programa de assistência de liquidez de emergência, tendo declarado que o Eurogrupo ficou pressionado no sentido de aceitar um acordo que contemple as exigências do governo grego:
"Esta decisão coloca pressão sobre o Eurogrupo, para proceder rapidamente à conclusão de um novo acordo em benefício mútuo para a Grécia e os seus parceiros", informou o ministério em comunicado.
O Ministério das Finanças acrescentou que o Governo "aumenta diariamente" o círculo de parceiros e instituições com os quais mantém consultas e "permanece firme na sua meta de aplicar o programa de salvação social, aprovado pelo voto do povo grego".


Feb 5, 2015 3:46pm EST
Conferência de imprensa aqui.

No entanto, a realidade é diferente. Depois de conversações contundentes entre os dois ministros das Finanças, esta manhã, em Berlim, última paragem do périplo, seguiu-se uma conferência de imprensa conjunta.
O ministro alemão, Wolfgang Schäuble, declarou que as mudanças mais relevantes têm de ser feitas dentro da própria Grécia, não pelo resto da Europa, que não era realista fazer promessas eleitorais que sobrecarregassem os outros países da Zona Euro e que não tinha havido acordo mas "concordámos em discordar".
Yanis Varoufakis foi mais longe: "Nós nem sequer concordámos em discordar." Depois pediu a cooperação da Alemanha para derrotar a ameaça nazi na Grécia [onde o neonazi Aurora Dourada é o terceiro maior partido no novo parlamento em Atenas], por poder compreender o drama de uma depressão como a que nos anos 30 foi seguida pela ascensão de Hitler: "A Alemanha pode estar orgulhosa por ter erradicado o nazismo aqui, mas não na Grécia. (...) Precisamos da Alemanha do nosso lado."
Sobre as promessas feitas pelo Syriza durante a campanha eleitoral, Varoufakis reconheceu: "Temos o direito de implementar tudo o que prometemos? Não, mas temos de ter a oportunidade de apresentar o nosso mandato, e os nossos parceiros os seus, e desejavelmente chegaremos a um acordo final." Para isso é preciso tempo e dinheiro: "Um empréstimo-ponte, até ao fim de Maio, dar-nos-ia espaço para gerar um novo contrato com a Europa. (...) faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar um default."


Ao chegar a Roma, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras recebeu uma gravata como prenda do seu homólogo italiano Matteo Renzi.

Confrontado com o apoio dos dois líderes de centro-esquerda europeus, o presidente francês, François Hollande e o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, à decisão do BCE e por eles aconselhado a chegar rapidamente a um acordo com a troika, o primeiro-ministro grego regressou a Atenas de mãos vazias.
Valeu a Tsipras o gesto de apoio do presidente russo, Vladimir Putin, em litígio com o Ocidente por causa da Ucrânia, que convidou o líder grego a visitar Moscovo no dia 9 de Maio, durante um telefonema em que discutiram a cooperação na energia e no desenvolvimento das economias russa e grega.


*

Propor que os títulos de dívida pública grega detidos pelos estados-membros da Zona Euro sejam trocados por obrigações indexadas ao crescimento da economia grega, permitindo que a Grécia não pague quaisquer juros nos anos em que a economia tenha um mau desempenho, e que os títulos detidos pelo BCE sejam trocados por obrigações perpétuas, ou seja, sem data de vencimento, é acreditar que os outros Estados-membros da Zona Euro são o Pai Natal.
Proferir declarações delirantes e chamar chantagistas aos outros países, quando não se consegue convencer os interlocutores, é perder as estribeiras.

O sistema financeiro grego está preso ao euro por um fio chamado ELA. Se Tsipras deixar quebrar esse fio, os bancos gregos entram em falência e a Grécia irá regressar ao dracma cujo valor cambial ficará associado à força que a economia grega for capaz de evidenciar. O ajustamento será rápido, brutal e doloroso.

O regresso a uma moeda fraca poderá incrementar as exportações gregas (se aumentarem a produção de bens transaccionáveis), mas reduzirá drasticamente as importações e todo o bem-estar associado (medicamentos, automóveis, electrodomésticos, electrónica, ...).
A população grega ficará dividida em duas classes: os que conseguiram enviar as poupanças (eventualmente derivadas da evasão fiscal ou da corrupção) para o estrangeiro, que vão poder importar bens do exterior pagos com euros e, portanto, desfrutar de um nível de vida razoável; os mal-afortunados que não conseguiram vão ver as suas poupanças reduzidas a uma insignificância, ficar sujeitos a racionamentos e conhecer a diferença entre austeridade e fome. Medidas que aumentem ainda mais a desigualdade na sociedade grega serão profundamente injustas.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Quanto deve a Grécia, a quem e em que condições


A dívida pública da Grécia totalizava 315,5 mil milhões de euros no terceiro trimestre de 2014 (176% do PIB) e está nas mãos sobretudo de entidades oficiais, como os fundos de resgate do euro, os países da Zona Euro e o BCE.

O empréstimo do fundo de resgate do euro totaliza 45% da dívida e a Grécia só a partir de 2023 começará a pagar juros a uma taxa de cerca de 1,5%.

Os países da Zona Euro detêm 17% da dívida que só comecará a ser amortizada a partir de 2020, pagando a Grécia a taxa Euribor (actualmente quase zero) mais 0,5% de spread. Portugal emprestou 1,1 mil milhões de euros até pedir assistência financeira em Maio de 2011.

A fatia da dívida na posse do FMI é apenas 8%, variando a taxa de juro entre 3 e 4%.

Os investidores privados concederam à Grécia um perdão de 200 mil milhões de euros em Março de 2012, o maior perdão de dívida da história, e agora só detêm 17% da dívida pública grega. Veja os pormenores nesta infografia do Negócios:







No entanto, os gregos não estão satisfeitos com estas condições. Na proposta apresentada pelo ministro das Finanças grego na segunda-feira, em entrevista ao Financial Times, os títulos gregos detidos pelos estados-membros da Zona Euro e pelo respectivo fundo de resgate seriam trocados por obrigações indexadas ao crescimento da economia grega, permitindo que a Grécia não pagasse quaisquer juros nos anos em que a economia tivesse um mau desempenho.
Os títulos na posse do Banco Central Europeu (BCE) seriam trocados por obrigações perpétuas (sem data de vencimento).


*


Adicionando os empréstimos bilaterais com a participação no fundo de resgate do euro, os países da Zona Euro emprestaram 195 mil milhões de euros à Grécia.
No gráfico abaixo, os contribuintes mais expostos à dívida pública grega parecem ser os da Alemanha, com 60 mil milhões de euros, da França com 46 mil milhões e da Itália com 40 mil milhões.





No entanto, a capacidade de um país suportar uma perda mede-se em percentagem do PIB. Neste ranking, considerando o PIB nominal de 2013, a Alemanha cai para oitavo lugar, com uma exposição no valor de 2,2% do tamanho de sua economia, a França fica ex aequo e a Itália cai para sexto lugar com 2,5%. Entre empréstimos e garantias, Portugal concedeu, no total, 5 mil milhões de euros, o que corresponde a 3,2% do PIB português e lhe dá o primeiro lugar, sendo o país que mais perde se a Grécia recusar-se a pagar a sua dívida pública.

Correcção
Portugal não é o país que mais perde, mas sim a Eslovénia. Ver correcção do autor do artigo aqui.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

BCE anuncia compra de 60 mil milhões de euros de dívida por mês


O Banco Central Europeu (BCE) decidiu implementar um programa de compra alargada de títulos ao ritmo de 60 mil milhões de euros por mês até, pelo menos, Setembro 2016, com o objectivo de alcançar taxas de inflação próximas de 2% na zona Euro.

Numa conferência de imprensa iniciada às 14:30 CET (13:30 em Lisboa), Mario Draghi anunciou que o BCE vai implementar um programa de compra de títulos que incluirá obrigações emitidas pelos governos centrais dos Estados-membros da zona Euro, por certas agências da zona Euro e por certas instituições supranacionais ou internacionais localizadas na zona Euro.
Vai abranger os programas de compra de dívida privada já existentes, mas não inclui compra de dívida de empresas como chegou a ser admitido.

As compras serão feitas ao ritmo de 60 mil milhões de euros por mês, um valor que inclui também as efectuadas ao abrigo dos programas ABSPP (asset-backed securities purchase programme) e CBPP3 (covered bond purchase programme), dois programas de compra de dívida privada iniciados em Outubro de 2014 — o primeiro para títulos garantidos por activos e o segundo para obrigações garantidas — cujos critérios permanecem inalterados. Os títulos serão avaliados pelo custo de amortização.

Este programa vai decorrer entre Março de 2015 e Setembro de 2016, mas poderá continuar até que a inflação na zona Euro comece a recuperar no sentido de atingir a meta de 2% definida no actual mandato do BCE.

O programa inclui a compra de títulos com maturidades dos 2 aos 30 anos no momento da compra. Serão aceites títulos com notações de risco de investimento, como sucede no caso português, e aplicadas regras especiais aos países sob programas de ajustamento, o que vai permitir a compra de títulos gregos e cipriotas.
Mario Draghi esclareceu que as compras serão feitas de acordo com a chave de capital dos Estados-membros da zona euro no BCE. Portugal detém cerca de 2,5%, ou seja, serão comprados 1,45 mil milhões de euros por mês.

Mas há limites para a aquisição destes títulos adicionais. O BCE
  • não comprará mais de 33% da dívida pública de cada país, nem poderá deter mais de 25% de cada emissão de um país;
  • não comprará dívida no mercado primário, ou seja, no momento em que os países emitem os títulos;
  • criou um sistema de partilha de risco entre os vários países: 20% das compras adicionais (8% pelo BCE e 12% pelos bancos centrais nacionais) terão o risco mutualizado por todos, os restantes 80% ficarão no balanço dos bancos centrais nacionais.

O PIB real na zona Euro subiu 0,2%, em variação homóloga, no terceiro trimestre de 2014. Os dados mais recentes e a evidência observada apontam para um crescimento moderado na viragem do ano. Olhando para o futuro, as recentes quedas nos preços do petróleo têm fortalecido a base para a recuperação económica ganhar impulso. Preços mais baixos do petróleo devem apoiar o rendimento disponível real das famílias e a rentabilidade das empresas. A procura interna também deve ser reforçada com as nossas medidas de política monetária, a melhoria contínua das condições financeiras e os progressos realizados na consolidação fiscal e nas reformas estruturais. Além disso, as exportações devem beneficiar da recuperação global. No entanto, a recuperação da zona Euro vai, provavelmente, continuar a ser atenuada pelo desemprego elevado, a considerável capacidade não utilizada e os ajustes de balanço necessários nos sectores público e privado”, explicou Draghi na sua declaração inicial para, em seguida, abordar o problema da inflação:

Segundo o Eurostat, na zona Euro a inflação homóloga medida pelo IHPC foi -0,2% em Dezembro de 2014, depois de 0,3% em Novembro. Este declínio reflecte principalmente uma queda acentuada dos preços de energia e, em menor medida, a diminuição da taxa de variação homóloga dos preços dos alimentos. Com base nas informações actuais e prevalecendo os preços futuros do petróleo, a inflação homóloga medida pelo IHPC deverá manter-se muito baixa ou negativa nos próximos meses. Taxas de inflação tão baixas são inevitáveis no curto prazo, dada a recente queda muito acentuada nos preços do petróleo e assumindo que nenhuma correcção significativa terá lugar nos próximos meses. Apoiadas nas nossas medidas de política monetária, na recuperação esperada no consumo e no pressuposto de um aumento gradual dos preços do petróleo no período que se avizinha, as taxas de inflação devem aumentar gradualmente nos finais de 2015 e em 2016.

Para o fim, Draghi guardou a análise monetária:

A taxa de variação anual dos empréstimos a sociedades não financeiras (corrigida de vendas e titularização de créditos) manteve-se fraco em -1,3% em Novembro de 2014, em comparação com -1,6% em Outubro, enquanto continua a recuperação gradual de uma calha de -3,2% em Fevereiro de 2014. Em média, nos últimos meses, os resgates líquidos têm registado uma moderação dos níveis historicamente elevados de há um ano e os fluxos de empréstimos líquidos passaram a ser ligeiramente positivos em Novembro. A este respeito, o inquérito aos bancos em Janeiro 2015 indica uma flexibilização adicional dos padrões de crédito no quarto trimestre de 2014, com as disparidades entre países diminuindo em paralelo com um aumento na procura de empréstimos em todas as categorias de empréstimos. Os bancos esperam que essa dinâmica prosseguirá no início de 2015. Apesar destas melhorias, a concessão de empréstimos a sociedades não financeiras permanece fraca e continua a reflectir a relação desfasada com o ciclo de negócios, risco de crédito, factores de oferta de crédito e o ajustamento em curso dos balanços do sector financeiro e não financeiro. A taxa de crescimento homóloga dos empréstimos às famílias (corrigida de vendas e titularização de créditos) foi de 0,7% em Novembro, depois de 0,6% em Outubro. As nossas medidas de política monetária devem apoiar uma melhoria dos fluxos de crédito.

O valor anunciado pelo presidente do BCE fica acima das expectativas de mercado que, na última semana, apontavam para um montante total abaixo de 700 mil milhões de euros, não ultrapassando os 50 mil milhões de euros por mês. Ficam até acima dos números que, segundo a Reuters e a Bloomberg, terão sido apresentados ontem e hoje ao Conselho dos 28 governadores pela Comissão Executiva do BCE (os seis membros permanentes que trabalham em Frankfurt).
Uma fonte de um banco central da zona Euro disse que cinco políticos se opuseram a este programa de compra alargada de títulos: os governadores dos bancos centrais da Alemanha, Áustria, Estónia e Países Baixos, e ainda a alemã Sabine Lautenschlaeger, um dos seis membros da Comissão Executiva do BCE.

Com este programa de compra de títulos, o BCE tem grandes expectativas. Espera aliviar os bancos e outros operadores financeiros da zona Euro da dívida pública que têm em carteira, trocando-a por dinheiro para gastarem em novos financiamentos, seja na compra de outros activos, seja no crédito à economia.
O BCE espera ainda que aumentar o dinheiro em circulação gere aumentos de preços. E que a taxa de câmbio do euro baixe, ajudando os exportadores da zona Euro. Além disso, e talvez ainda mais importante para muitos economistas, o BCE espera garantir uma inflação de 2% no médio prazo.

No entanto, o sucesso desta operação de estímulo à economia está longe de ser seguro. O maior risco é que este tipo de instrumento da política monetária precisa de ser apoiado por políticas nacionais de incentivo ao consumo das famílias enquanto prosseguem as reformas estruturais. Outros críticos do programa defendem que os impactos serão pequenos porque as taxas de juro e de câmbio já estão baixas.

O BCE já tinha reduzido as taxas de juros para níveis históricos, sendo 0,05% a taxa que determina actualmente o custo do crédito da zona Euro. Agora decidiu baixar os custos de financiamento dos bancos, passando os empréstimos de longo prazo iniciados no ano passado a ser feitos à taxa de juro central, sem os 10 pontos base de spread que eram aplicados.


*




Depois de três operações de quantitative easing do Fed, o financiamento da dívida pública americana tornou-se mais caro do que o da Alemanha mas a taxa de desemprego diminuiu.


Mario Draghi decidiu seguir os exemplos da Reserva Federal dos Estados Unidos, do Banco de Inglaterra e do Banco de Japão e vai lançar 60 mil milhões de euros por mês na economia europeia durante o corrente ano e em 2016. Ou seja, mais de 1 bilião de euros terá sido criado do nada (quantitative easing) na zona Euro até Setembro do próximo ano.

Uma tão impressionante enxurrada de dinheiro não podia deixar de ter efeitos imediatos nos mercados financeiros: o euro caiu para 1,14108 dólares e as cotações das acções europeias atingiram recordes de sete anos.

A elevada probabilidade do BCE tomar esta decisão dramática já tinha levado o banco central da Suíça a abandonar o limite mínimo de 1,20 francos por euro na taxa de câmbio. A Dinamarca cortou hoje a principal taxa de juro, pela segunda vez nesta semana, após o anúncio do BCE, com o objectivo de defender a ligação da coroa dinamarquesa ao euro.

O BCE e os bancos centrais dos países da zona Euro vão comprar títulos em proporção com a respectiva "chave de capital" no BCE, o que significa que será recolhida mais dívida nas maiores economias como a Alemanha do que em pequenos Estados-membros, como a Irlanda.

A Grécia e Chipre, que permanecem sob programas de resgate da UE/FMI, serão elegíveis para o programa do BCE, embora sujeitos a condições mais estritas. Na prática, porém, não haverá compra de dívida grega devido à regra que estipula um máximo de 33% para a compra de títulos emitidos por qualquer país. O BCE e outros bancos centrais da zona Euro já possuem mais do que isso, só podendo começar as compras quando os títulos gregos forem amortizando e ficarem abaixo daquele limiar.

No entanto, apenas 20% das compras serão da responsabilidade do BCE: se um governo da zona Euro não conseguir amortizar a sua dívida pública, a maior parte das perdas potenciais cairá sobre o banco central nacional.

Os cidadãos dos países da zona Euro podem votar nos partidos políticos que entenderem. Podem votar até em políticos astutos e corruptos que prometem este mundo e o outro para chegarem ao “pote”, e depois entretêm o povo com algumas benesses enquanto endividam o país e engordam desavergonhadamente as contas dos amigos nos bancos suíços. Mas os eleitores têm de estar conscientes que vão pagar esses pecúlios alheios até ao último cêntimo e com juros.

É verdade que depois de três operações de quantitative easing do Fed, o financiamento da dívida pública americana tornou-se mais caro do que o da Alemanha mas a taxa de desemprego diminuiu face à da zona Euro. Acontece que os Estados Unidos são a maior potência militar mundial e detêm a primazia na inovação tecnológica. Na zona Euro há países, como a Grécia, que vivem da agricultura, da aquicultura e do turismo.


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Acabou a especulação sobre a dívida pública dos países cumpridores


"A fixação de um limite pelo banco central para a compra de dívida seria um convite aos especuladores."

Declaração do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, à emissora pública Deutschlandfunk, hoje.



O apoio de Schäuble à decisão do Banco Central Europeu (BCE) de comprar ilimitadamente dívida pública dos países do euro mais vulneráveis no mercado secundário, vem pôr fim à especulação que se abateu sobre as obrigações do tesouro destes países — Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália.


Por sua vez, em entrevista ao matutino alemão Sueddeutsche Zeitung, o presidente do BCE, Mario Draghi, defendeu a decisão que anunciou na semana passada de comprar dívida pública de países do euro a cumprir programas de ajustamento no mercado secundário, para evitar a subida das yields.

Sem um tal programa de compra de dívida soberana, os países em crise da zona euro "arriscam-se a entrar num círculo vicioso, de que não conseguirão libertar-se mesmo com uma boa política económica", advertiu Draghi, acrescentando que as críticas de alguns políticos alemães, resultantes da história deste país marcada pelo receio da inflação, dificultam o seu trabalho.

Estes políticos alemães receiam também que os contribuintes germânicos tenham de suportar encargos muito elevados, se países como a Espanha ou a Itália não conseguirem financiar as suas dívidas públicas.
Para os sossegar, Draghi prontificou-se a dar esclarecimentos no parlamento alemão, se para tal for solicitado, tendo esclarecido que o BCE só comprará dívida pública de países "que cumpram condições rigorosas", assim controlando os riscos desta operação.

Nesta entrevista, Draghi apelou aos países sob resgate que não abrandem a sua política de reformas estruturais porque "ainda há muito que fazer", tendo recusado o pedido da Grécia para entregar 40 mil milhões de euros da sua dívida pública ao BCE.


A Zona Euro no bom caminho!


sábado, 12 de novembro de 2011

A queda dos políticos europeus


Os investidores mundiais estão a impor o afastamento de primeiros-ministros europeus débeis ou coniventes com a degradação financeira e a corrupção dos agentes económicos dos seus países.
Parece existir um tecto de 7% nas yields da dívida soberana cuja transposição motiva a queda.

No início de Abril de 2010, o primeiro-ministro Papandreou viu os juros das obrigações do tesouro gregas, a dez anos, ultrapassarem os 7%. Quinze dias depois, pediu ajuda à UE e ao FMI.
Desde então a Grécia passou por vários pacotes de austeridade, viveu entre manifestações e greves da função pública, das empresas do Estado e dos beneficiários de subsídios e pensões, nunca tendo conseguido cumprir os défices orçamentais acordados ou avançar nas privatizações. Na passada terça-feira, 8 de Novembro de 2011, o terceiro primeiro-ministro da dinastia Papandreou demitiu-se para provocar a formação de um governo de unidade nacional entre o partido socialista grego e a Nova Democracia, o maior partido da oposição de direita.
Quem vai chefiar este governo? Lucas Papademos, governador do Banco da Grécia, entre 1994 e 2002, época da sua adesão ao euro, e vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), entre 2002 e 2010. O banco de investimento que assessorou a adesão grega à Zona Euro, colaborando na mistificação das contas públicas gregas, foi o banco norte-americano Goldman Sachs.

A Irlanda foi o segundo país a transpor o tecto dos 7%. Em Fevereiro deste ano, o então primeiro-ministro Brian Cowen, do partido centrista Fianna Fail, perdeu as eleições legislativas para Enda Kenny, do partido de centro-direita Fine Gael que formou uma coligação com o partido trabalhista irlandês.

Em Portugal as yields da dívida soberana furaram o tecto de 7% em Novembro de 2010. Quando o Parlamento rejeitou um quarto programa de austeridade, em Março de 2011, o primeiro-ministro, José Sócrates, pediu a demissão.

Espanha viu os juros das obrigações de dívida soberana, a dez anos, subir acima dos 6% enquanto o movimento dos indignados acampava na Puerta del Sol. Prudentemente, José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro socialista, antecipou as eleições legislativas para o próximo dia 20 de Novembro. Prevê-se que o Partido Popular, de direita, liderado por Mariano Rajoy, obtenha maioria absoluta.

Também se prevê para breve a queda de Iveta Radicova, a primeira-ministra da Eslováquia, pois o parlamento eslovaco só permitiu o alargamento do Fundo Europeu de Estabilização Financeira depois da convocação de eleições antecipadas para Março de 2012.

Na Itália os juros da dívida chegaram aos 7% esta quarta-feira. Ontem o parlamento italiano aprovou um pacote de austeridade. Hoje Berlusconi, o homem classificado pela revista "Forbes" como a 2ª pessoa mais rica da Itália e o 74.º homem mais rico da Europa, com uma fortuna estimada em 9 mil milhões de dólares, o dono da maior empresa da comunicação social, o político acusado em quase duas dezenas de processos de corrupção, o rei das festas e dos escândalos sexuais mas que ganhou por três vezes o voto do eleitorado, pediu a demissão.
Berlusconi caiu quando os mercados repararam que estavam a investir num País governado por um indivíduo sem credibilidade que criara uma pirâmide de clientelismo. Quando os investidores se afastam, surge a austeridade. Quando lhe diminuem a mesada, o povo retira o apoio aos políticos.

Já não é o povo que elege os deputados, são os investidores.

Nicolas Sarkozy e Angela Merkel estão a lutar denodadamente para salvar o euro, tendo já delineado um plano B: uma Zona Euro mais pequena que vai aprofundar a integração, inclusive em áreas sensíveis como a tributação das empresas e dos trabalhadores e levantar barreiras contra a crise da dívida soberana, enquanto os restantes países da UE vão formar uma ‘confederação’ que, possivelmente, se expandirá de 27 para 35 na próxima década, com o alargamento aos Balcãs e países de leste, noticiou na quarta-feira a Reuters.
Se as populações dos países europeus meridionais não ambicionarem pertencer à Europa culturalmente mais avançada, se não abandonarem a mentalidade da subserviência e da cunha, se não souberem distinguir entre tempo de estudo e trabalho e tempo de lazer, se não começarem a exigir competência, frugalidade, transparência e honestidade aos seus políticos, acabarão por ser afastadas da Zona Euro.

É uma luta difícil: pior que dominar o cavalo de Tróia dos PIGS, é vencer o do ‘amigo’ americano.
E ainda pode haver outros cavalos: Mario Draghi, que assumiu a 1 de Novembro a presidência do BCE, sucedendo a Jean-Claude Trichet, foi vice-presidente do Goldman Sachs International que se suspeita ter sido o banco de investimento que ajudou a Itália a falsear as suas contas para poder entrar na Zona Euro. E o homem que vai substituir Berlusconi e conduzir a Itália em tempo de crise — Mario Monti — fez também parte do banco norte-americano Goldman Sachs.
O que já levou o jornal “National Journal” a publicar uma reflexão sobre o mesmo assunto, num artigo intitulado ’Government Sachs’, Italian Style, onde pergunta:
"É apenas uma coincidência que algumas das figuras-chave da crise europeia sejam ‘Goldman guys’? Não. É provavelmente uma das razões porque estamos metidos nesta confusão."


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O duunvirato europeu fez um ultimato aos gregos





Numa reunião de emergência com o primeiro-ministro grego George Papandreou, os líderes da Alemanha e da França disseram hoje à Grécia que não receberia nem mais um centavo da ajuda europeia até decidir se quer ficar na Zona Euro.
Esclareceram, ainda, que salvar o euro passou a ser mais importante do que resgatar a Grécia.

Na entrevista que concederam após a reunião, os dois líderes falaram em uníssono:
"Preferimos alcançar uma estabilização do euro com a Grécia do que sem a Grécia, mas a meta de estabilizar o euro é mais importante", disse a chanceler Angela Merkel.
"Os nossos amigos gregos têm de decidir se querem continuar a viagem connosco", reforçou o presidente Nicolas Sarkozy.

Papandreou indignou os parceiros europeus e provocou ontem o pânico nos mercados financeiros ao anunciar na segunda-feira à tarde que a Grécia iria referendar o segundo plano de resgate de 130 mil milhões de euros negociado com os líderes da Zona Euro na passada quinta-feira.

Depois de um jantar, que Merkel classificou como "duro e difícil" na véspera da cimeira do G20 em Cannes, Papandreou disse que o plebiscito pode ocorrer em 4 de Dezembro, clarificando o objectivo:
"Não é o momento de indicar as palavras exactas mas, na essência, não é apenas a questão do programa, é saber se queremos permanecer na Zona Euro."
Apesar das sondagens revelarem que a maioria dos gregos, cansados de dois anos de austeridade crescente, consideram o pacote de resgate como um mau negócio para a Grécia, Papandreou espera mais apoio da população que do parlamento:
"Acredito que os cidadãos gregos são sábios e capazes de tomar a decisão certa em benefício do nosso país."
No entanto, em toda a imprensa grega, mesmo nos jornais tradicionalmente defensores do governo, é quase unânime a condenação de Papandreou.
O Eleftherotypia, um jornal de centro-esquerda, chama-lhe "O Senhor do Caos" e o Ethnos, outro jornal pró-governo, classificou o referendo como "suicida".

Os líderes da UE também já reagiram à carta de Papandreou, dizendo que queria negociar os detalhes do segundo pacote antes do referendo.
A UE e o FMI endereçaram uma mensagem à Grécia informando que não receberia, até à votação do referendo, a parcela urgente de € 8 mil milhões prometida para este mês, porque os credores oficiais queriam ter certeza de que Atenas iria cumprir o programa de austeridade.
Segundo diz Papandreou, a Grécia tem dinheiro suficiente para continuar a funcionar até meados de Dezembro, momento em que vai precisar de resgatar um empréstimo superior a € 6 mil milhões.

Sarkozy e Merkel já anunciaram que os ministros das finanças da Zona Euro vão reunir-se na próxima segunda-feira para acelerar decisões sobre a alavancagem do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), a porta corta-fogo que pretende proteger os membros fracos que existam entre as 17 nações da Zona Euro.
Depois do caos nos mercados desencadeado pelo anúncio do referendo grego, o FEEF foi forçado a adiar o plano para levantar 3 mil milhões de euros no mercado obrigacionista.
Se Papandreou perder o referendo e a Grécia entrar em falência desordenada, os bancos europeus perdem muito mais do que os 50% da dívida soberana grega já acordados e entram em risco países com economias muito maiores, como a Itália e a Espanha, que o fundo não tem meios para socorrer.

A dúvida sobre a capacidade europeia em conter a crise da dívida colocou a Itália na linha de fogo dos investidores.
O prémio de risco dos títulos italianos sobre as obrigações alemãs atingiu hoje novo máximo, apesar do Banco Central Europeu (BCE) ter ido ao mercado secundário comprar dívida soberana italiana.
Enquanto o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi realizava uma reunião de emergência do gabinete para criar medidas no orçamento que acalmem os mercados, no parlamento pedia-se a sua demissão.
O ministro das Finanças da Irlanda acredita que o BCE será forçado a prometer "uma muralha de dinheiro" para comprar títulos, algo que incomodou muitos políticos.
Apesar disso, o BCE é, neste momento, o único baluarte europeu contra os ataques dos mercados.

Por isso, os membros asiáticos do G20 estão a pressionar a Europa para enfrentar a crise antes que provoque danos graves na economia mundial.
O ministro das Finanças chinês, Zhu Guangyao, manifestou a indisponibilidade de Pequim em investir mais no FEEF e o colega japonês Jun Azumi acrescentou que "todos estamos confusos".
O presidente sul-coreano Lee Myung-bak disse esperar rapidez e ousadia da parte do G20 na contenção da crise, antes que transborde para o resto do mundo.





O homem que quis disciplinar os gregos, por um lado, e, por outro, obter mais benesses para a Grécia pregando um valente susto à banca europeia e ao eixo franco-alemão — a estratégia Jerónimo/Louçã — corre o risco de atirar os gregos para fora da Zona Euro.
Desta vez o cavalo de Tróia falhou a sua missão.


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vítor Gaspar, um ministro respeitado na Zona Euro




Esta manhã Vítor Gaspar, ministro das Finanças, proferiu o discurso de abertura da conferência 'Desafios económicos transatlânticos numa era de multipolaridade crescente' na European School of Management and Technology, em Berlim.

O conferencista foi apresentado por Otmar Issing, antigo economista-chefe do Banco Central Europeu — onde avaliou o trabalho de Gaspar que foi, entre 1998 e 2004, o primeiro director-geral de Estudos Económicos da autoridade monetária europeia —, com estas palavras:

"Considero-o um economista extraordinário e uma pessoa absolutamente honesta, uma pessoa que considero como a melhor solução para [Portugal] reganhar credibilidade, que é hoje a coisa mais importante. Quando soube da sua nova nomeação enviei-lhe uma mensagem dizendo 'parabéns ao seu país'."

O elogiado, como é apanágio das pessoas que ascenderam na vida por mérito, agradeceu as "palavras simpáticas" e recordou a longa amizade e cooperação entre ambos, declarando com humildade:

"Para mim, [o senhor] será sempre o Professor Issing".




E de que é que falou Vítor Gaspar? Da chegada dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) aos centros de decisão mundiais o que vai obrigar o poder político, económico e financeiro global, detido até agora pela Europa e pelos EUA, a se reorganizar de forma a incluir as potências emergentes:

"No século entre 1950 e 2050, o peso da Europa no PIB mundial terá caído dos 28,2 para 17,9% e os EUA para 19,6%. No mesmo período a Ásia irá duplicar o seu peso de 18,4 para 36,5%."

Vítor Gaspar sublinhou as responsabilidades do eixo transatlântico na construção do novo modelo de governação mundial porque EUA e Europa têm em comum "desde os valores fundamentais da democracia e direitos humanos, ao mercado como o mecanismo predominante de distribuição de riqueza".


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Missão impossível: parar uma nova recessão"


Ontem à tarde, Nouriel Roubini escreveu este artigo no Finantial Times, sob o título "Mission impossible: stop another recession":

7 de Agosto de 2011 18:19


"O primeiro semestre de 2011 mostrou uma desaceleração do crescimento — se não mesmo uma contracção — nas economias mais avançadas. Os optimistas disseram que era uma correcção temporária. Uma ilusão frustrada. Mesmo antes do pânico da semana passada, os EUA e outras economias avançadas estavam a caminho de uma segunda recessão grave.

Os dados recentes da América foram ruins: houve reduzida criação de emprego, fraco crescimento e estagnação do consumo e da produção industrial. A habitação permanece deprimida. Caiu a confiança de consumidores, empresários e investidores e, agora, vai cair ainda mais.

Do outro lado do Atlântico a periferia da Zona Euro está agora em contracção ou, na melhor das hipóteses, a crescer fracamente. O risco de que a Itália ou a Espanha — e talvez ambos — venham a perder o acesso aos mercados de dívida é, agora, muito alto. Ao contrário da Grécia, Portugal e Irlanda, estes dois países são demasiado grandes para serem resgatados.

Entretanto, o Reino Unido viu o crescimento a aplanar à medida que a austeridade vai ferroando e o Japão, estruturalmente estagnado, vai recuperar durante alguns trimestres — após a dupla recessão a seguir ao terramoto — apenas para estagnar de novo quando os estímulos fracassarem. Pior ainda, os principais indicadores da produção global estão a diminuir drasticamente — quer nas economias emergentes, como a China, Índia e Brasil, quer nos países orientados para a exportação ou ricos em matérias-primas, como a Alemanha e Austrália.

Até ao ano passado os políticos podiam tirar um coelho da cartola para accionar a deflação dos activos e a recuperação económica. Taxas de juro zero, QE1, QE2, crédito facilitado, estímulos orçamentais, delimitação, provisão de liquidez no montante de biliões de dólares e resgate a bancos e instituições financeiras — tudo foi tentado. Mas agora esgotámos os coelhos.

A decisão desacertada da Standard & Poor’s de descer a notação dos EUA num momento de turbulência do mercado e fraqueza económica tão graves só aumenta a probabilidade de uma recessão em W e ainda maiores défices orçamentais. Paradoxalmente, porém, o Tesouro dos EUA provavelmente continuará a ser o activo seguro menos desagradável: a aversão ao risco, o declínio de capital e uma crise iminente podem até mesmo fazer a taxa das obrigações do Tesouro cair em vez de subir.

Agora, tanto na Zona Euro como no Reino Unido, a política orçamental é contraccionista. Mesmo nos EUA a questão é apenas o montante da redução, à medida que as autoridades estatais e locais, e agora o governo federal, cortarem despesas, reduzirem as transferências e (em breve) aumentarem os impostos. Outra rodada de resgates a bancos é politicamente inaceitável. Mas mesmo se não fosse, a maioria dos países, especialmente na Europa, estão tão enfraquecidos que o risco soberano está a gerar risco bancário — porque os bancos estão carregados de dívida pública.

A esperança numa flexibilização quantitativa [quantitative easing (QE), vulgo 'imprimir dinheiro'] será limitada pela inflação que está bem acima dos níveis-alvo no mundo ocidental. A Reserva Federal vai começar, provavelmente, uma terceira rodada de QE, mas será um pouco tarde demais. No ano passado, um QE2 de 600 mil milhões de dólares (juntamente com 1 bilião de dólares de cortes de impostos e transferências) produziu uma taxa de crescimento de apenas 3%, durante um trimestre. Um QE3 será muito menor e vai fazer muito menos.

Nem as exportações ajudam. Todos os países desenvolvidos precisam de uma moeda mais fraca, mas nem todos podem tê-la — se um é mais fraco, outro tem de ser mais forte. É um jogo de soma zero que tem o risco de reacender guerras monetárias. Estão a começar as escaramuças iniciais com o Japão e a Suíça a tentarem enfraquecer as taxas de câmbio. Em breve outros vão seguir-se.

Assim, podemos evitar uma nova recessão grave? Pode ser uma missão impossível. A melhor aposta para aqueles países que não perderam o acesso ao mercado — os EUA, Reino Unido, Japão e Alemanha — é introduzirem um novo estímulo orçamental no curto prazo, enquanto se comprometem com uma austeridade orçamental a médio prazo. A descida da notação dos EUA irá acelerar os pedidos de redução orçamental mas a América, em particular, deve comprometer-se com cortes significativos no médio prazo, não um corte orçamental imediato que vai piorar o crescimento e os défices.

A maioria dos bancos centrais ocidentais deve apresentar ainda mais QE, apesar do efeito ser limitado. O Banco Central Europeu não deve parar a caminhada das taxas: deve reduzir as taxas a zero e fazer grandes compras de obrigações soberanas para evitar que a Itália ou a Espanha percam o acesso ao mercado — o que teria como resultado uma crise verdadeiramente colossal, a exigir o dobro (ou o triplo) dos recursos para resgates, ou insolvências e a implosão da Zona Euro.

Finalmente, uma vez que esta é uma crise de solvência, assim como de liquidez, deve começar uma reestruturação ordenada da dívida. Isto significa uma redução da dívida hipotecária para a metade das famílias dos Estados Unidos que estão debaixo de água, e bail-ins para os credores dos bancos em perigo. Devem ser concedidas extensões de maturidade coercivas nas taxas livres, ao estilo grego, também para Portugal e Irlanda, com a Itália e Espanha a seguir, se perderem o acesso ao mercado. Pode não ser possível prevenir outra recessão. Mas a política pode parar uma segunda depressão. Isso é um motivo suficiente para uma acção rápida e bem localizada."




sábado, 6 de agosto de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

"Os bancos vão ter de perder dinheiro"


"A guerra deixou de ser surda: bancos e Banco de Portugal estão em braço-de-ferro.
(...)
Primeiro, os caldos de galinha: não há risco para os depositantes. E não há, precisamente, porque há dinheiro do Estado, da troika, 12 mil milhões para capitalização e 35 mil milhões para liquidez. O risco não é hoje dos depositantes. É dos accionistas. É de quem precisa de crédito.

Decifremos: o Banco de Portugal quer que os bancos vendam carteiras de crédito. Mas como o risco de Portugal é alto, os bancos têm de vender essas carteiras com desconto. Ou seja, com prejuízo. Isso reduz dividendos e aumenta as necessidades de capital. E como dificilmente se encontra quem queira investir num banco português, a alternativa é pedir ao Estado: recorrer aos 12 mil milhões de euros.

Os bancos não querem. Temem saída de capitais. Não querem prejuízos, não querem ficar mais pequenos, não querem perder o controlo do presente e do futuro — e não querem o que uma intervenção estatal obriga: a entrada dos políticos (embora esteja previsto que o Estado seja "accionista silencioso"), limites aos salários das administrações e suspensão de dividendos. As acções desvalorizariam. Para os accionistas de referência, ainda pior, pois sem dividendos não podem pagar as suas próprias dívidas nem amealhar para mais tarde recomprar a posição do Estado. E lá vão os bancos para o controlo estrangeiro.
(...)
Os bancos nunca estiveram preocupados com as novas regras de malparado e não stressaram com os testes de resistência porque estes não simularam o valor de mercado nos seus balanços da dívida pública dos países aflitos. O medo dos bancos está noutro teste, que arranca depois do Verão: a reavaliação das carteiras de crédito. É disso que Salgado e Ulrich falam quando falam de critérios "fundamentalistas".

Em Setembro, dezenas de técnicos da troika vão entrar nos bancos com uma tarefa que já fizeram na Irlanda: "varrer" os créditos e verificar se os activos que estão dados como garantia são suficientes. Na Irlanda, foram esses critérios "fundamentalistas" que levaram às nacionalizações.

Exemplo: um crédito à habitação de 200 mil euros tem como garantia o imóvel avaliado em 250 mil euros. A troika aplica uma nova métrica e diz que o imóvel vale apenas 170 mil euros. Então, ou o cliente reforça as garantias ("dá" mais património), ou o banco tem de "cobrir" a diferença com provisões. Multiplique este exemplo por milhares de créditos, empresas de imobiliário e construção, PME aflitas: dá uma imparidade enorme. Um buraco. E portanto pede-se intervenção do Estado.
(...)
Os bancos juram que não. O Banco de Portugal parece convencido de que sim. E, portanto, quer antecipar. Não é para ganhar tempo, é para salvar a economia em vez de salvar os bancos. Se não houver aumentos de capital, a alternativa será tapar a desvalorização das carteiras de crédito, encarecendo ainda mais o crédito às empresas. E as empresas estão a morrer de asfixia financeira. A quebra do investimento a que se assiste é dramática. Sem investimento, a economia não descola, a única coisa que crescerá é o desemprego.

Chegados aqui, é essencial perceber o que é hoje o Banco de Portugal. Já não é o "sindicato" dos bancos, como no passado. É o membro do Banco Central Europeu que tem mais de 40 mil milhões emprestados aos nossos bancos e é o interlocutor do FMI, que passa um terço do cheque da troika. É por isso que o Banco de Portugal tomou o controlo do Ministério das Finanças e, agora, da Caixa. Não é o Banco de Portugal: é a troika. Quem paga é a troika. Quem manda é a troika. E ainda bem. Porque o Governo parece, afinal, enclausurado no passado, desperdiçando a oportunidade de mudança da economia e cismando nos mesmos vícios: falta de corte de despesa, partidarização da Caixa — e falta de comando.

Chegará a hora de vermos as vantagens e as desvantagens das nacionalizações parciais da banca. De repartir culpas. Mas uma trave continua mestra: a economia precisa de uma banca forte. E isso vai, muito provavelmente, exigir uma nacionalização temporária, que mudará para sempre a propriedade e a gestão da banca em Portugal, menos alinhada com o Estado e que lute pela poupança. E mais estrangeira.

Como Sócrates dizia, o mundo mudou. E a banca, que sempre foi visionária, é quem está agora em negação. Vai ter de perder dinheiro. Vai ter de tirar as pequenas e médias empresas do espremedor. Vai ter de deixar de achar que a troika é idiota.

Eis o grande paradoxo: os liberais é que defendem a entrada temporária do Estado nos bancos. Vai ser impossível explicar, mas a ajuda do Estado aos bancos não será a ajuda aos donos dos bancos. Ao contrário do que parece, isso é que vai trazer perdas para os seus accionistas. Por isso é que eles não querem. Mas isso é que a economia precisa. Como veremos nos próximos meses."


terça-feira, 14 de junho de 2011

A zona euro avança para a ruptura


Os artigos de Nouriel Roubini merecem reflexão.

Primeiro, porque o autor doutorou-se em Economia Internacional na Harvard University, trabalhou no FMI, na Reserva Federal e no Banco Mundial, sendo actualmente professor de Economia na Stern School of Business, New York University, e presidente executivo da Roubini Global Economics, uma empresa de consultoria económica.

Em segundo lugar porque, em 2005, Roubini avisou que os preços dos imóveis estavam a atravessar uma onda especulativa que em breve afundaria a economia e foi alcunhado de Cassandra. Em Setembro de 2006, alertou um céptico FMI de que "provavelmente os Estados Unidos enfrentariam uma crise imobiliária gravíssima, um choque petrolífero, um declínio acentuado da confiança dos consumidores e, por fim, uma profunda recessão."
Até Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, já admitiu que as suas previsões "aparentemente bizarras" foram verificadas "ou mesmo ultrapassadas pela realidade."

Vejamos, então, o que nos diz Nouriel Roubini no artigo 'The eurozone heads for break up' ontem publicado no Finantial Times:

"13 de Junho de 2011

A abordagem da crise da zona euro, pela via da confusão, não foi capaz de resolver os problemas fundamentais da divergência económica e competitiva na União Europeia. Se isto continuar, o euro vai avançar caoticamente para reestruturações da dívida e, eventualmente, para uma ruptura da própria união monetária, enquanto alguns dos membros mais fracos vão falindo.

A União Económica e Monetária nunca satisfez plenamente as condições de uma óptima zona monetária. Em vez disso, os seus dirigentes esperavam que a ausência de políticas monetárias, orçamentais e cambiais, auspiciaria uma aceleração das reformas estruturais. Estas, esperava-se, auspiciariam a convergência das taxas de produtividade e crescimento.

A realidade acabou por ser diferente. Paradoxalmente, o efeito prestígio da convergência precoce das taxas de juro permitiram uma maior divergência das políticas orçamentais. Uma temerária falta de disciplina em países como a Grécia e Portugal foi apenas acompanhada pelo acumular de bolhas de activos em outros, como a Espanha e Irlanda. As reformas estruturais foram atrasadas, enquanto o crescimento dos salários divergiu em relação ao crescimento da produtividade. O resultado foi uma perda de competitividade na periferia.

Todas as uniões monetárias bem sucedidas encontram-se associadas a uma união política e orçamental. Mas os movimentos europeus para a união política estão paralisados, enquanto os movimentos para a união orçamental exigiriam significativos recursos federais e, também, a emissão generalizada de obrigações em euros — onde os impostos dos contribuintes alemães (e outros nucleares) não apoiam apenas a dívida dos seus países, mas também a dívida dos membros da periferia. É improvável que os contribuintes nucleares o aceitem.

A redução ou o "reescalonamento" da dívida da zona euro vai ajudar a resolver o problema do endividamento excessivo de algumas economias insolventes. Mas nada fará para restaurar a convergência económica, que exige a restauração da convergência da competitividade. Sem isso, a periferia vai simplesmente estagnar.

No ponto onde estamos, as opções são limitadas. O euro pode cair drasticamente, em valor, até — digamos — à paridade com o dólar dos EUA, para restaurar a competitividade da periferia; mas uma queda acentuada do euro é pouco provável dada a força do comércio da Alemanha e as políticas de linha dura do Banco Central Europeu.

O método alemão — reformas para aumentar o crescimento da produtividade e manter uma tampa sobre o crescimento dos salários — também não vai funcionar. No curto prazo, tais reformas tendem, na verdade, a reduzir o crescimento e demorou mais de uma década para a Alemanha restaurar a sua competitividade, um horizonte muito longínquo para as economias periféricas que precisam de crescer rapidamente.

A deflação é uma terceira opção, mas está também associada com recessão persistente. A Argentina tentou este caminho mas, após três anos de recessão cada vez mais profunda, desistiu e decidiu sair do seu padrão monetário. Mesmo que a deflação fosse alcançada, o efeito do balanço aumentaria o peso real das dívidas públicas e privadas. Toda a conversa do BCE e da União Europeia em torno de uma desvalorização interna é, portanto, imperfeita, enquanto a austeridade orçamental necessária ainda tem – no curto prazo – um efeito negativo sobre o crescimento.

Assim, dado que estas três opções são improváveis, há realmente apenas uma outra maneira de restaurar a competitividade e o crescimento na periferia: abandonar o euro, voltar para a moeda nacional e atingir uma desvalorização maciça nominal e real. Afinal, em todas as crises financeiras dos mercados emergentes que restauraram o crescimento foi necessário e inevitável um movimento para taxas de câmbio flexíveis, em cima de liquidez oficial, austeridade e reformas e, em alguns casos, a reestruturação e redução da dívida.

Claro que, actualmente, a ideia de abandonar o euro é considerada inconcebível, até mesmo em Atenas e Lisboa. Sair imporia grandes perdas comerciais no resto da zona euro, através da depreciação real e perdas de capital do núcleo credor, sensivelmente como fez a "pesificação" da dívida em dólares da Argentina, durante a sua última crise.

No entanto, os cenários que hoje são tratados como inconcebíveis podem não ser tão inverosímeis daqui a cinco anos, especialmente se algumas das economias periféricas estagnarem. A zona euro foi colada pela convergência de um crescimento sustentado por baixas taxas de juro, a esperança de que as reformas pudessem manter a convergência, e a perspectiva de uma eventual união política e orçamental. Mas, agora, a convergência sumiu, as reformas estão paralisadas, enquanto a união política e orçamental é um sonho distante.

A reestruturação da dívida vai acontecer. A questão é quando (mais cedo ou mais tarde) e como (ordenada ou caoticamente). Mas mesmo a redução da dívida não será suficiente para restaurar a competitividade e o crescimento. No entanto, se isto não puder ser alcançado, a opção de sair da união monetária tornar-se-á dominante: os benefícios de ficar serão menores do que os benefícios de sair, por mais irregular ou desordenada que a saída possa acabar por ser.
"


sábado, 30 de outubro de 2010

Portugal de joelhos perante o BCE




"Se o problema das finanças públicas é muito grave, na verdade não é senão a ponta do icebergue. (...) De facto, o problema fundamental de Portugal é que está totalmente cortado o financiamento externo.
Falamos muito dos mercados, de acatar aquilo que os mercados nos dizem, é tudo uma ficção, porque estamos fora do mercado, não temos acesso ao mercado. O único acesso que temos ao financiamento é ao Banco Central Europeu (BCE) que (...) vai financiando a economia portuguesa através da banca.
(...)
E porquê? Porque nos endividámos a um ponto gigantesco, estamos totalmente dependentes de financiamento externo, temos uma dívida externa brutal a pagar a curtíssimo prazo (...) estamos de joelhos diante do BCE esperando que eles não alterem a sua política de ir mantendo a situação e nos ir permitindo viver.
A questão principal que se deve pôr é: como se chegou a esta situação? Desde há muitos anos que estamos com uma taxa de produtividade do investimento cada vez mais baixa. E o sistema financeiro português falhou por completo porque foi colaborante nesta tendência para um ritmo de investimento alto, em projectos cada vez menos produtivos, em geral, com grande desrespeito pelos interesses dos investidores
".

António Borges, presidente do European Corporate Governance Institute e director do departamento europeu do FMI, na conferência "Reformar o Sistema Financeiro".



surpreso 29 Outubro 2010
Tudo mentira!
Como António Borges assumiu o BCE empresta dinheiro barato aos bancos que o emprestam a alto juro a Portugal. "Os mercados" é um cartel de bancos portugueses, e outros, que nos exploram.


pjota 29 Outubro 2010
Na coluna das últimas notícias
[ironic mode on] Contudo, pode ler-se "Lucros do BES podem atingir 389 milhões de euros". O dinheiro dos nossos impostos sempre serviu para alguma coisa. Ainda bem. [Ironic mode off]


torga 24 Novembro 2010 - 14:32
Dinheiro pornográfico
Um banco pede emprestado ao BCE 500 milhões de euros. O BCE empresta o dinheiro e o banco paga 5 milhões (1%) para levar o dinheiro. Uns minutos mais tarde o banco vai ter com um país europeu e empresta-lhe os mesmos 500 milhões de euros, que foi buscar ao BCE. Contudo desta vez pede ao país 35 milhões (7%) em troca do empréstimo.
Este deve ser o transporte mais lucrativo do mundo. Em pouco tempo o banco ganhou 30 milhões de euros do nada. Este banco teve um lucro de 600%.
Esta é a verdadeira razão porque os juros da dívida soberana de qualquer estado fraco sobem e não vão parar porque os bancos sabem que esses estados sempre pagaram e nunca entraram em incumprimento. Se a Alemanha ou a França estivessem com as "calças na mão" alguém tem dúvidas que iam ao BCE buscar o dinheiro directamente a 1%, tal como assobiaram para o lado quando ultrapassaram os 3% de défice?