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sábado, 16 de março de 2013

A Europa perde única fábrica de máquinas multibanco


A japonesa Talaris tenciona fechar até Junho a fábrica de Torres Vedras, única na Europa a produzir máquinas multibanco (ATM).

Adquirida em 2012 pela multinacional japonesa Glory, teve em 2011 um volume de negócios de 26 milhões de euros e resultados líquidos de 429 mil euros (1,4 milhões de euros em 2010).
Dos 834 ATM fabricados, 700 foram exportados. Recentemente ganhou o concurso para assegurar o serviço de manutenção para a Caixa Geral de Depósitos durante três a cinco anos.

A empresa, que tem 200 trabalhadores espalhados pelo país — a maioria a fazer manutenção dos ATM —, pretende encerrar as instalações em Sintra e transferir para a fábrica de Torres Vedras a logística e a manutenção.
Nesta reestruturação tenciona encerrar a linha de produção que emprega 20 trabalhadores, e transferi-la para a China onde a mão-de-obra é mais barata, e passar o departamento de recursos humanos e o departamento financeiro para Espanha. O resultado, em termos de emprego, é um despedimento colectivo de 37 trabalhadores.

A Talaris alega que dentro de alguns anos a crise vai ter reflexos na produção de máquinas multibanco para o mercado nacional. Contrapõe o Sindicato das Indústrias Eléctricas do Sul e Ilhas (SIESI) que "a empresa está a usar a facilidade que existe em Portugal para fazer despedimentos colectivos para se deslocalizar".

*

A questão é que o partido comunista que governa a China paga, em 2013, o salário mínimo de 180 euros em Shenzhen (noutros municípios ou províncias o salário mínimo ainda é mais baixo) para atrair investimentos estrangeiros e, obviamente, está a ser bem sucedido.
Se em Portugal se dificultar o despedimento colectivo, as empresas vão para a falência e saem igualmente de cá. Além de que o País não consegue captar investimento estrangeiro desde finais dos anos 90, com a consequente ausência de crescimento económico há uma década.

Pode concluir-se que o futuro dos trabalhadores portugueses vai ser auferir os salários de miséria dos chineses? Nas linhas de montagem de produtos, vai ser.
Mas se a geração que actualmente frequenta a escola trabalhar afincadamente e terminar a escolaridade obrigatória muito, mas mesmo muito mais qualificada que a geração dos seus pais, estes jovens podem tornar-se técnicos especializados, ou até projectistas, e aspirar a salários mais elevados.

Quem projecta produtos tecnologicamente avançados no mundo?
Nos Estados Unidos, e na indústria da informação, a Apple, a Hewlett-Packard, a Intel, a Microsoft, a Cisco, a Xerox, a Boston Dynamics, a aeroespacial Boeing, a produtora de maquinaria Caterpillar, na indústria automóvel, a General Motors e a Ford. O Canadá desenvolveu tecnologias extractivas e agora vem explorar concessões mineiras portuguesas.
Na Europa, temos a Finlândia com a Nokia, a Dinamarca com a Vestas — durante o governo Sócrates fomos o maior comprador das suas turbinas eólicas que vamos ter de pagar por meio de rendas elevadas aos produtores de energia eléctrica —, temos a França com as construtoras de automóveis, Renault, e de aviões, Airbus. Temos na Alemanha, e na indústria automóvel, a Volkswagen, a BMW, a Daimler, a Audi, na indústria eléctrica, a Siemens, a Bosch, a Miele, a gigante farmacêutica Bayer. No norte de Itália, a Fiat.
Na Ásia, o Japão com a indústria automóvel — Toyota, Nissan, Mitsubishi, Honda —, da informação — Fujitsu, Sony, Toshiba, Casio —, da fotografia e imagem — Canon, Nikon —. E a pequena Coreia do Sul, do tamanho de Portugal, tem um gigante na indústria automóvel, a Hyundai, e outro gigante na informação, a Samsung, que se bate no campo da inovação com a americana Apple.

Os portugueses especializaram-se em usar os produtos de alta tecnologia projectados nestes países e produzidos pelos trabalhadores chineses.

Acordar de um sonho é sempre doloroso. Mas se não quisermos continuar a empobrecer, é preciso acordar depressa e dar passos de gigante.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Conversações e um bom jantar inauguram "Merkollande"




Depois de tomar posse no Palácio do Eliseu e do avião ser atingido por um raio, François Hollande chegou a Berlim, com um atraso de mais de uma hora, para o primeiro encontro bilateral com Angela Merkel.

Conforme esperado, ambos disseram na conferência conjunta que iam considerar medidas para estimular o crescimento económico na Grécia, desde que os gregos cumprissem o plano de austeridade exigido para permanecerem no euro.
"Vou respeitar o voto dos gregos, qualquer que seja", prometeu Hollande. "No entanto, tenho a responsabilidade de dar um sinal à Grécia. Vejo o sofrimento e os desafios que os gregos sentem. Os gregos precisam de saber que vão chegar medidas de crescimento que permitir-lhes-ão permanecer na zona euro."
Merkel concordou "que estamos preparados para ajudar a Grécia a superar os seus desafios estruturais, para ajudar com o crescimento" e "a Grécia pode ficar na zona euro [mas] é exactamente isso que os cidadãos gregos vão votar" nas próximas eleições de Junho.

O crescimento será um tema das conversações entre os líderes do euro em 23 de Maio e novamente no final de Junho, assegurou a chanceler alemã, reconhecendo que havia diferenças de ênfase sobre o crescimento com Hollande.
O presidente francês tinha pedido que o tratado europeu de inspiração alemã, que fixa limites para os défices orçamentais dos países da zona euro, fosse renegociado para que "aspectos de crescimento sejam reais e traduzíveis em realidade". Na cimeira de Junho, "tudo precisa ser colocado sobre a mesa", incluindo as despesas de investimento e a emissão conjunta de obrigações de dívida pública.
Merkel rejeita as "eurobonds" porque isso significava que os custos da dívida pública da França, que já perdeu o rating AAA, iriam cair sobre a Alemanha. Algo que os contribuintes alemães, já a suportarem as responsabilidades de três resgates — Grécia, Irlanda e Portugal —, nem querem ouvir falar.
Segundo uma pesquisa da revista Stern, 59% dos alemães rejeitam medidas para apoiar o crescimento económico que se traduzam em novas dívidas.

Hollande observou que líderes franceses e alemães de diferentes cores políticas tinham uma longa história de trabalho em conjunto para promover o projecto europeu comum: Schroeder e Jacques Chirac, bem como Helmut Kohl com François Mitterrand e Helmut Schmidt com Valéry Giscard d 'Estaing.





Depois da conferência de imprensa, o presidente Hollande e a chanceler Merkel jantaram costeletas de borrego e espargos no oitavo andar da Chancelaria, com vista para o parque Tiergartene e para o edifício do parlamento da Alemanha.
Os assessores dizem que eles tiveram uma conversa ampla sobre vários temas. Será que falaram da admirável confiança dos gregos na economia alemã, que vai levar ao colapso da banca pátria?


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Portugal é 'lixo' para as três maiores agências


Em 5 de Dezembro a Standard & Poor’s advertiu 15 países da Zona Euro para a possibilidade de verem os seus ratings cortados. Chipre encontrava-se na lista dos países em 'vigilância' há alguns meses. E a Grécia nem é mencionada pois já está no nível de 'lixo' há bastante tempo.

Hoje ficámos a conhecer o veredicto.
  • Alemanha, Finlândia, Luxemburgo, Holanda e ainda Bélgica, Estónia e Irlanda mantiveram o rating: AAA para os quatro primeiros, os restantes, AA, AA- e BBB+, respectivamente.
  • França, Áustria e ainda Eslovénia, Eslováquia e Malta viram os ratings cortados em um nível: AA+ para os dois primeiros, A+, A e A- para os restantes, respectivamente.
  • Espanha, Itália, Chipre e Portugal desceram dois níveis, passando a ter os ratings A, BBB+, BB+ e BB, respectivamente, pertencendo estes dois últimos já ao escalão de 'lixo'.

Horas antes da divulgação dos ratings, Wolfgang Schäuble, ministro alemão das Finanças, veio levantar o moral das hostes na Zona Euro dizendo que não fazia sentido dar demasiada importância à decisão que a Standard & Poor’s se preparava para anunciar:
"Já tivemos intimações deste género das agências de notação financeira. (...) Nas últimas semanas concordámos que não se deve sobrevalorizar o veredicto das agências de ‘rating’. A grande incerteza entre os países do euro não é uma novidade e isso, naturalmente, tem impacto em tudo".

Depois da Moody's e da Fitch, foi a vez da Standard & Poor’s atribuir a Portugal a notação de investimento especulativo.
Embora seja óbvio que há má-fé destas grandes agências americanas de notação financeira contra os países da Zona Euro, temos de reconhecer que do AAA da Finlândia ao BB de Portugal vai uma profundidade abissal.
Após 37 anos de democracia, 10 anos de governos Cavaco Silva, 12 anos quase ininterruptos de governos socialistas e apesar dos 55 mil milhões de euros recebidos da União Europeia a fundo perdido, o país do futebol, das telenovelas e das Novas Oportunidades, do chico-espertismo e da sabujice caiu no 'lixo'.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A oitava cimeira da crise da Zona Euro


Para preparar a mais importante cimeira da UE dos últimos anos que já está a decorrer, o presidente francês Nicolas Sarkozy e a chanceler alemã Angela Merkel, reuniram-se ontem com o presidente da Comissão Europeia Durão Barroso, e outros líderes europeus, em Marselha, no congresso do Partido Popular Europeu. Merkel não iludiu, exigiu trabalho:

"Vamos encontrar maneiras de sair desta crise, vamos encontrar boas soluções, e com isso estaremos um passo mais perto de superar a crise, mas não será com um big bang, vai demorar anos de trabalho duro. Porque temos que superar coisas que aconteceram durante décadas de modo que não serão superadas com um passo."



Paris e Berlim estão a usar esta pré-cimeira para ganharem apoios para as alterações ao tratado da UE que propuseram em carta ao presidente do Conselho Europeu Van Rompuy e que vão no sentido do endurecimento da disciplina orçamental.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Seremos capazes de aceitar um governo europeu?


"No momento da moeda única houve um grande avanço, uma grande ideia, um grande projecto. Houve dois erros muito graves que foram cometidos. Digo-o, para tirarmos as consequências, não para criticar quem os cometeu. Não faz sentido, é o passado.

O primeiro destes erros foi querermos uma moeda única sem prever um governo económico. Durante 10 anos, as economias da Zona Euro em vez de convergirem, divergiram. Já não nos podemos dar a esse luxo.

O segundo erro que cometemos foi que aderiram à Zona Euro países quando ainda não estavam prontos. No momento fizemos como se fosse possível esquecer a realidade, mas a realidade apanha-nos sempre. Actualmente esses paises, que são nossos amigos, nossos irmãos, que devemos ajudar, sofrem, sofrem muito e escusavam de sofrer se as decisões tivessem sido tomadas.

As conclusões a tirar são simples: mais solidariedade na Zona Euro, mais disciplina na Zona Euro.
"





Sarkozy com um discurso afectivo, a tentar convencer os povos dos países meridionais a mudarem de mentalidade.
Se não for possível, ser-lhes-á dado alimentos e medicamentos para evitar guerras civis e a invasão dos países do centro da Europa por hordas de refugiados. Se preciso for, preparar-se-á a saída organizada da Zona Euro daqueles países para quem britânicos e americanos criaram o acrónimo PIGS.

A Alemanha é a maior economia da Zona Euro. A França é a segunda maior. Tentar negar este facto e pretender que todos os países da Zona Euro devem ter o mesmo peso nas decisões é uma atitude irrealista. O que importa é que os líderes das duas maiores economias tomem decisões no sentido de criar uma economia integrada que traga prosperidade para todos os países.
Os nossos concidadãos que emigraram para a França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Alemanha, ... conseguem integrar-se e usufruir da riqueza que ajudam a criar.

Porque é que nós, os que ficámos em Portugal, não somos capazes? Porque há 37 anos temos tido políticos incompetentes e desonestos é uma das razões. Mas há outras.
Seremos capazes de aceitar a organização e a disciplina alemãs, a criatividade francesa, o princípio da avaliação por um critério de mérito e a chefia pelos mais competentes?
Não. Preferimos olhar apenas numa direcção, a da sobrevivência. Vamos continuar a bajular os cabecilhas dos grupos de compadrio, a receber uma ou outra regalia enquanto gozamos o Sol e a praia e procurar que, um dia, chegue a nossa vez de pertencermos ao grupo dirigente — chafurdar na pocilga —, explorando os traumatismos afectivos de uma ambiciosa que chegou a directora da instituição ou como amante de um habilidoso e amoral coordenador de departamento.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"Gloria Victis"


"O senhor Vladimir Putin não é propriamente o tipo de pessoa que alguém queira para sogro ou para genro, quanto mais para guardião de mísseis nucleares.
Basta relembrar o dossiê da Ossétia do Sul ou o mortífero corte de fornecimento de gás à Ucrânia para recearmos o poder russo. Sobretudo nos países que estão próximos, como a tantas vezes invadida Polónia, que agora preside à União Europeia. Mas há uma coisa que a Polónia teme mais do que aquilo que o senhor Putin possa fazer: aquilo que a senhora Merkel não faz.

A Polónia não pertence à zona euro. Mas o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, que não tem a arrogância dos seus pares do Reino Unido, publicou ontem um artigo no "Financial Times" no qual, entre a coragem da denúncia e o desespero da súplica, escreve que só a Alemanha pode salvar a moeda única e, nisso, o próprio projecto de construção europeia. Mais: deixou escrito o que muitos dizem, que a Alemanha não é nem vítima, nem inocente, nem sequer parte desinteressada no processo de autodestruição do euro.

Faça uma pequena pausa para medir a importância deste apelo: é um diplomata europeu quem o assume, o que acontece nestes termos pela primeira vez; e é a... Polónia que apela à... Alemanha.

A sobrevivência do euro está presa por arames farpados. A acção política tem sido tão vaga e tão atrasada quanto possível, em grande parte por pressão das opiniões públicas nacionais, indisponíveis para o que lhes é apresentado como sacrifícios conjuntos para salvar os que se desgraçaram sozinhos. Compreende-se que os eleitores sintam dessa forma. Receia-se ver partidos populistas, radicais de esquerda e direita, colher da sementeira do medo.

Este absoluto estado de urgência coloca-nos aos pés e nas mãos da Alemanha. Angela Merkel, se fosse Darth Vader, não teria urdido melhor esquema para aprisionar os demais Estados na sua dependência. A chanceler é uma detestada Gata Borralheira que é querida como Cinderella. E por isso tem hoje o poder de fazer o que quer, como quiser — desde que queira e faça.

O "contrato" de disciplina orçamental que a Alemanha estará a preparar, do estilo tratado europeu instantâneo, é talvez o que é preciso, mas é certamente imposto em vez de conquistado, aceite em total submissão e necessidade pelos Estados aflitos. Este "contrato" terá como contrapartida a concessão de soberania pelos países, a favor do federalismo europeu, o que viabilizará uma política do Banco Central Europeu activa. Esse federalismo é bem-vindo. A forma como ele se emancipa é de bondade duvidosa.

A Europa está entre a desordem e a nova ordem. A desordem é o fim da União Europeia, a nova ordem é a sua refundação. Mas esta refundação é comandada pela Alemanha em termos que o resto da Europa não escolheu porque não pôde sequer escolher. É por isso que a sobrevivência do euro se faz à custa da morte do quadro institucional que a Europa desenhou, que tem em Barroso, em Van Rompuy e na baronesa Ashton os sinaleiros da decadência de um poder que, afinal, nunca foi autónomo.

O que está a acontecer na Europa é um movimento político histórico. Apresentado como motor salvífico das dívidas soberanas, ele foi montado da forma errada. Portugal, como outros países, não escolhe hoje o seu futuro. Dizem-nos que somos culpados. Mandam em nós. Façamos figas: comparada com Putin, Merkel é, de facto, uma libertadora. E, no entanto, estamos presos.

Pedro Santos Guerreiro"




johnquim 30 Novembro 2011
Qual o propósito deste artigo, Sr.?
Se é para influenciar a opinião do público acerca da potência militar que é a Rússia, deve dizer que esta não tem tropas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Não invadiu nenhum país nas últimas décadas. Nunca usou armas nucleares num conflito.
O mesmo não pode dizer-se dos EUA.

Deve também fazer a pergunta retórica aos leitores, para que estes reflictam:
"Como destabilizar um país enorme e multi-étnico para que este desmorone?"

Voltando ao início, qual o propósito deste artigo?
Dito isto, desejo que o autor do mesmo vá fazer amor extenuante com os pinheiros da floresta mais próxima.


Oberon__ 30 Novembro 2011
Propósito deste artigo
Devo confessar que me ri bastante com o seu post (pf encare isto como um elogio, porque o é).
Em relação ao artigo, penso o autor apenas tenta alertar, em forma de fábula, para o défice democrático que esta "salvação" do euro vai implicar. I.e., o processo de construção do euro sempre caminhou para um federalismo, todos os europeístas o sabiam. Tratava-se apenas de uma questão de esperar que os euro-cépticos e os nacionalistas mudassem um pouco de ideias (ou se extinguissem :) ). Já se tentou uma maior integração na UE, mas os referendos nacionais boicotaram o processo, o que daria a entender que a população ainda não estaria preparada para o federalismo.
Infelizmente, os contras associados à ausência de federalismo afectaram-nos mais cedo do que se esperaria. Logo, agora é necessário fazer as mudanças que todos sabiam que teríamos de fazer, e como o tempo urge teremos de contornar um pouco o processo democrático (pouco, é como quem diz...). Se, para mim, o fim é bom, já os meios deixam a desejar. Voltamos àquela velha questão: "os fins justificam os meios?"
Para além disso, e assumindo a existência de défice democrático, o autor alerta para a seguinte questão: será que vamos ter na Sra. Merkel um ditador benfeitor ou malfeitor?
Pusémo-nos, como há muito se diz, nas mãos dos credores.


johnquim 30 Novembro 2011
Nova crítica
Na altura que eu comentei só era visível o título e o primeiro parágrafo do artigo.
Mas mesmo assim, muito pelo título, mantenho o que disse.

E, já que tive acesso ao artigo completo, deixai-me dizer:
Perder soberania por causa da sobrevivência do Euro? Mas o Euro é O (o maiúsculo) derradeiro instrumento de controlo.
Está com arame farpado no pescoço? É a reacção de resistência do povo. Já falta pouco, mais um esticão e ficamos bastante mais livres.

Ou então deixem-me abrir um banco e, nesse caso, eu fico caladinho.


Oberon__ 30 Novembro 2011 - 12:45
Discordo novamente
Não encare isto de forma negativa, caro John, é por gostar de debate saudável que me "meto" consigo.

O Euro não é o derradeiro instrumento de controlo. Se assim o fosse, não estaríamos agora nesta situação. O derradeiro instrumento de controlo passa pela política orçamental e fiscal comum.
O arame farpado passará, digo eu, pela convergência dos interesses diversos de cada país europeu num tão curto espaço de tempo (e necessário, entenda-se). A resistência do povo não se tem feito sentir ainda ao ponto de inviabilizar o federalismo "imposto". Sentir-se-á quando "cheirar" a revolta popular focalizada nesse ponto. Tenho assistido ainda "apenas" a descontentamento popular relacionado com a austeridade.
Quanto à liberdade, penso que neste panorama se trata de um conceito subjectivo. Existe sim uma perda de autonomia nacional, não a favor de um país, mas sim de uma entidade supra-nacional. Se depois quiser argumentar quem terá mais "influência" sobre esse organismo supra nacional, isso já "são outros quinhentos".
Quanto aos bancos, infelizmente em Portugal a banca e o Estado têm uma relação simbiótica...


riaveiro 30 Novembro 2011 - 12:55
Fim da Democracia?
O que a Alemanha não conseguiu com duas guerras mundiais, está a consegui-lo com esta crise. Toda a Europa, está à espera da Oráculo alemã, que nos vai comunicar qual o caminho que vamos trilhar. Depois disto, não sei para que servem a comissão europeia, parlamento europeu e mais não sei quantas estruturas europeias, se tudo é dicidido na Alemanha! Em Berlim estão os chefes, que controlam os fiscais colocados em cada país, que fazem cumprir as directivas.


Oberon__ 30 Novembro 2011 - 13:07
Exacto
Para quem já conheceu alemães sabe bem que eles, desde a 2ª Guerra Mundial, passaram de geração em geração um plano maquiavélico para um dia voltar a dominar a Europa. Ou então a elite política alemã tem claramente um plano de expansão do seu domínio, a chamada colonização económica. Sem darmos conta disso, um dia nós portugueses estaremos todos a recolher o lixo e a trabalhar nas ruas da Alemanha e eles todos terão em Portugal a sua casa de férias.

PS: lá está a tal resistência nacionalista e euro-céptica, ou talvez algo menos elaborado que isso... (vou-me conter, para não usar essa palavra aqui)


johnquim 30 Novembro 2011 - 15:01
É um instrumento de controlo
A maior soberania de um governo é o controlo da sua moeda.
A relação simbiótica aparente dos bancos e dos governos não é exclusiva de Portugal, é a norma.
É aparente porque devia ser o governo, exclusivamente, a controlar a moeda. Não empresas privadas que são os bancos.
A moeda faz falta ao povo e consequentemente ao governo. A existência de moeda dispensa perfeitamente os bancos privados.

Quem controla a moeda, controla em grande parte o povo.
Com o euro, controla-se não um povo mas vários povos em simultâneo. E, por indução, algumas empresas privadas, alguns donos de empresas privadas controlam vários povos.

Quanto à crise e os condicionantes que se impõem a um federalismo, estão relacionados com o parágrafo anterior, com o estreitamento da cúpula do poder. A crise criada é simultaneamente a face visível e a desculpa.

Não há défice de recursos naturais, não há défice de saúde nem de mão de obra (por enquanto, espero não estar a dar ideias às pessoas erradas).
Há problemas criados artificialmente por um artifício que é a moeda actual.

Democracia
Quanto à perda de democracia, não vai acontecer.
É uma farsa de liberdade, sempre foi, e é útil para quem domina.

O povo não decide nada, nem tem competências para tal. Não tem, nem nunca terá, mesmo com uma cultura média
óptima do povo. Nem sequer para decidir a quem delegar as decisões, porque depois não saberá avaliar o resultado. E mesmo que soubesse poderia ser tarde demais.
É simplesmente um conceito errado que não escala para além de uma pequena comunidade onde toda a gente se conhece.

Agora uma coisa completamente diferente: Vamos todos abrir um banco!


Oberon__ 30 Novembro 2011 - 15:52
Ideias diversas
Concordo: é uma falsa liberdade e o povo actualmente não decide nada. Acredito que é um caminho e não um conceito errado ad aeternum. Acredito num futuro a longo prazo em que uma classe média informada consiga governar através de um voto consciente com base num sistema democrático digno de seu nome. Por exemplo:
  • votar na equipa de governo, por oposição a dar um cheque em branco a uma pessoa, para que esta constitua uma equipa governativa.
  • programas eleitorais com detalhe de medidas e que vinculem, dentro do razoável, quem os redige.
  • instituições isentas que nos permitam contornar a informação imperfeita, exemplos actuais: Tribunal de Contas, UTAO.
Discordo que a moeda seja a maior soberania de um povo. É, para mim, um instrumento económico como o é a politica fiscal e a orçamental.

A relação simbiótica é a norma, sim. Expressei-me mal. Queria dizer que noutros países europeus o Estado consegue meter a banca num bolso, devido a um maior poder negocial que deriva do diminuto endividamento do Estado junto desta. Em Portugal, o Estado não consegue dominar a banca porque, simplesmente, esta é ao mesmo tempo seu credor.

Quem controla a moeda na Europa são os bancos centrais (em outros tempos eram os governos eleitos e creio que concorda que isso não deu muito bom resultado) e não empresas privadas. As empresas privadas controlam o mundo financeiro, dentro de um quadro regulatório apertado (provavelmente não tão apertado quanto se gostaria).

Por ultimo, não creio que existam problemas criados artificialmente por um artifício que é a moeda actual, mas sim o contrário. O controlo da moeda permite esconder problemas de uma forma artificial. Por exemplo este problema de competitividade só se resolve com medidas estruturais e não com uma desvalorização da moeda, como sempre se fez. Isso trata apenas de ganhar tempo. Se não crê que tenhamos problemas de competitividade e que não existem ganhos de eficiência em ser uma pequena economia aberta ao comércio internacional, então aí temos divergências ideológicas profundas.

Qualquer projecto europeu teria de passar por federalismo. Era, e é incontornável! Não se quer federalismo, não se quer a Europa. Querendo a Europa, é moralmente questionável o processo não democrático através do qual esse federalismo poderá vir a ser implementado.


johnquim 30 Novembro 2011 - 18:08
Divergimos profundamente
Ui! Se divergimos Oberon__! Você é crente em várias frentes.

As pessoas de classes médias e outras têm em primeiro lugar, da sua vida para tratar. Para pensar sobre assuntos tão complexos que decorrem de um sistema tão complexo como é uma sociedade de milhões de habitantes, é preciso dedicação a tempo inteiro, competências e inteligência. Não é uma leitura rápida pela manhã nalguma proposta de um homólogo cidadão não dedicado.

A votar em equipas em vez de chefe de equipa ficaria com o mesmo dilema.
Vincular programas? Essa é de rir à gargalhada.
Tribunal de Contas? Pelos vistos não andou nem anda a fazer bem as contas. Toda a gente sabe que o dinheiro público é muitíssimo mal gasto/desviado.

O que temos agora é a camada da farsa democrática sobre uma camada de pessoas competentes nas diversas áreas do conhecimento. A primeira camada é prejudicial em todos os sentidos e dispensável, claro!

A moeda não é a maior soberania? Bom, há vários vídeos com a papinha feita sobre este tema. A defender o meu ponto de vista daria pano para mangas. Fica um exemplar em inglês:




Não creio que tenhamos problemas de competitividade e que existem ganhos de eficiência em ser uma pequena economia aberta ao comércio internacional.
Cada país tem os seus recursos naturais e humanos, metê-los todos no mesmo plano com a internacionalização do comércio sem restrições é esmagar os que menos recursos têm. É pilhá-los descaradamente. É exploração de mão de obra e recursos naturais ao desbarato.
Só há falta de competitividade no momento em que as nações levantam as restrições no comércio mundial. No momento em que aceitamos competir.

Você faz-me lembrar o "querido" Cavaco Silva, enquanto presidente da república, ao dizer inocentemente: "O que é preciso fazer para os Portugueses terem mais filhos?"


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cinco escritórios de advogados na privatização da EDP


Sendo a privatização da EDP, a venda de participações do Estado de maior valor financeiro acordada com a troika, os principais escritórios de advogados de Lisboa já estão posicionados no tabuleiro do jogo.

A Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva (MLGTS) vai prestar serviços jurídicos ao Estado e à sua cliente EDP, com uma equipa liderada pelo advogado Nuno Galvão Teles.


As quatro empresas estrangeiras candidatas à compra seleccionadas pelo Estado português para a fase final do concurso são a alemã E.On, as brasileiras Eletrobras e Cemig e a China Three Gorges.

O escritório de Lisboa da sociedade de advogados Linklaters, multinacional de origem britânica, assessora a E.On, sendo a equipa dirigida pelo advogado Jorge Bleck.

A Pereira, Sáragga Leal, Oliveira Martins e Júdice (PLMJ) vai prestar serviços jurídicos à brasileira Eletrobras, estando o sócio Jorge de Brito Pereira à frente da equipa.

A Cuatrecasas, Gonçalves Pereira, através do sócio Diogo Leónidas, vai assessorar a Cemig, a outra empresa brasileira candidata ao capital público da EDP.

A Serra Lopes e Cortes Martins, em colaboração com a firma norte-americana Skadden Arps, é o quinto jogador: vai dar apoio jurídico à China Three Gorges, a empresa que está a construir o mega projecto hidroeléctrico chinês que inclui, entre outras, a barragem das Três Gargantas. O advogado Luís Cortes Martins, sócio do escritório português, lidera a equipa que assessora a empresa chinesa.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ou construímos os Estados Unidos da Europa, ou nada!


"Temos de construir agora a união política, que não conseguimos alcançar em 1990, e isso significa uma união orçamental", disse o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, na conferência anual do partido Democrático Cristão.


Schaeuble não concorda que o Banco Central Europeu (BCE) financie os países endividados, preconizando que os governos devem confiar no fundo de resgate europeu até que tenham os orçamentos dos seus países sob controlo, pois "demasiada liquidez global poderia conduzir a uma bolha".
"Se queremos ter uma moeda única, temos de defendê-la. É da nossa responsabilidade assegurar que a moeda única e a União Europeia continuam a ser estáveis."
Sobre a Grécia:
"O país tem de decidir se consegue suportar os encargos [de continuar com o seu programa de ajustamento económico, ou não]. E se a Grécia estiver pronta para fazê-lo, nós iremos ajudá-la a ganhar o tempo necessário."

Também hoje no congresso do partido Democrático Cristão, Angela Merkel disse que "era hora de formar uma união política na Europa para enviar uma mensagem aos detentores de obrigações europeias de que as intenções dos líderes da Zona Euro são sérias relativamente a quererem terminar a crise da dívida soberana".
Acrescentou que queria preservar o euro com todos os actuais estados membros, "mas isso requer uma mudança fundamental em toda a nossa política". O partido votou no sentido de permitir que um país possa sair da Zona Euro, defendendo um movimento que não é permitido pelas actuais regras do euro.

*

Cabe agora ao cidadão luso comparar os salários mínimos dos países da Europa ocidental com os do leste (de que fazia parte a antiga república democrática alemã, hoje com o nível de vida ocidental) e lembrar-se que estes países estão a trabalhar denodadamente para poderem entrar na Zona Euro.
Se Portugal funcionasse como os países do centro da Europa todos seríamos beneficiados: em 2011, o salário mínimo na Irlanda é 1461 euros (x12 meses), ou seja, a classe média portuguesa tem um rendimento análogo à classe baixa irlandesa.
Mas esses elevados rendimentos exigem a opção entre o 'dolce far niente' dos passeios aos centros comerciais e à praia ou o rigor da organização alemã do trabalho, entre o critério de avaliação do compadrio ou o do mérito.
A escolha é nossa.


██ países (4) com salário mínimo entre 123 - 278 euros
██ países (4) com salário mínimo entre 278 - 319 euros
██ países (4) com salário mínimo entre 319 - 566 euros
██ países (4) com salário mínimo entre 566 - 863 euros
██ países (6) com salário mínimo entre 863 - 1758 euros
██ países (11) que não forneceram dados ao Eurostat
Em 2011, o salário mínimo em Portugal é 485 x 14 / 12 = 565 euros. Noutros países europeus: Table

Países\tempo
________________
Bélgica
Bulgária
República Checa
Estónia
Espanha
França
Grécia
Croácia
Hungria
Irlanda
Lituânia
Luxemburgo
Letónia
Malta
Países Baixos
Polónia
Portugal
Roménia
Eslovénia
Eslováquia
Turquia
Reino Unido
EUA
________________

2000
_________
1095.89
34.26
110.79
89.48
495.60
1049.49
542.69
-
100.12
-
107.05
1191.13
85.02
505.05
1092.00
161.11
371.27
24.53
373.35
94.34
201.60
952.23
888.58
_________

2005
_________
1210.00
76.69
235.85
171.92
598.50
1286.09
667.68
-
231.74
1183.00
144.81
1466.77
114.63
555.06
1264.80
207.86
437.15
78.70
490.07
167.76
266.15
1134.67
655.36
_________

2010
_________
1387.50
122.71
302.19
278.02
738.85
1343.77
862.82
385.48
271.80
1461.85
231.70
1682.76
253.77
659.92
1407.60
320.87
554.17
141.63
597.43
307.70
338.33
1076.46
872.32
_________

2011
_________
1415.24
122.71
319.22
278.02
748.30
1365.00
862.82
381.15
280.63
1461.85
231.70
1757.56
281.93
664.95
1424.40
348.68
565.83
157.20
748.10
317.00
384.89
1138.54
940.48
_________

Nota: a lei do salário mínimo deixou de ser cumprida na Grécia.


sábado, 12 de novembro de 2011

A queda dos políticos europeus


Os investidores mundiais estão a impor o afastamento de primeiros-ministros europeus débeis ou coniventes com a degradação financeira e a corrupção dos agentes económicos dos seus países.
Parece existir um tecto de 7% nas yields da dívida soberana cuja transposição motiva a queda.

No início de Abril de 2010, o primeiro-ministro Papandreou viu os juros das obrigações do tesouro gregas, a dez anos, ultrapassarem os 7%. Quinze dias depois, pediu ajuda à UE e ao FMI.
Desde então a Grécia passou por vários pacotes de austeridade, viveu entre manifestações e greves da função pública, das empresas do Estado e dos beneficiários de subsídios e pensões, nunca tendo conseguido cumprir os défices orçamentais acordados ou avançar nas privatizações. Na passada terça-feira, 8 de Novembro de 2011, o terceiro primeiro-ministro da dinastia Papandreou demitiu-se para provocar a formação de um governo de unidade nacional entre o partido socialista grego e a Nova Democracia, o maior partido da oposição de direita.
Quem vai chefiar este governo? Lucas Papademos, governador do Banco da Grécia, entre 1994 e 2002, época da sua adesão ao euro, e vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), entre 2002 e 2010. O banco de investimento que assessorou a adesão grega à Zona Euro, colaborando na mistificação das contas públicas gregas, foi o banco norte-americano Goldman Sachs.

A Irlanda foi o segundo país a transpor o tecto dos 7%. Em Fevereiro deste ano, o então primeiro-ministro Brian Cowen, do partido centrista Fianna Fail, perdeu as eleições legislativas para Enda Kenny, do partido de centro-direita Fine Gael que formou uma coligação com o partido trabalhista irlandês.

Em Portugal as yields da dívida soberana furaram o tecto de 7% em Novembro de 2010. Quando o Parlamento rejeitou um quarto programa de austeridade, em Março de 2011, o primeiro-ministro, José Sócrates, pediu a demissão.

Espanha viu os juros das obrigações de dívida soberana, a dez anos, subir acima dos 6% enquanto o movimento dos indignados acampava na Puerta del Sol. Prudentemente, José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro socialista, antecipou as eleições legislativas para o próximo dia 20 de Novembro. Prevê-se que o Partido Popular, de direita, liderado por Mariano Rajoy, obtenha maioria absoluta.

Também se prevê para breve a queda de Iveta Radicova, a primeira-ministra da Eslováquia, pois o parlamento eslovaco só permitiu o alargamento do Fundo Europeu de Estabilização Financeira depois da convocação de eleições antecipadas para Março de 2012.

Na Itália os juros da dívida chegaram aos 7% esta quarta-feira. Ontem o parlamento italiano aprovou um pacote de austeridade. Hoje Berlusconi, o homem classificado pela revista "Forbes" como a 2ª pessoa mais rica da Itália e o 74.º homem mais rico da Europa, com uma fortuna estimada em 9 mil milhões de dólares, o dono da maior empresa da comunicação social, o político acusado em quase duas dezenas de processos de corrupção, o rei das festas e dos escândalos sexuais mas que ganhou por três vezes o voto do eleitorado, pediu a demissão.
Berlusconi caiu quando os mercados repararam que estavam a investir num País governado por um indivíduo sem credibilidade que criara uma pirâmide de clientelismo. Quando os investidores se afastam, surge a austeridade. Quando lhe diminuem a mesada, o povo retira o apoio aos políticos.

Já não é o povo que elege os deputados, são os investidores.

Nicolas Sarkozy e Angela Merkel estão a lutar denodadamente para salvar o euro, tendo já delineado um plano B: uma Zona Euro mais pequena que vai aprofundar a integração, inclusive em áreas sensíveis como a tributação das empresas e dos trabalhadores e levantar barreiras contra a crise da dívida soberana, enquanto os restantes países da UE vão formar uma ‘confederação’ que, possivelmente, se expandirá de 27 para 35 na próxima década, com o alargamento aos Balcãs e países de leste, noticiou na quarta-feira a Reuters.
Se as populações dos países europeus meridionais não ambicionarem pertencer à Europa culturalmente mais avançada, se não abandonarem a mentalidade da subserviência e da cunha, se não souberem distinguir entre tempo de estudo e trabalho e tempo de lazer, se não começarem a exigir competência, frugalidade, transparência e honestidade aos seus políticos, acabarão por ser afastadas da Zona Euro.

É uma luta difícil: pior que dominar o cavalo de Tróia dos PIGS, é vencer o do ‘amigo’ americano.
E ainda pode haver outros cavalos: Mario Draghi, que assumiu a 1 de Novembro a presidência do BCE, sucedendo a Jean-Claude Trichet, foi vice-presidente do Goldman Sachs International que se suspeita ter sido o banco de investimento que ajudou a Itália a falsear as suas contas para poder entrar na Zona Euro. E o homem que vai substituir Berlusconi e conduzir a Itália em tempo de crise — Mario Monti — fez também parte do banco norte-americano Goldman Sachs.
O que já levou o jornal “National Journal” a publicar uma reflexão sobre o mesmo assunto, num artigo intitulado ’Government Sachs’, Italian Style, onde pergunta:
"É apenas uma coincidência que algumas das figuras-chave da crise europeia sejam ‘Goldman guys’? Não. É provavelmente uma das razões porque estamos metidos nesta confusão."


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A ruptura iminente da Zona Euro


Funcionários alemães e franceses têm estado a discutir uma reforma radical da União Europeia que passaria pela criação de uma Zona Euro formada apenas por países em condições de aprofundar a integração económica e definir politicas tributárias e orçamentais comuns.

"A França e a Alemanha tiveram intensas consultas sobre esta questão nos últimos meses, a todos os níveis. É preciso avançar muito cautelosamente, mas a verdade é que é preciso listar os que não querem participar no clube e os que simplesmente não podem participar", disse um alto funcionário da UE, em Bruxelas, à Reuters.

Num discurso dirigido a estudantes em Estrasburgo, na terça-feira, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, já referiu que uma Europa a duas velocidades — uma Zona Euro a avançar mais rapidamente que os 27 países da UE — era o único modelo para o futuro.

"Seria desfazer tudo o que nossos antepassados construíram meticulosamente e repudiar tudo o que defenderam nos últimos 60 anos. Iria redesenhar o mapa geopolítico e originar novas tensões. Poderia ser o fim da Europa tal como a conhecemos", contrapôs um diplomata da UE à Reuters.
Em Berlim, o presidente da Comissão Europeia Durão Barroso reforçou este receio: "Não pode haver paz e prosperidade no Norte ou no Oeste da Europa, se não há paz e prosperidade no Sul ou no Oriente”.

No entanto, a ideia de um país poder abandonar a Zona Euro surgiu na véspera da cimeira do G20 em Cannes na semana passada, quando a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente Sarkozy admitiram que a Grécia poderia ter de sair para manter a estabilidade de Zona Euro.

Estas discussões entre funcionários europeus procuram reavaliar o projecto do euro, determinando que países e que políticas são necessários para mantê-lo forte e estável, antes que a crise da dívida consiga destruí-lo.
"Ao fazer este exercício, vamos chegar aos critérios que serão usados como referência para integrar e compartilhar as nossas políticas económicas", acrescentou o alto funcionário da UE.

"Não vamos ser capazes de falar a uma só voz e tomar decisões difíceis na Zona Euro tal como é actualmente. Não podemos ter um país, um voto", explicou um alto funcionário do governo alemão, referindo-se a regras que tornam a tomada de decisões lenta e complexa, agravando a crise.
Também em Berlim, Merkel pediu para serem introduzidas alterações no Tratado da UE porque a situação era tão desagradável que se tornava necessário um avanço rápido.

Segundo alguns funcionários da UE, serão discutidas alterações ao tratado na cimeira de 9 de Dezembro, em Bruxelas, sendo convocada uma ‘conferência intergovernamental’, o processo necessário para fazer alterações, no próximo ano.
Pretende-se criar uma estrutura com dois níveis: uma Zona Euro mais pequena que vai aprofundar a integração, inclusive em áreas sensíveis como a tributação das empresas e dos trabalhadores e levantar barreiras contra a crise da dívida soberana, enquanto os restantes países da UE vão formar uma ‘confederação’ que, possivelmente, se expandirá de 27 para 35 na próxima década, com o alargamento aos Balcãs e países de leste.

A ruptura é inevitável porque a França e a Alemanha vêem-se como a espinha dorsal da Zona Euro e, frequentemente, promovem iniciativas que os outros países da Zona Euro rejeitam.
A ideia de um núcleo parece não agradar aos Países Baixos e à Áustria, embora sejam potenciais membros.
A Grã-Bretanha também se opõe a qualquer movimento que pretenda criar uma Europa a duas velocidades ou institucionalizar um tal processo. "Devemos mover-nos juntos. O maior perigo que enfrentamos é a divisão", defendeu o seu vice-primeiro-ministro, Nick Clegg, durante a visita a Bruxelas na quarta-feira. A Grã-Bretanha, porém, sempre recusou aderir ao euro.

Mas o pior problema é a Grécia onde hoje colapsou o acordo firmado ontem para a formação de um governo de unidade nacional.
O presidente socialista do parlamento, que de manhã ia liderar a coligação entre o PASOK e a Nova Democracia, à tarde já não ia. Amanhã será retomado o nome do antigo vice-presidente do Banco Central Europeu, Lucas Papademos, que no domingo era dado como certo ir ocupar o lugar.
Mais insólito, ainda, foi ver o primeiro-ministro cessante, Papandreou, desejar felicidades ao seu sucessor e dirigir-se ao encontro do presidente da República, para comunicar à saída que não já não havia nenhum sucessor devido a desentendimentos entre os partidos políticos.

No meio do caos grego emerge Lucas Papademos que insiste com socialistas e conservadores para assinarem compromissos escritos de apoio ao resgate de 130 mil milhões de euros como, aliás, é exigido pela União Europeia. Em vão.
Entretanto a economia grega caminha paulatinamente para o abismo.


sábado, 5 de novembro de 2011

A solidão do euro


Na cimeira anual do G20 a Zona Euro foi o bombo da festa e ninguém quis pôr um cêntimo no FEEF, nem sequer no FMI:


Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos
“Eles vão ter em nós um parceiro forte, mas os líderes europeus compreendem que, em última análise, o mais importante é que a Europa dê um sinal forte de que apoia o euro.”

Angela Merkel, chanceler da Alemanha
“Quase nenhum país aqui presente disse que está preparado para apoiar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF).”

Nicolas Sarkozy, Presidente de França
“Nunca quisemos mudar governos, nem na Grécia nem em Itália. Não é esse o nosso papel; não é essa a nossa ideia de democracia, mas é evidente que há regras na União Europeia e quem se auto-excluir do cumprimento dessas regras, estará a excluir-se da Europa.”

David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido
“Cada dia de crise na Zona Euro é um dia com efeitos arrepiantes no resto da economia mundial, incluindo a economia britânica. Não vou fazer de conta que todos os problemas da Zona Euro foram resolvidos. Não foram.”
“Nós, tal como o resto do mundo, precisamos que a Zona Euro resolva os seus problemas.”

José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia
“Vejo esta situação como uma prova de quão importante é o processo de reformas em Itália para o próprio país e para a Zona Euro como um todo.”

Julia Gillard, primeira-ministra da Austrália
“A Europa precisa de pôr a sua própria casa em ordem.”

Stephen Harper, primeiro-ministro do Canadá
“Não vemos nenhuma razão para que o Canadá — ou, com franqueza, qualquer outro país — contribua para este apoio financeiro [ao FEEF].”

Jun Azumi, ministro das Finanças do Japão
“A crise na Europa está a causar uma crise global sistémica, incluindo na Ásia. Em vez da criação de um novo quadro de funcionamento global, toda a gente está à espera de que o Fundo Monetário Internacional se torne mais pró-activo.”


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O duunvirato europeu fez um ultimato aos gregos





Numa reunião de emergência com o primeiro-ministro grego George Papandreou, os líderes da Alemanha e da França disseram hoje à Grécia que não receberia nem mais um centavo da ajuda europeia até decidir se quer ficar na Zona Euro.
Esclareceram, ainda, que salvar o euro passou a ser mais importante do que resgatar a Grécia.

Na entrevista que concederam após a reunião, os dois líderes falaram em uníssono:
"Preferimos alcançar uma estabilização do euro com a Grécia do que sem a Grécia, mas a meta de estabilizar o euro é mais importante", disse a chanceler Angela Merkel.
"Os nossos amigos gregos têm de decidir se querem continuar a viagem connosco", reforçou o presidente Nicolas Sarkozy.

Papandreou indignou os parceiros europeus e provocou ontem o pânico nos mercados financeiros ao anunciar na segunda-feira à tarde que a Grécia iria referendar o segundo plano de resgate de 130 mil milhões de euros negociado com os líderes da Zona Euro na passada quinta-feira.

Depois de um jantar, que Merkel classificou como "duro e difícil" na véspera da cimeira do G20 em Cannes, Papandreou disse que o plebiscito pode ocorrer em 4 de Dezembro, clarificando o objectivo:
"Não é o momento de indicar as palavras exactas mas, na essência, não é apenas a questão do programa, é saber se queremos permanecer na Zona Euro."
Apesar das sondagens revelarem que a maioria dos gregos, cansados de dois anos de austeridade crescente, consideram o pacote de resgate como um mau negócio para a Grécia, Papandreou espera mais apoio da população que do parlamento:
"Acredito que os cidadãos gregos são sábios e capazes de tomar a decisão certa em benefício do nosso país."
No entanto, em toda a imprensa grega, mesmo nos jornais tradicionalmente defensores do governo, é quase unânime a condenação de Papandreou.
O Eleftherotypia, um jornal de centro-esquerda, chama-lhe "O Senhor do Caos" e o Ethnos, outro jornal pró-governo, classificou o referendo como "suicida".

Os líderes da UE também já reagiram à carta de Papandreou, dizendo que queria negociar os detalhes do segundo pacote antes do referendo.
A UE e o FMI endereçaram uma mensagem à Grécia informando que não receberia, até à votação do referendo, a parcela urgente de € 8 mil milhões prometida para este mês, porque os credores oficiais queriam ter certeza de que Atenas iria cumprir o programa de austeridade.
Segundo diz Papandreou, a Grécia tem dinheiro suficiente para continuar a funcionar até meados de Dezembro, momento em que vai precisar de resgatar um empréstimo superior a € 6 mil milhões.

Sarkozy e Merkel já anunciaram que os ministros das finanças da Zona Euro vão reunir-se na próxima segunda-feira para acelerar decisões sobre a alavancagem do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), a porta corta-fogo que pretende proteger os membros fracos que existam entre as 17 nações da Zona Euro.
Depois do caos nos mercados desencadeado pelo anúncio do referendo grego, o FEEF foi forçado a adiar o plano para levantar 3 mil milhões de euros no mercado obrigacionista.
Se Papandreou perder o referendo e a Grécia entrar em falência desordenada, os bancos europeus perdem muito mais do que os 50% da dívida soberana grega já acordados e entram em risco países com economias muito maiores, como a Itália e a Espanha, que o fundo não tem meios para socorrer.

A dúvida sobre a capacidade europeia em conter a crise da dívida colocou a Itália na linha de fogo dos investidores.
O prémio de risco dos títulos italianos sobre as obrigações alemãs atingiu hoje novo máximo, apesar do Banco Central Europeu (BCE) ter ido ao mercado secundário comprar dívida soberana italiana.
Enquanto o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi realizava uma reunião de emergência do gabinete para criar medidas no orçamento que acalmem os mercados, no parlamento pedia-se a sua demissão.
O ministro das Finanças da Irlanda acredita que o BCE será forçado a prometer "uma muralha de dinheiro" para comprar títulos, algo que incomodou muitos políticos.
Apesar disso, o BCE é, neste momento, o único baluarte europeu contra os ataques dos mercados.

Por isso, os membros asiáticos do G20 estão a pressionar a Europa para enfrentar a crise antes que provoque danos graves na economia mundial.
O ministro das Finanças chinês, Zhu Guangyao, manifestou a indisponibilidade de Pequim em investir mais no FEEF e o colega japonês Jun Azumi acrescentou que "todos estamos confusos".
O presidente sul-coreano Lee Myung-bak disse esperar rapidez e ousadia da parte do G20 na contenção da crise, antes que transborde para o resto do mundo.





O homem que quis disciplinar os gregos, por um lado, e, por outro, obter mais benesses para a Grécia pregando um valente susto à banca europeia e ao eixo franco-alemão — a estratégia Jerónimo/Louçã — corre o risco de atirar os gregos para fora da Zona Euro.
Desta vez o cavalo de Tróia falhou a sua missão.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"Estado Social à alemã"


"O Estado Social é uma relativa novidade em Portugal — a criação da actual Segurança Social data de 1982.

Na Alemanha, criadora do conceito, remonta ao final do século XIX. Nos anos 1950 e 1960, o Estado Social viveu os seus anos dourados, suportados por uma demografia favorável e fortes acréscimos de produtividade reflectidos em aumentos de rendimento. O modelo social germânico assenta num mecanismo de protecção social generoso indissoluvelmente relacionado com a estrutura produtiva.

A redução da pobreza nos exemplos por excelência do Estado Social — os países nórdicos, Alemanha, Áustria e Países Baixos — esteve associada a estratégias nacionais de promoção do trabalho bem remunerado (evitando empregos com baixos salários), privilegiando a especialização industrial em sectores geradores de elevado valor acrescentado e com potencialidade exportadora.

O seu sucesso radicou em exportações de produtos com alto conteúdo tecnológico e com pouca sensibilidade do preço, capitalizando vantagens competitivas ancestrais. Dado o alto valor acrescentado incorporado, os salários pagos eram elevados, limitando a incidência de pobreza associada ao factor trabalho: numa visão que se distingue do modelo anglo-saxónico, menos protector e mais flexível.

Nos anos 70, a crise petrolífera desferiu um rude golpe nas economias no Norte da Europa, as quais na maioria dos casos, com os países nórdicos à cabeça, numa tentativa de aumento da produtividade e reciclagem das suas indústrias, promoveram uma renovação geracional da força de trabalho mediante esquemas massivos de reformas antecipadas, que engrossaram os beneficiários da Segurança Social, num momento em que as taxas de fertilidade atingiam patamares mínimos.

Nos anos 80, a dívida e os défices públicos revelaram-se insustentáveis, dando azo a crises graves e posterior reforma da Segurança Social. Impuseram-se significativos cortes dos benefícios, evoluiu-se no sentido de esquemas de capitalização de contributo definido, e repensaram-se os incentivos à natalidade. Em paralelo, no mercado de trabalho, a legislação foi alterada com vista à obtenção de maior flexibilidade nos despedimentos e formação dos desempregados (nascimento da flexigurança).

Na Alemanha, as reformas foram mais tardias, mas consubstanciaram-se em medidas semelhantes (excepto natalidade). Antecipando a concorrência asiática e contrariando previsões de futuro recessivo, nos anos 90 e 2000, reformulam-se os mecanismos de protecção social e a força de trabalho suportou perdas de rendimento nominal.

Entre 2000 e 2008, os custos unitários do trabalho na Alemanha caíram (5%). No mesmo período (cumulativamente), subiram 20% em Portugal, 25% em Itália, 30% em Espanha e Grécia, e 35% na Irlanda. Contudo, nos sectores manufactureiros, a realidade foi muito diversa. Na Alemanha e Irlanda, desceram 10%; enquanto em Portugal aumentaram 10%; em Espanha e Itália subiram 30% e 55% na Grécia. Desta forma, não será surpreendente o comportamento das exportações portuguesas nos últimos anos e o facto da Grécia ser o país com menor contributo das exportações para o PIB e o maior desequilíbrio externo na área do euro.

O ajustamento do Estado Social em curso em Portugal, mas também em Espanha, Itália e Grécia, consiste numa compressão temporal (mais notória em Portugal onde a Segurança Social chegou mais tarde) do processo observado na Europa do Norte ao longo dos últimos trinta anos. Como os países nórdicos, também Portugal viveu o seu apogeu das reformas antecipadas nos anos 90 para promoção de produtividade e modernização da estrutura produtiva. Hoje, defronta rácios de dependência insustentáveis.

Recorde-se que, em 1982, existiam cerca de sete contribuintes para um beneficiário; hoje existem pouco mais de três por cada pensionista e, segundo a proposta de Orçamento do Estado para 2012, serão menos de dois por cada beneficiário em 2050. A pressão manifesta-se no acréscimo do peso das prestações sociais: desde 1977, subiram de 8% do PIB para 21% em 2010. A despesa pública corresponde a cerca de 50% do PIB, dos quais 42% são prestações sociais e 23% são remunerações de empregados. A composição não difere, contudo, substancialmente da observada na média da UE.

A sustentabilidade do Estado Social não se esgota com a reforma da Segurança Social, falta a componente associada às estruturas produtivas e à demografia. A esse respeito, os progressos demográficos são inexistentes; mas constatam-se avanços materiais ao nível da orientação produtiva para sectores com vantagens competitivas e sua capacidade de conquista de mercados internacionais, como o desempenho recente do sector exportador revela. Falta-lhes escala suficiente (necessidade de maior investimento: logo, poupança; sendo que o crédito é um canal de transferência de poupanças) para promover a criação de empregos associados a elevada produtividade e salários compatíveis, suficientes para combater a fragilidade e assimetria sociais.

Este é o receituário que a Europa do Norte pretende que a Europa do Sul perfilhe; criando, segundo a chanceler Merkel uma "união de estabilidade" por contraponto a uma "união de transferências ou de dívidas"; ou seja, um Estado Social europeu à luz do conceito original germânico (esquecendo, todavia, os diferentes pontos de partida de rendimento por habitante).


Cristina Casalinho
Economista-chefe do Banco BPI"


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O discurso de Cavaco Silva em Florença


Esta tarde Cavaco Silva proferiu um longo discurso no Instituto Universitário Europeu, em Florença, Itália.
O leitor pode ouvir a totalidade ou ler um excerto (o negrito é escolha nossa):


"Em primeiro lugar, o euro não é a causa da crise. As causas radicam, por um lado, nas políticas erradas, nomeadamente orçamentais e macroeconómicas, seguidas pelos Estados membros e, por outro lado, numa deficiente supervisão por parte das instituições europeias. A responsabilidade por esta crise é claramente partilhada pelos Estados membros e pelas instituições europeias.

Alguns criticam o Tratado de Maastricht, a cuja assinatura tive a honra de presidir, enquanto Presidente do Conselho Europeu, em 1992. Dizem que as dificuldades actuais vêm das insuficiências do Tratado. Esquecem, desde logo, as circunstâncias: o Tratado da União Europeia foi negociado há vinte anos, a globalização estava ainda a emergir, a UE tinha 12 membros, o muro de Berlim tinha caído há apenas dois anos, os novos actores económicos da era global ainda pouco se afirmavam. O mundo era diferente.

Esquecem também que o Tratado de Maastricht, para além de fixar os mecanismos de supervisão multilateral, não ignorava a necessidade de coordenação das políticas económicas.

É claro que o Tratado traduziu, como sempre acontece neste tipo de negociações, o compromisso possível. Mas foi um grande passo em frente da integração europeia.

É certo, todavia, que já então muitos de nós, com Jacques Delors à cabeça, sabíamos que a União Económica e Monetária, desenhada em Maastricht, apresentava uma construção mais consistente na vertente monetária do que na vertente económica.

Do lado monetário, temos uma arquitectura assente numa lógica federal. Do lado da governação económica, uma arquitectura diferente, muito dependente do sentido de responsabilidade dos Estados na condução e na transparência das suas políticas e da eficácia da supervisão por parte da Comissão e do Conselho de Ministros.

Mas foi a execução do Tratado, e do Pacto de Estabilidade e Crescimento que o veio complementar, que ficou aquém do que se exigia, por irresponsabilidade de governação dos Estados e por ineficácia das instituições europeias. Em particular, houve um factor decisivo para desencadear a crise: o mau escrutínio do rumo das finanças públicas nalguns Estados.

A Comissão e o Conselho não fizeram tudo o que lhes competia para corrigir as situações de défice excessivo. E é bom lembrar a quebra de credibilidade do Pacto de Estabilidade e Crescimento provocada pelo próprio Conselho, ao tudo fazer para que passasse incólume a violação dos limites do défice orçamental por parte da Alemanha e da França, nos primeiros anos deste século.

Foi um mau sinal para os mercados: a União Europeia estava pronta a renunciar ao rigor dos critérios, em favor de considerações e circunstâncias políticas impostas por interesses nacionais. Como alguns de vós se recordarão, houve, até, quem, para justificar o ajustamento das regras do Pacto, lhe tivesse chamado “estúpido”.

Não se atribua, portanto, a culpa da crise da Zona Euro ao Tratado e apenas aos Estados Membros financeiramente indisciplinados.

Importa também reconhecer que a crise envolve a zona euro e não está confinada a um ou outro Estado membro. Na situação actual, e face ao elevado grau de interdependência económica e financeira, qualquer desenvolvimento negativo num Estado da zona euro terá sempre impacto negativo em todos os outros Estados. É este risco de contágio que tem de ser prevenido adequadamente e não pode ser menosprezado.

Perante a evidência da crise, a União tardou a reconhecer a sua natureza e a sua escala e tardou a dar-lhe a resposta que se impunha. Enredada numa retórica política de recriminações mútuas, evitando reconhecer a responsabilidade partilhada, ignorando a evidência dos riscos de contágio, hesitando na solidariedade, oscilando nos instrumentos a usar, promovendo uma deriva intergovernamental, a União Europeia deu guarida a uma crescente especulação sobre a zona euro, alimentando as incertezas sobre o próprio futuro da moeda única. Ora, o que os mercados estão a testar é precisamente a existência de uma verdadeira e consistente União Económica e Monetária.

Recordo palavras de Jean Monet. Cito: “Não temos senão uma escolha: entre as mudanças para onde seremos arrastados ou aquelas que decidimos por nossa vontade realizar”. De novo hoje nos confrontamos com essa escolha: ou enfrentamos a crise com as medidas que se impõem ou seremos arrastados por ela para mudanças imprevisíveis e incontroláveis que põem em risco a própria União Europeia.

O tempo que enfrentamos exige acção e acção rápida. Os mercados não esperam por discussões labirínticas e negociações intermináveis. Custa a compreender, por exemplo, que as positivas decisões do Conselho Europeu de 21 de Julho ainda estejam prisioneiras de obstáculos políticos e formais. Tal como é inadmissível o happening quotidiano de discursos divergentes por parte dos líderes europeus. Este tempo exige, mais do que nunca, convergência, solidariedade e responsabilidade sem falhas.

Num ponto começa a haver convergência quase generalizada: um Estado da zona euro sob dificuldades não pode ser deixado cair em incumprimento descontrolado, sob pena de criar um efeito dominó de consequências imprevisíveis para o próprio projecto de integração europeia. O fracasso do euro poria em causa o mercado interno, alimentaria o retorno de nacionalismos e proteccionismos, enfraqueceria a Europa na cena internacional.

Ao contrário, é preciso reafirmar que a União Europeia tem os recursos, os instrumentos e os meios institucionais para superar esta crise. O que tem faltado é a vontade política para mobilizar uns e outros e fazê-lo com um método eficaz e de forma célere.

Em suma, a resposta à crise tem de ser europeia, sistémica e eficaz no curto prazo. Neste quadro, entendo que há medidas que se impõem e que não podem esperar.

Começando pelo reforço do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), instrumento fundamental para assistir os Estados em dificuldades. A sua dimensão tem de estar à altura dos riscos especulativos que, de resto, estão já identificados.

Outra intervenção que se impõe no imediato cabe ao Banco Central Europeu (BCE) que, ao longo dos seus doze anos de existência, tem tido uma acção extremamente positiva. Garantiu o mandato que lhe foi confiado, assegurando a estabilidade de preços, e tem contribuído para combater a crise financeira da zona euro. Presto a minha homenagem a Wim Duisenberg e a Jean-Claude Trichet pela forma como desempenharam as difíceis funções de Presidente do BCE.

A situação excepcional e de verdadeira emergência a que chegámos reclama mais do BCE. É necessária uma intervenção mais ampla e previsível no mercado da dívida soberana dos países solventes que enfrentam problemas de liquidez, a disponibilidade para uma intervenção ilimitada no mercado secundário, como defende Paul de Grauwe. Não se trata de operar uma intervenção descontrolada e de risco sem medida. Trata-se de um compromisso credível para matar cerce a especulação e garantir, por essa via, as condições para o funcionamento dos mercados da dívida soberana num quadro de estabilidade e confiança.

É uma função a exercer em último recurso, quando a pressão dos mercados atinge proporções insuportáveis, como é o caso. De resto, a generalidade dos economistas reconhece que, uma vez travada a especulação, essa função acaba por não ter que se materializar, ficando num plano meramente supletivo. As ameaças que recaem sobre a zona euro não recomendam que fiquemos amarrados a interpretações restritivas das normas que regem a União Económica e Monetária.

É claro que a intervenção do BCE no mercado da dívida soberana, tal como a do FEEF, tem de estar associada a uma condicionalidade estrita que garanta o cumprimento por parte dos Estados em dificuldades das políticas orçamentais e estruturais adequadas. O binómio solidariedade/responsabilidade tem de ser assumido por todos, Estados membros e instituições europeias.

A recapitalização e financiamento dos bancos europeus é outra medida urgente, que exige uma intensa concertação e a mobilização de instrumentos com natureza e escala de nível europeu. O reforço dos capitais dos bancos é um imperativo generalizado na Europa, tal como a necessidade de garantir liquidez através de instrumentos que superem as dificuldades de acesso aos mercados. Também aqui a UE, designadamente através do BCE e do FEEF, deve actuar como promotora e catalisadora activa de medidas concertadas a nível da zona euro.

Sem capitais que garantam capacidade para enfrentar a crise, sem liquidez para manter o crédito, os bancos não poderão assegurar o financiamento da economia, com efeitos dramáticos no plano económico e social, que mais não farão do que acentuar a crise, numa espiral com consequências imprevisíveis.

Tenho acompanhado de perto a controvérsia quanto à emissão de eurobonds. Não duvido que poderia ser uma poderosa resposta a esta crise. Todavia, a sua implementação está envolta em tantas indefinições, quer de natureza política, quer de natureza técnica, que a tornam impossível de levar à prática, num tempo compatível com as dificuldades do presente. Entendo, contudo, que os chamados eurobonds devem estar na agenda europeia, havendo, rapidamente, que clarificar o conceito e determinar os requisitos exigidos em termos de transferência de soberania para as instituições europeias e de alteração da arquitectura institucional da União Económica e Monetária.

Uma resposta efectiva à crise impõe, ainda, o aprofundamento da governação económica europeia. O Semestre Europeu e o Pacto Plus são um passo nessa direcção. Mas é preciso mais, como defendem a Comissão e o Parlamento Europeu. Há que ser claro neste ponto: o reforço do FEEF e a intervenção do BCE só se podem realizar num quadro em que os orçamentos e as políticas macroeconómicas dos Estados sejam adequadamente escrutináveis e respeitem um rumo equilibrado e sustentável.

Mas tal não implica a criação de novas estruturas, concorrendo com as actuais, mas o reforço das que existem, começando pelo papel central que cabe à Comissão Europeia.

A este propósito, não escondo a preocupação com que venho assistindo, nos últimos anos, à desvirtuação do método comunitário. A deriva intergovernamental está a contaminar o funcionamento institucional da União Europeia. Em vez de uma mobilização convergente, e de uma responsabilidade solidária por parte de todos os Estados e instituições, vamos constatando a emergência de um directório, não reconhecido, nem mandatado, que se sobrepõe às instituições comunitárias e limita a sua margem de manobra. Este é um caminho errado e perigoso. Errado por que ineficaz. Perigoso por que gerador de desconfianças e incertezas que minam o espírito da união.

O caminho certo é o do método comunitário, como a história da integração europeia eloquentemente demonstra. Foi com o método comunitário que a integração europeia se aprofundou e afirmou. Com a Comissão a constituir o centro de gravidade da iniciativa, o braço executivo das políticas e das acções comuns e o guardião dos Tratados. Ao Conselho Europeu, e não a um directório de alguns países, cabe a orientação política, e ao Conselho de Ministros cumpre tomar as decisões que enquadram a acção comunitária. É esta a fórmula institucional que garantirá a união da Europa.

Volto a repetir: a governação económica da zona euro tem de ser mais imperativa, rigorosa e eficaz. Mas é a Comissão Europeia que deve ser a charneira institucional para realizar, com equilíbrio e eficácia, essa missão.

Será necessário rever o Tratado de Lisboa?

A União Europeia tem combinado elementos federais, comunitários e de mera cooperação intergovernamental. É uma das suas marcas originais. Considero que é expectável e desejável que, a prazo, a união monetária seja acompanhada por uma verdadeira União Económica e Financeira, de modo a garantir não só a estabilidade monetária, mas também a estabilidade financeira e o crescimento económico.

Nessa perspectiva, a revisão, a prazo, dos Tratados terá de ser equacionada. Repito, a prazo, porque a crise não espera por uma revisão dos Tratados que se sabe ser inevitavelmente lenta e complexa.

Mas o combate à crise financeira tem de incluir, obrigatoriamente, uma agenda voltada para a promoção do crescimento económico e de criação de emprego. O saneamento das finanças públicas terá um resultado socialmente insuportável se não for acompanhado de recuperação económica e de criação de emprego. Cabe à União Europeia um papel central na promoção desse objectivo, reforçando os instrumentos de apoio à inovação e á competitividade, estimulando a iniciativa económica e o empreendedorismo.

Preocupa-me particularmente os níveis muito elevados de desemprego jovem na União Europeia, fruto de uma economia anémica e pouco competitiva e das fortes medidas de contenção orçamental.

As políticas de austeridade e as dificuldades de liquidez que enfrentam os países mais endividados devem ser compensadas por políticas voluntaristas de crescimento e emprego promovidas pela União Europeia, por políticas expansionistas por parte dos países superavitários e por uma prudente redução da taxa de juro de referência do BCE. É este o caminho que permitirá garantir, neste fase difícil, um horizonte de esperança e de confiança para todos os cidadãos da Europa, sem excepção.

(...)

Em 1946, logo a seguir à II Guerra Mundial, no célebre discurso de Zurique, dizia Churchill que só havia “um remédio eficaz para a tragédia europeia: voltar a criar a Família Europeia”. Esse remédio continua eficaz. E é preciso usá-lo sem restrições para impedir que a integração europeia regrida e volte a ser apenas uma melancólica utopia.

Na primeira metade do século passado, o grande poeta português Fernando Pessoa, inconformado com a situação, no seu país, em que “ninguém sabia que coisa queria, nem conhecia que alma tinha”, convocava o seu país e a sua gente, com um grito que ecoa, até hoje, no coração dos portugueses, nas horas difíceis: “Ó Portugal... é a Hora!”

Neste momento difícil da vida da Europa e dos europeus, ocorre-me muitas vezes este apelo. Espero sinceramente que a Europa saiba reconhecer que esta “é a Hora!” "





Quem passou a redigir os discursos do Presidente da República está de parabéns: é um discurso notável.
Apesar de se opor à existência do directório Alemanha-França esquecendo-se que estes dois países detêm quase metade da população e metade do PIB da Zona Euro e que o aparecimento de uma liderança forte contribuirá para o avanço mais rápido da construção europeia.
Apesar de puxar a brasa à sardinha de Durão Barroso, ou seja, à sardinha da facção do PSD protegida por Cavaco Silva.
Apesar de ignorar que um terço do empréstimo externo a Portugal é garantido pelo FMI, outro terço pela Alemanha+França e o restante terço pelos outros países da Zona Euro. Portanto o directório garante metade do dinheiro que vem do BCE/CE. Quem paga, manda, não é?

Angela Merkel tem a legitimidade dos votos alemães e Nicolas Sarkozy dos votos franceses, quase metade da população da Zona Euro.
Quantos eleitores europeus se revêem no presidente do Conselho Europeu, Van Rompuy, ou em Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia? Ou em Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo?
Quando Obama precisa de falar com a Rússia, a China ou o Japão, sabe para quem deve ligar. Quando precisar de falar com a União Europeia, liga para qual deles?
O filho de Maria Stuart, rainha da Escócia, tornou-se rei de Inglaterra há quatro séculos, uniu as duas coroas e os dois países que não mais se separaram. Sarkozy tem ascendência húngara e grega, Merkel vem da Alemanha de leste. É um bom começo para um governo europeu.

Outra ideia interessante seria diminuir as despesas com a Presidência da República Portuguesa que no OE 2011, pág. 81, ascenderam a 18 milhões de euros!


domingo, 9 de outubro de 2011

Um governo para a Zona Euro – II


Os líderes europeus estão a ser pressionados pelos parceiros internacionais para acabar com o contágio da dívida que o presidente Barack Obama disse estar a "assustar o mundo" quando, no mês passado, enviou o secretário do Tesouro Timothy Geithner à reunião dos ministros das Finanças da UE, na Polónia.

Preocupada com a crise da dívida, mas tentando impedir a implosão do euro, a chanceler Ângela Merkel já tinha afirmado, na sexta-feira, num discurso perante o CSU, seu parceiro na coligação, que a divisa europeia é crucial para o funcionamento da economia alemã: "Esta moeda única, o euro, é o elixir da vida para a Alemanha".
É que, na terça-feira, uma sondagem do instituto Forsa mostrou que 54% dos alemães pretendiam regressar ao marco, a moeda que antecedeu o euro na Alemanha, devido à crise da dívida.

Merkel aproveitou esse evento para responder também a Obama, ao declarar que o G20 tem de tomar atenção aos protestos contra os mercados financeiros, como o movimento espanhol dos “indignados” ou o norte-americano “Ocuppy Wall Street”.
"Os políticos precisam de impedir que cada vez mais pessoas desçam às ruas — o que está a acontecer em muitos países", defendeu a chanceler, sendo preciso criar um escudo de protecção para que "os mercados não conduzam as pessoas à ruína".


Bloomberg


Hoje, na conferência de imprensa que se seguiu a mais um encontro bilateral entre os líderes das duas maiores economias europeias, desta vez em Berlim, Nicolas Sarkozy fixou um prazo para dar uma resposta à crise da dívida soberana e aos defeitos estruturais dos 17 países da Zona Euro.
"Precisamos dar uma resposta que seja sustentável e global. Decidimos dar essa resposta até o final do mês porque a Europa deve resolver os seus problemas até à cimeira do G20 em Cannes", disse Sarkozy.
Merkel concordou com a recapitalização dos bancos europeus: "Estamos determinados a fazer tudo o que for necessário para garantir a recapitalização dos nossos bancos".
Embora tenha reiterado a intenção de manter a Grécia no euro, deixou aos auditores internacionais, conhecidos como a troika, a orientação dos próximos passos e Sarkozy evitou repetir o que disse há nove dias de que "não podemos deixar a Grécia falhar".
Mas para aumentar a coordenação económica e financeira na Zona Euro a chanceler lembrou que é necessário alterar os tratados europeus.





Acontece que a cimeira do G20 é só em 3-4 de Novembro e modificar os tratados europeus pode levar anos. Ora urge agir: o conselho de administração do Dexia SA (DEXB) ia reunir-se, hoje, com a intenção de começar o desmembramento deste banco franco-belga, o primeiro credor a cair vítima da crise da dívida na Zona Euro.


O G20 é o Grupo dos Vinte ministros das Finanças e governadores dos Bancos Centrais das economias industrializadas e em desenvolvimento mais importantes — 19 países e a União Europeia — e foi criado em 1999 para discutir as questões-chave da economia global.

Europa: Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Rússia, União Europeia
América: Argentina, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, México
África: África do Sul
Ásia e Oceânia: Arábia Saudita, Austrália, China, Índia, Indonésia, Japão, República da Coreia, Turquia

Os chefes de governo, ou os chefes de Estado, passaram a participar nas cimeiras desde a crise financeira de 2008, sendo a União Europeia representada pelo Presidente do Conselho Europeu e pelo Banco Central Europeu.
As economias do G20 representam mais de 80% do PIB mundial, 80% do comércio mundial (incluindo o comércio dentro da UE) e dois terços da população mundial.


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vítor Gaspar, um ministro respeitado na Zona Euro




Esta manhã Vítor Gaspar, ministro das Finanças, proferiu o discurso de abertura da conferência 'Desafios económicos transatlânticos numa era de multipolaridade crescente' na European School of Management and Technology, em Berlim.

O conferencista foi apresentado por Otmar Issing, antigo economista-chefe do Banco Central Europeu — onde avaliou o trabalho de Gaspar que foi, entre 1998 e 2004, o primeiro director-geral de Estudos Económicos da autoridade monetária europeia —, com estas palavras:

"Considero-o um economista extraordinário e uma pessoa absolutamente honesta, uma pessoa que considero como a melhor solução para [Portugal] reganhar credibilidade, que é hoje a coisa mais importante. Quando soube da sua nova nomeação enviei-lhe uma mensagem dizendo 'parabéns ao seu país'."

O elogiado, como é apanágio das pessoas que ascenderam na vida por mérito, agradeceu as "palavras simpáticas" e recordou a longa amizade e cooperação entre ambos, declarando com humildade:

"Para mim, [o senhor] será sempre o Professor Issing".




E de que é que falou Vítor Gaspar? Da chegada dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) aos centros de decisão mundiais o que vai obrigar o poder político, económico e financeiro global, detido até agora pela Europa e pelos EUA, a se reorganizar de forma a incluir as potências emergentes:

"No século entre 1950 e 2050, o peso da Europa no PIB mundial terá caído dos 28,2 para 17,9% e os EUA para 19,6%. No mesmo período a Ásia irá duplicar o seu peso de 18,4 para 36,5%."

Vítor Gaspar sublinhou as responsabilidades do eixo transatlântico na construção do novo modelo de governação mundial porque EUA e Europa têm em comum "desde os valores fundamentais da democracia e direitos humanos, ao mercado como o mecanismo predominante de distribuição de riqueza".


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Missão impossível: parar uma nova recessão"


Ontem à tarde, Nouriel Roubini escreveu este artigo no Finantial Times, sob o título "Mission impossible: stop another recession":

7 de Agosto de 2011 18:19


"O primeiro semestre de 2011 mostrou uma desaceleração do crescimento — se não mesmo uma contracção — nas economias mais avançadas. Os optimistas disseram que era uma correcção temporária. Uma ilusão frustrada. Mesmo antes do pânico da semana passada, os EUA e outras economias avançadas estavam a caminho de uma segunda recessão grave.

Os dados recentes da América foram ruins: houve reduzida criação de emprego, fraco crescimento e estagnação do consumo e da produção industrial. A habitação permanece deprimida. Caiu a confiança de consumidores, empresários e investidores e, agora, vai cair ainda mais.

Do outro lado do Atlântico a periferia da Zona Euro está agora em contracção ou, na melhor das hipóteses, a crescer fracamente. O risco de que a Itália ou a Espanha — e talvez ambos — venham a perder o acesso aos mercados de dívida é, agora, muito alto. Ao contrário da Grécia, Portugal e Irlanda, estes dois países são demasiado grandes para serem resgatados.

Entretanto, o Reino Unido viu o crescimento a aplanar à medida que a austeridade vai ferroando e o Japão, estruturalmente estagnado, vai recuperar durante alguns trimestres — após a dupla recessão a seguir ao terramoto — apenas para estagnar de novo quando os estímulos fracassarem. Pior ainda, os principais indicadores da produção global estão a diminuir drasticamente — quer nas economias emergentes, como a China, Índia e Brasil, quer nos países orientados para a exportação ou ricos em matérias-primas, como a Alemanha e Austrália.

Até ao ano passado os políticos podiam tirar um coelho da cartola para accionar a deflação dos activos e a recuperação económica. Taxas de juro zero, QE1, QE2, crédito facilitado, estímulos orçamentais, delimitação, provisão de liquidez no montante de biliões de dólares e resgate a bancos e instituições financeiras — tudo foi tentado. Mas agora esgotámos os coelhos.

A decisão desacertada da Standard & Poor’s de descer a notação dos EUA num momento de turbulência do mercado e fraqueza económica tão graves só aumenta a probabilidade de uma recessão em W e ainda maiores défices orçamentais. Paradoxalmente, porém, o Tesouro dos EUA provavelmente continuará a ser o activo seguro menos desagradável: a aversão ao risco, o declínio de capital e uma crise iminente podem até mesmo fazer a taxa das obrigações do Tesouro cair em vez de subir.

Agora, tanto na Zona Euro como no Reino Unido, a política orçamental é contraccionista. Mesmo nos EUA a questão é apenas o montante da redução, à medida que as autoridades estatais e locais, e agora o governo federal, cortarem despesas, reduzirem as transferências e (em breve) aumentarem os impostos. Outra rodada de resgates a bancos é politicamente inaceitável. Mas mesmo se não fosse, a maioria dos países, especialmente na Europa, estão tão enfraquecidos que o risco soberano está a gerar risco bancário — porque os bancos estão carregados de dívida pública.

A esperança numa flexibilização quantitativa [quantitative easing (QE), vulgo 'imprimir dinheiro'] será limitada pela inflação que está bem acima dos níveis-alvo no mundo ocidental. A Reserva Federal vai começar, provavelmente, uma terceira rodada de QE, mas será um pouco tarde demais. No ano passado, um QE2 de 600 mil milhões de dólares (juntamente com 1 bilião de dólares de cortes de impostos e transferências) produziu uma taxa de crescimento de apenas 3%, durante um trimestre. Um QE3 será muito menor e vai fazer muito menos.

Nem as exportações ajudam. Todos os países desenvolvidos precisam de uma moeda mais fraca, mas nem todos podem tê-la — se um é mais fraco, outro tem de ser mais forte. É um jogo de soma zero que tem o risco de reacender guerras monetárias. Estão a começar as escaramuças iniciais com o Japão e a Suíça a tentarem enfraquecer as taxas de câmbio. Em breve outros vão seguir-se.

Assim, podemos evitar uma nova recessão grave? Pode ser uma missão impossível. A melhor aposta para aqueles países que não perderam o acesso ao mercado — os EUA, Reino Unido, Japão e Alemanha — é introduzirem um novo estímulo orçamental no curto prazo, enquanto se comprometem com uma austeridade orçamental a médio prazo. A descida da notação dos EUA irá acelerar os pedidos de redução orçamental mas a América, em particular, deve comprometer-se com cortes significativos no médio prazo, não um corte orçamental imediato que vai piorar o crescimento e os défices.

A maioria dos bancos centrais ocidentais deve apresentar ainda mais QE, apesar do efeito ser limitado. O Banco Central Europeu não deve parar a caminhada das taxas: deve reduzir as taxas a zero e fazer grandes compras de obrigações soberanas para evitar que a Itália ou a Espanha percam o acesso ao mercado — o que teria como resultado uma crise verdadeiramente colossal, a exigir o dobro (ou o triplo) dos recursos para resgates, ou insolvências e a implosão da Zona Euro.

Finalmente, uma vez que esta é uma crise de solvência, assim como de liquidez, deve começar uma reestruturação ordenada da dívida. Isto significa uma redução da dívida hipotecária para a metade das famílias dos Estados Unidos que estão debaixo de água, e bail-ins para os credores dos bancos em perigo. Devem ser concedidas extensões de maturidade coercivas nas taxas livres, ao estilo grego, também para Portugal e Irlanda, com a Itália e Espanha a seguir, se perderem o acesso ao mercado. Pode não ser possível prevenir outra recessão. Mas a política pode parar uma segunda depressão. Isso é um motivo suficiente para uma acção rápida e bem localizada."