quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A fraude homeopática


Vejamos como é produzido um produto homeopático típico com a diluição 30X. Uma parte da substância activa é misturada com dez partes de água e agitada. Depois uma parte desta mistura é diluída em dez partes de água e agitada. E repete-se o processo 30 vezes. No final, 1 parte da substância activa ficou diluída em 10³⁰ partes de água.
Sabe-se, há mais de um século, que 18 g de água contêm 6x10²³ moléculas. Logo

18 g
_______
6x10²³


=


x
______
10³⁰

seria preciso tomar 3x10⁷g da solução, ou seja, 30.000 litros para ter a expectativa de ingerir uma única molécula da substância activa.

No Oscillococcinum, um produto vendido como "remédio" para a gripe, a diluição é ainda muito maior, exactamente 200C. O C significa que uma parte de extracto de fígado e coração de pato agora é misturada com cem partes de água. E repete-se a diluição 200 vezes. A conclusão é que 1 molécula do extracto de miudezas de pato fica diluída em (10²)²⁰⁰ = 10⁴⁰⁰ moléculas de água, ou seja, o algarismo 1 seguido de 400 zeros. Acontece que há cerca de 10⁸⁰ átomos no universo, de modo que a diluição do Oscillococcinum fica espantosamente abaixo do limiar de diluição do universo observável!

Portanto a homeopatia não tem base científica. Apoia-se na crença de que as moléculas de água têm memória, crença possivelmente alimentada por uma ideia errada do que é a estrutura da matéria. É o resultado de ter-se reduzido quase a zero o estudo da Matemática, Física, Química, Biologia e Geologia durante 40 anos, ter-se eliminado os exames e de dar-se diplomas a ignorantes, convencendo-os que são cultos.

Sem cultura científica suficiente para entenderem sequer o método experimental criado por Galileu Galilei — que permitiu um avanço de séculos da ciência e tecnologia ocidentais face à cultura asiática cristalizada no pensamento filosófico —, os adeptos da homeopatia fazem analogias de arrepiar os neurónios dentro de matérias das ciências exactas.
Como os filósofos nada sabem de correlações estatísticas, só há uma maneira de lhes explicar que os estudos científicos realizados com produtos homeopáticos mostram que estes actuam como placebos: é a via do humor. O artigo a seguir transcrito é uma pérola nesse campo:


"Oscillococcinum Cadabra

JOSÉ DIOGO QUINTELA, 25 de Janeiro de 2015

Tenho a casa transformada em enfermaria. Neste momento, estão internados cinco Nenucos, três Barbies (tecnicamente, uma delas é Barbie-Sereia) e um Action Man. Padecem de gripe.

A minha filha é muito atenciosa com os pacientes. Está a levar a sua função terapêutica muito a sério. A minha mulher está convencida de que a miúda vai ser médica. A mim, pela maneira como ela trata as bonecas, dá-me mais a sensação que ela vai ser homeopata. É que os remédios que ela receita são colheradas de ar e pingos de água aplicados a partir de um biberon de brincar.

Como pai preocupado com o futuro, é óbvio que estou contente. A homeopatia não é tão prestigiante quanto a medicina, mas dá mais dinheiro. E o curso é mais fácil. Só é preciso aprender a medir porções, diluí-las e sacudi-las num recipiente. No fundo, é um curso de barman em que só se usa água. Aliás, qualquer pessoa que já teve preguiça de ir à despensa buscar uma embalagem de champô nova, preferindo antes encher de água e abanar a embalagem vazia de modo a recolher refugo de champô com que lavar a cabeça, é um homeopata em potência.

Todos os dias ouço um anúncio na rádio a recomendar que faça a prevenção da gripe com o Oscillococcinum, um produto homeopático. Ora, eu não sou cientista. Logo, tenho toda a qualificação necessária para me pronunciar sobre homeopatia. E diria que a prevenção da gripe com pílulas de açúcar só funciona se o vírus influenza estiver a fazer a dieta do Paleolítico. Sem ser para evitar os hidratos de carbono, não estou a ver outra razão que levasse um vírus a não querer instalar-se em alguém só porque toma pílulas de açúcar. A empresa que o vende garante que não tem efeitos secundários. Aí já estamos de acordo. É natural que não tenha, porque para ter um efeito secundário seria necessário que tivesse, anteriormente, um efeito primário.

No entanto, a bem da verdade, tenho de reconhecer que o Oscillococcinum não é apenas açúcar. O seu ingrediente fantástico (no sentido de “estupendo” para os homeopatas; no sentido de “fictício” para as restantes pessoas) é um extracto de miudezas de pato, o que faz do Oscillococcinum uma sugestão de canja muito cara. Quando alguém toma um comprimido, há um círculo que se completa: o que começou com um pato termina num pato. Não consigo imaginar melhor definição de “holístico”.

Os homeopatas garantem que depois das 200 diluições do extracto de pato, a água retém a memória de uma molécula do ingrediente original. Até agora, não se conseguiu provar que a água tenha memória. A existir, a memória da água é igualzinha à memória do vinho: quando o bebo, no dia seguinte também não me lembro de nada.

Atenção, o meu cepticismo não é dogmático. Mudo de opinião quando me mostrarem provas irrefutáveis. E a verdade é que fui agora ao quarto da minha filha e as doentes estavam todas perfiladas para uma aula de zumba. Tudo com ar bem-disposto. Tirando o Action Man."


*

O artigo gerou no Público um fórum típico da questão homeopática. Se evitar que pessoas crédulas sejam exploradas financeiramente por impostores que pretendem lucrar com a desgraça alheia, já terá merecido a pena a transcrição:

Rodrigo Aguiar
26/01/2015 00:27
Folgo em saber que Galileu Galilei foi perseguido por defender o heliocentrismo, numa época em que as provas do geocentrismo eram irrefutaveis, ainda assim ele estava certo. Arthur Schopenhauer disse um dia "Qualquer verdade passa por três estágios: Primeiro, é ridicularizada. Segundo, é violentamente combatida. Terceiro, é aceita como óbvia e evidente." Se pesquisarmos sobre homeopatia já com o principio de que esta não funciona, realmente vamos encontra-la como compostos de água e açúcar. Mas se por outro a pesquisa for feita livre de preconceitos, talvez poderemos entender quais são os seus princípios, porque é que ela funciona e que talvez ainda estejamos longe de ter a tecnologia que nos permite confirmar cientificamente as suas propriedades.
  • Miguel Almeida
    26/01/2015 09:29
    O Rodrigo não leu o texto até ao fim. "Atenção, o meu cepticismo não é dogmático. Mudo de opinião quando me mostrarem provas irrefutáveis". Chama-se a isto método científico. Na indústria farmacêutica, o método científico traduz-se num conjunto de ensaios clínicos que demonstram a segurança e eficácia do medicamento. Onde está, então, a demonstração de que o produto faz (e faz de forma segura) aquilo que diz fazer?
  • Rui Costa
    26/01/2015 10:42
    Rodrigo, o seu comentário começa mal. Galileu Galilei não foi perseguido pela comunidade científica da época. Lembra-se de algum cientista de renome que se lhe tenha oposto? Foi perseguido, julgado e condenado por quem não percebia nada de Ciência e por quem não estava interessado em olhar para os indícios mas sim para dogmas de fé. E é precisamente isso que agora o Rodrigo propõe: que tenhamos fé na eficácia da homeopatia, relegando, para um futuro distante, a possibilidade de se descobrirem provas que a sustentem...
  • JP
    26/01/2015 18:21
    Amigo Rodrigo, o que você não percebeu é que o geocentrismo está para o heliocentrismo como os homeopáticos estão para os medicamentos a sério. Se bem que as teorias que suportavam o geocentrismo tinham um pouco mais de fundamento que as que suportam os homeopáticos. No fundo, tratam-se de dois exemplos de "má ciência", embora um deles nem ciência seja.
    A ciência evoluiu centenas de anos para que deixássemos de nos fiar apenas em ervinhas e rezas. Parece-me, portanto, muito improvável que agora apareçam provas irrefutáveis de que as ervinhas e rezas funcionam melhor que os medicamentos e técnicas médicas que desenvolvemos nos últimos anos.
  • Mac
    26/01/2015 19:10
    "Amigos" Rui e Miguel! Pelos vossos comentários já percebi que defendem a indústria farmacêutica com unhas e dentes, mas outras pessoas têm o direito de escolher o que acham ser melhor para elas. Quanto a mim estejam descansados que prefiro ir dar-vos dinheiro quando estou doente ;)
  • casmaria
    27/01/2015 18:01
    Mac, o problema das farmacêuticas é outro, e não é de ciência. A investigação farmacêutica precisa de uma mudança de paradigma urgente. A investigação à porta fechada, em competição (em vez de colaboração) e financiada por entidades enviesadas é extremamente ineficiente. Para não falar nos gastos associados de marketing, patentes e outras coisas absurdas. É uma pena que ninguém pense nos custos obscenos que as farmacêuticas cobram por novos fármacos, e prefiram exigir que os governos baixem a bolinha e paguem a estas empresas, em vez de exigir que tudo passe a genérico.

Pedro Ferreira
26/01/2015 20:20
A malta quer provas visiveis, demonstrações... A tecnologia evolui, e obviamente que ainda tem muito para evoluir, por tanto ate la ainda só ha evidências, factos de que a homeopatia de facto resulta. Mesmo quem acusa a homeopatia de ser placebo, não prefere ser tratada com placebo do que com drogas? Mas não é placebo, e o que não entendo é todo este ataque à homeopatia, quando ha ensaios clínicos com resultados altamente favoráveis para a homeopatia, muitos deles duplo-cego, é so pesquisarem. A Homeopatia tem-se aguentado tão bem exatamente pela sua eficácia e ensaios clínicos. Fica mesmo só a faltar, e estou seguro de que vai acontecer, conseguirem o que voces querem, as tais provas. Mas sinceramente também nao me rala muito isso, funciona e isso é que importa... saúde.
  • SFMarinheiro
    27/01/2015 00:07
    A "malta" são os cientistas. Aqueles chatos que exigem evidências claras, resultantes de estudos publicados e descritos para que possam ser avaliados por todos. Por muito que o diga, não há um só, um estudo só que mostre qualquer superioridade da homeopatia em relação a placebo. O que é claro, visto que ambos são apenas placebos.
    Preferir placebos a medicamentos é o mesmo que preferir beber um copo de água em vez de almoçar e pagar a água a preço de caviar. E se se aguenta, é só porque há quem ganhe (muito) dinheiro com isso, enganando e enganando-se.
  • André Duarte
    27/01/2015 15:26
    Mas isso é mentira. Não há espaço para debate no que toca a factos, e o facto é que não existe nenhum ensaio que mostre eficácia da homeopática acima do placebo. Acho que o senhor não percebe sequer do que um placebo se trata. Dizer que um medicamento tem uma eficácia equivalente a um placebo quer apenas dizer que em testes, metade do grupo recebeu comprimidos de açúcar (o placebo), e outra metade preparações homeopáticas, sem saber qual está a tomar, e em ambos surtiram o mesmo efeito, provando que o "medicamento" não passa de um embuste. Não se trata de desculpar a eficácia dos homeopáticos com um suposto "efeito placebo", como se fosse batota, que é o que dá a entender que o senhor acha que isto se trata.
    A Homeopatia tem-se aguentado bem, sem dúvida, à base de crédulos e do desespero das pessoas quando confrontadas com um prognóstico negro. Sabe o que é que também se tem aguentado bem? Os cogumelos do tempo, o professor Bambo, e a Maya. Se diz que existem estudos, então mostre-os, pois enquanto que eu encontro às centenas deles, de prestigiados grupos, a dizer que a homeopatia não tem eficácia, não encontro um único a favor.
  • Pedro Ferreira
    27/01/2015 22:31
    PubMed é um banco de dados que possibilita a pesquisa bibliográfica em mais de 17 milhões de referências de artigos médicos publicados em cerca de 3.800 revistas científicas. Ha bem mais ensaios clínicos com o remédios homeopáticos. Sou aluno de medicina homeopática, e é pena todas estas guerras que existem entre medicinas diferentes, devido a interesses. Há muito estudo de volta da homeopatia, e não é falado porque simplesmente encobrem e nao interessa a muita gente que tem muito poder na medicina...
  • casmaria
    27/01/2015 23:42
    O problema não são os interesses, mas sim o facto de os estudos não serem reprodutíveis fora dos círculos de revistas homeopáticas. No mesmo PubMed (e Google Scholar) há estudos que demonstram isso mesmo. Mais: o facto de estar publicado em revista, não significa verdade cientifica, pois a reprodutibilidade é essencial.
    Os interesses das farmacêuticas são outros bem mais rentáveis: garantir que o sistema de patentes e copyright não muda e que os governos e as pessoas não se lembrem de exigir a passagem imediata a genérico de medicamentos novos com eficácia comprovada (como o Sofosbuvir, de combate à Hepatite C, por exemplo).
  • Pedro Ferreira
    28/01/2015 10:09
    Casmaria, obviamente que ha ensaios clinicos com resultados favoraveis e outros pouco favoraveis, é para isso que existem, se formos a ver a quantidade de farmacos alopaticos com maus resultados nao saíamos daqui. Mas queriam resultados positivos que mostram a eficacia da homeopatia e aqui encontram muitos. O pubmed não é baseado em revistas homeopáticas, engloba um mundo de medicinas, principalmente alopática. Quanto aos interesses nao me referia a farmacêuticas, as farmacêuticas não precisam de se chatear com a homeopatia. Tenho médicos na familia, e amigos farmaceuticos, sei do que estou a falar, e do porquê de tanta demora na regulamentação da lei das medicinas não convencionais, que está muito relacionado com o tema. Cumprimentos
  • casmaria
    28/01/2015 11:27
    A demora tem a haver com o que eu disse. A Homeopatia não está provada cientificamente, e os estudos positivos que fala, a maior parte não podem ser reproduzidos e/ou têm controlos (negativos e positivos) deficientes, ou mesmo inexistentes. É por isso que dificilmente são aprovados em revistas de alto impacto. E convém lembrar (e explicar para quem não sabe) que o PubMed indexa revistas científicas, independentemente do seu impacto ou qualidade dos artigos (que é responsabilidade dos autores e editores dessas revistas). Por essa razão, há lá muito lixo.
  • José Cid Adão
    28/01/2015 12:46
    Pedro, aconselho-o a não desistir dos seus estudos em homeopatia. Em primeiro lugar, porque qualquer remédio homeopático que invente vai ter o mesmo efeito que qualquer outro que já exista. Todos os homeopatas são, por isso, autoridades no seu campo. Segundo, porque como alguém dizia, nunca ninguém perdeu dinheiro por subestimar a inteligência das pessoas.
  • Pedro Ferreira
    28/01/2015 14:23
    Casmaria, você de facto nao esta minimamente dentro do assunto da regulamentação das medicinas não convencionais, se voce estivesse certo a naturopatia por exemplo ja estava regulamentada, mas insiste em argumentar como se percebesse muito disto... Não vale a pena continuar a discussao consigo porque acho que simplesmente é do contra e de ideias fixas. Vim aqui para a uma discussao saudavel, que se tornou numa tentativa de competiçao de conhecimentos.
    Caro Jose Cid, " ... qualquer remédio homeopático que invente vai ter o mesmo efeito que qualquer outro que já exista", esta so pode ser mesmo a sua opinião, porque fundamento não tem nenhum. Cumprimentos
  • casmaria
    28/01/2015 15:14
    Pedro Ferreira, a acupuntura, por exemplo, já é aceite pela comunidade científica, porque foram feitos estudos como deve ser sobre os seus efeitos, assim como têm sido isolados vários princípios ativos com aplicação clínica, cuja origem é de plantas usadas em medicina tradicional. Estamos a falar de Homeopatia. E já agora aquilo que eu falei do PubMed, aplica-se a qualquer tema lá indexado, qualquer um.
  • Pedro Ferreira
    28/01/2015 16:16
    Ok Casmaria, mantenha a sua que eu mantenho a minha...
  • André Duarte
    28/01/2015 19:32
    Eis o que encontrei na pubmed (/pubmed/12492603): Um estudo de estudos que mostra que aglomerando os resultados de centenas de estudos ao longo dos anos, não existem diferenças estatisticamente relevantes entre a homeopatia e o grupo de controlo. Naturalmente que encontrará artigos a mostrarem evidências a favor, tal como nos anos 50 encontrava estudos que mostravam conclusivamente os efeitos benéficos do tabaco. Agora sabemos bem quem financiava os laboratórios que chegavam a essas conclusões (as companhias de tabaco). De igual modo, se nos restringirmos a laboratórios independentes de renome, então e que nem conseguimos encontrar um único estudo conclusivo a favor. Claro que as companhias que vendem água e açúcar a 10€ a caixa têm interesse em que pareça haver estudos a seu favor...
  • André Duarte
    28/01/2015 19:55
    Outra coisa: diz-me que "estuda" homeopatia. Fui ver à internet quão diluído é o fígado de pato no Oscillococcinum. Aqui vai o número: 10﹣⁴⁰⁰ grama! O senhor faz a mais pequena, a mais ténue, a mais débil ideia do que isto significa? Olhe que eu não. Nos meus estudos estou habituado ao infinitesimal, mas este número escapa qualquer tentativa humana de o caracterizar. É 0,00...(400 zeros)...001 grama. É um trilionésimo de um trilionésimo de (repetir 33 vezes) de um trilionésimo de grama.
    Sabe quantos grãos de pó cabem daqui ao Sol? 150.000.000.000.000.000, uns míseros 15 zeros.
    Sabe quantos átomos há no universo? 10⁵³ (1 com 53 zeros à frente).
    Quantos volumes de Planck (o limite teórico da "resolução" no Universo, 10﹣¹⁰⁵ m³, tão pequeno que não vale a pena imaginar; as células mais pequenas do nosso corpo têm meros 10﹣¹⁸ m³) existem no universo? 10¹⁸⁵, um número incompreensível e, no entanto, é totalmente nulo face à inefavelmente enorme diluição do fígado neste "medicamento".
    Epá e o senhor vem dizer que vende algo mais que açúcar? É fisicamente impossível que os homeopáticos sejam mais eficazes que um placebo, porque eles são literalmente um placebo! E os estudos comprovam isso mesmo. Portanto assuma uma vez por todas que vende banha da cobra que todos os que compraram juram a pés juntos que faz maravilhas...
  • Pedro Ferreira
    28/01/2015 22:27
    Que grande testamento André Duarte. No PubMed como ja disse ha ensaios clinicos com bons e maus resultados ate na alopatia, agora essa mania da perseguição de que os resultados sao manipulados é uma estupidez, entao isso tambem serve para a alopatia. Outro ponto, a Homeopatia funciona em varias potências ou diluições, não só em potencias que ultrapassam o numero de avogadro, a partir da 12ª centesimal é que os cientistas nao conseguem encontrar nenhuma molecula da materia mãe em causa (por enquanto), abaixo disso conseguem e aí ha prova cientifica obviamente.
    Mas ha uma grande tendência de quem nao percebe nada de homeopatia a generalizar e dizer que a homeopatia é so agua e açucar, ou alcool (ou seja, todos voces pensam que não ha medicamentos abaixo dos 12ch ou 12k). Encontra muitos medicamentos homeopaticos a venda com diluiçoes abaixo dos 12, e ate decimais. Aqui também aproveitamento da industria farmaceutica. O objetivo da homeopatia é fazer um tratamento holistico, precisamos de mais informações da pessoa, do seu historial clinico para lhe receitar-mos o medicamento ideal. Ir a farmacia e comprar um produto homeopatico para um sintoma é meramente paliativo. Este ultimo ja é influencia tambem dos medicos que se especializam em homeopatia. Um bom homeopata de raiz é muito pouco provavel que receite Oscillococcinum ou outro comercial.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Resultados da componente comum da PACC 2015


O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulgou ontem em comunicado de imprensa os resultados da componente comum da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) realizada no dia 19 de Dezembro de 2014.

A componente comum da PACC tem 32 perguntas de resposta múltipla e pede a construção de um texto sobre um tema dado — este ano foi a qualidade e utilidade da informação que circula na Internet e nas redes sociais que aí cresceram. O leitor interessado pode ler um enunciado da prova (o outro altera apenas a ordem das respostas) e consultar as respostas correctas e os critérios de classificação.

A lista de candidatos aprovados pode ser consultada aqui. O resultado individual de cada candidato só pode ser consultado pelo próprio.

A nota introdutória do comunicado do IAVE esclarece de imediato o objectivo desta prova e o modelo onde se inspira (o negrito é meu):
Reitera-se a informação veiculada aquando da publicação de resultados da aplicação do ano escolar transato, realçando que a PACC não visa substituir o valor probatório da formação inicial dos candidatos, não pretende avaliar conhecimentos específicos no domínio pedagógico, nem compete, do ponto de vista dos resultados que apresenta, com quaisquer outros mecanismos de formação e avaliação dos candidatos eventualmente desenvolvidos ou a desenvolver em contexto profissional.

Como se encontra expresso na legislação que enquadra a PACC, a componente comum visa avaliar a capacidade para mobilizar o raciocínio lógico e crítico, bem como a preparação para resolver problemas em domínios não disciplinares. Neste contexto, está implícita a capacidade para consultar e interpretar informação disponibilizada em diferentes suportes, textos, tabelas, gráficos ou outros. Considera-se ainda essencial avaliar a capacidade de comunicar corretamente em língua portuguesa, que é transversal a todos os grupos de docência.

A componente comum da PACC replica um modelo validado internacionalmente e está ancorado em provas similares, desenvolvidas pelo Australian Council for Educational Research (ACER), organização com larga experiência no desenvolvimento de provas para fins de certificação profissional, e parceira da OCDE no estudo PISA, durante mais de uma década.

A componente comum da PACC visa avaliar conhecimentos e capacidades transversais a diversas dimensões profissionais, também relevantes para a docência, e que se consideram essenciais para o exercício da profissão. Com a aplicação desta prova, o Ministério da Educação e Ciência pretende valorizar a profissão docente e, do mesmo modo, a escola pública, que passa a dispor de critérios de seleção que valorizam os docentes que evidenciam os conhecimentos e as capacidades que agora se avaliam.

A tabela seguinte contém as estatísticas da realização da prova:



Resultados globais

A prova foi classificada na escala de 0 a 100 pontos, sendo aprovados os candidatos que obtiveram uma classificação igual ou superior a 50 pontos.
A cotação atribuída aos 32 itens de escolha múltipla corresponde a 80% da cotação total, sendo os restantes 20% atribuídos ao item de produção de um texto com um número de palavras entre 250 e 350.

No conjunto das 2490 provas classificadas foram aprovados 1636 candidatos (65,7% do total). Portanto ficaram reprovados os restantes 854 candidatos (34,3%), ou seja, mais de um terço dos candidatos avaliados reprovou na PACC.

A média das classificações foi 56,2 pontos e a mediana da distribuição dos resultados foi 56,5 pontos, o que significa que metade dos candidatos obteve uma classificação superior a este valor.


A distribuição dos resultados por classes de pontuação mostra que os resultados negativos concentram-se no intervalo 30-9,9 pontos (10,9%) e no seguinte, 40-49,9 pontos (18,6%).
Os resultados iguais ou superiores a 50 pontos evidenciam uma concentração na classe 50-59,9 pontos (classe com maior número de candidatos: 23,1% do total) e na classe seguinte, 60-69,9 (com 21,9%). A percentagem de candidatos na classe 80-89,9 pontos é inexpressiva (5,9%) e raros (0,8%) são os candidatos que alcançam ou ultrapassam os 90 pontos.

Resultados por item

No que se refere à classificação do item de produção de um texto, cuja cotação é 20 pontos, a pontuação média obtida pelos candidatos foi 10,2 pontos.


Verificou-se que 22,4% dos candidatos, quase um quarto, não ultrapassaram os 5 pontos, dos quais 21,9% foram classificados com zero pontos. A principal razão para a atribuição da pontuação nula foi o não cumprimento do limite mínimo de 150 palavras (77%), a segunda razão foram respostas em branco (18%).
Com uma classificação entre 10 e 14,9 pontos registaram-se 40,4% dos textos e com uma classificação igual ou superior a 15 pontos ficaram 24,8%.

Finalmente consideramos os parâmetros «ortografia», «pontuação» e «sintaxe». No que se refere à ortografia, apenas em 34,7% das respostas não se registaram erros; na «pontuação», a percentagem de respostas sem erros sobe para 36,4%. O parâmetro «sintaxe», à semelhança de aplicações anteriores da PACC, é o que evidencia melhor desempenho, sendo 49,1% a percentagem de respostas sem erros.


*

O IAVE identificou dois subgrupos de candidatos que conseguiram resultados substancialmente diferentes: os 1946 candidatos que realizaram a prova pela primeira vez (78,2% do total) e os 544 que já tinham realizado uma das duas aplicações anteriores (21,8% do total).

No subconjunto de candidatos que fizeram a prova pela segunda vez, os resultados são piores, por exemplo, a taxa de reprovação foi 53,1%. Apesar de constituírem um pequeno grupo, são os responsáveis pelo empobrecimento dos resultados globais, como pode observar-se nesta tabela do IAVE:

Resultados globais e por tipologia de candidato


Donde se conclui que a sua reprovação no ano passado não terá sido causada pelo ambiente de contestação criado em 18 de Dezembro de 2013, e repetido em 22 de Julho de 2014, pelo sindicato afecto ao PCP — a Fenprof —, mas por uma deficiente formação académica.

A componente comum da PACC é uma prova de cultura geral, portanto igual para todos os candidatos. Em Fevereiro será realizada a componente específica da PACC que difere consoante a disciplina que o candidato a professor pretende leccionar e o respectivo grupo de docência.

Agora já são pais de alunos e cidadãos descomprometidos que vêm defender a PACC para as caixas de comentários dos jornais on-line, como sucedeu no Público:

Bruno
26/01/2015 21:37
É triste de pensar que estes profissionais poderiam um dia vir a ser professores dos meus filhos. Que o desemprego os mantenha bem longe do ensino. Se tivessem vergonha na cara (que não têm) nem falariam mais da palavra greve. Agora entende-se porque não queriam ser avaliados...

JP
27/01/2015 11:46
É de uma tremenda hipocrisia que, perante estes números (e os do ano passado), as organizações sindicais e o tal Conselho Científico do IAVE (que mais parece um Conselho Acrítico) continuem a afirmar que a prova não tem qualquer utilidade prática. Uma prova elementar, em que são necessárias apenas algumas capacidades de interpretação/compreensão, análise e cálculo simples (somar, subtrair, multiplicar e dividir) para passar, ter esta taxa de reprovação, é um indicador claro de que muitos candidatos a professores não têm competência para estar à frente de uma sala de aula.
É preciso actuar ao nível da formação, sim. Mas negar que é preciso actuar ao nível em que esta prova actua, é completamente desonesto.

jorge
Groningen 27/01/2015 12:24
Avante com esta avaliação! Quem não tem competência: Requalificação ou rua. Abaixo os sindicatos, acredito que quem tem dois dedos de testa percebe as suas reais motivações.
NB: Eu sou professor.
  • JJ
    27/01/2015 13:10
    E com certeza estará no top 10 dos melhores professores da atualidade!!!
  • jorge
    Groningen 27/01/2015 14:07
    Caro JJ: Pelo menos não tenho receio de ser posto à prova. Mais: Exigo ser posto à prova. Aqui onde lecciono sou regularmente posto à prova, tanto em termos de actividades lectivas como em termos de investigação. E é assim que deve ser. Para quem se queixa desta prova em particular: A prova por si não justifica o nível de iliteracia gritante do nosso corpo docente.

Jan Wolf
27/01/2015 14:45
A questão de fundo: a qualificação dos professores deveria ser garantida através da certificação dos cursos na A3ES. Uma avaliação rigorosa dos cursos que dão acesso à carreira docente levaria, seguramente, ao encerramento da sua maioria, em particular no ensino privado e politécnico.
Como isto é, na prática, impossível de fazer, resta criar avaliações adicionais que permitam perceber a qualificação dos professores para exercer o cargo. O que fica claro desta avaliação é que, ao contrário da ideia que querem fazer passar os professores e as suas associações e sindicatos, esta qualificação não está a ser garantida e os filtros são necessários.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

In Memoriam Demis Roussos




(15 de Junho de 1946 – 25 de Janeiro de 2015)


Nasceu em Alexandria, no Egipto, no seio de uma família de origem grega, bafejado por um dom — a voz de tenor, poderosa e com um timbre rico em harmónios que lhe permitiam ressoar no espaço, tornando-a inconfundível. Voz bem trabalhada no coro da Igreja Ortodoxa grega de Alexandria, onde foi solista durante cinco anos.

Em 1961, a crise do Canal do Suez levou a empresa de construção civil do pai à falência e a família regressou a Atenas. Demis participou em pequenas bandas e passou a viver entre clubes nocturnos onde conheceu o baterista Loukas Sideras. O encontro com o compositor Vangelis Papathanassiou, no Verão de 1966, foi o ponto de viragem para uma carreira de solista: os três criaram uma banda de rock influenciada pela música clássica.


Rain and Tears, 1968


No final de Março de 1968, Demis partiu com Loukas para Londres mas ficaram retidos em Dover por ausência de visto de trabalho e tiveram de regressar a Paris onde viveram a greve geral de Maio de 1968. Mesmo assim conseguiram gravar a canção Rain and Tears, composta por Vangelis e cantada pela voz operática de Demis Roussos, que se tornou um sucesso europeu da banda, entretanto rebaptizada Aphrodite's Child. Seguiram-se os álbuns End of the World (1968), It's Five O'Clock (1969) e muitos concertos.
No entanto, Vangelis pretendia mais tempo de gravação e uma maior aproximação à música clássica, um sonho concretizado em 666, um álbum baseado em textos do Apocalipse de São João que, ao fim de três meses de cara gravação provocou o pânico na editora e levou à ruptura do grupo em 1971.

Um ano depois Vangelis conseguiu terminar sozinho o álbum, considerado uma obra-prima clássica, enquanto Demis, apoiado pela editora Phonogram, já havia iniciado uma carreira a solo que se tornou fulgurante ao longo da década de 1970.


Forever and Ever, 1973


Inspirando-se em temas populares, sucederam-se os êxitos We shall dance (1971) e Fire and Ice (1971). O ano 1972 foi preenchido com concertos em Espanha, Itália, Países Baixos, Grécia e Alemanha e uma actuação no Olympia, em Paris, onde cantou Velvet Mornings para 30 mil espectadores.
No ano seguinte foi a vez da primeira digressão pela América do Sul e da saída do álbum Forever and ever, com canções que se tornaram grandes sucessos como Forever and ever, My friend the wind, Lovely sunny days, My reason, When I was a kid, Goodbye my love, goodbye.
Sucedem-se as digressões internacionais e os álbuns My only fascination (1974), Souvenirs (1975), Happy to be (1976), The Roussos Phenomenon (1976), Ainsi soit-il (1977), demis Roussos (1978), Man of the world (1980), este último com sanções famosas como Lost in love e I need you.


Auf Wiederseh'n, 1973

My Friend The Wind, 1973


Em 1981, retoma a colaboração com Vangelis no single Race to the end, uma adaptação vocal do tema musical do filme Chariots of fire, e na banda sonora do filme icónico Blade Runner (1982), com a canção Tales of the Future (1982).

A sua voz de tenor, as suas canções e as túnicas coloridas que usava em palco marcaram a década de 1970 e o imaginário da minha geração.


domingo, 25 de janeiro de 2015

O drama grego novamente em cena - II


Sunday, January 25, 2015 - 02:08


Dois anos e meio depois, a Grécia voltou a ter eleições legislativas antecipadas. Comecemos pelos resultados nacionais divulgados no sítio na Internet do Ministério do Interior:


Partidos políticos
__________________________
Syriza
Nova Democracia
Aurora Dourada
To Potami
KKE
Gregos Independentes
PASOK
partidos fora do parlamento
__________________________
votantes em partidos
nulos/brancos
__________________________
votantes
abstenção
__________________________
9.909.528 eleitores inscritos


_________











_________
63,87 %
36,13 %
_________
100,00 %

Totais
_________
35,48 %







_________
97,64 %
2,36 %
_________
100,00 %





_________
36,34 %
27,81 %
6,28 %
6,05 %
5,47 %
4,75 %
4,68 %
8,62 %
_________
100,00%







deputados
_________
149
76
17
17
15
13
13

_________
300








Comparando o mapa interactivo destas eleições com o das eleições de 17 de Junho de 2012, vê-se que o partido de esquerda radical Syriza e o partido de centro direita Nova Democracia trocaram de posição: agora o Syriza é o mais votado em quase todos os distritos e o Nova Democracia apenas ganhou em quinze distritos.





██ Syriza
██ Nova Democracia
██ Aurora Dourada
██ To Potami
██ KKE
██ Gregos Independentes
██ PASOK






Vejamos a transformação do parlamento entre as eleições legislativas de Junho de 2012 e as deste domingo:

Parlamento
__________________________________
Syriza (esquerda radical)
Nova Democracia (centro direita)
Aurora Dourada (neonazi)
To Potami (centro)
KKE (comunistas)
Gregos Independentes (direita)
PASOK (socialistas)
__________________________________
total

2012
_________
26,89 %
29,66 %
6,92 %

4,50 %
7,51 %
12,28 %
_________
87,76 %

deputados
_________
71
129
18

12
20
33
_________
283

2015
_________
36,34 %
27,81 %
6,28 %
6,05 %
5,47 %
4,75 %
4,68 %
_________
91,38 %

deputados
_________
149
76
17
17
15
13
13
_________
300

variação
_________
+78
-53
-1
+17
+3
-7
-20
_________



Os dois partidos mais votados, o Nova Democracia e o Syriza, trocam de posição. O Aurora Dourada, partido que professa a ideologia neonazi, sobe para terceiro lugar, embora não aumente a votação, e os comunistas do KKE obtêm mais três deputados. O PASOK, que estava no Governo em coligação com o Nova Democracia, esvazia-se.
O Syriza, um partido da extrema-esquerda, é o grande vencedor destas eleições, tendo ficado a dois lugares da maioria absoluta e, como o partido mais votado tem um bónus de 50 deputados, o grande derrotado é o socialista PASOK. O eleitorado grego radicalizou-se.


*


Milhares de pessoas celebraram esta noite, em Atenas, a vitória do Syriza nas eleições antecipadas. O líder Alexis Tsipras chega ao poder com a promessa de renegociar a enorme dívida do país com a União Europeia, promessa que sabe ser impossível cumprir porque os outros países já disseram que não aceitam novo perdão da dívida, mas calou fundo no espírito dos eleitores gregos cansados dos cortes orçamentais, do aumento de impostos e desemprego elevado.

Sunday, January 25, 2015 - 01:48


"A nossa vitória é também uma vitória para todos os povos da Europa que estão a lutar contra a austeridade que está a destruir o nosso futuro europeu comum.
A Grécia está a virar uma página, a Grécia está a deixar para trás a austeridade catastrófica, está a deixar para trás o medo e a autocracia, está a deixar para trás cinco anos de humilhação e dor
," afirmou Tsipras no discurso de vitória.

O primeiro-ministro grego cessante Antonis Samaras reconheceu a derrota, mas pediu ao Syriza para não comprometer a frágil recuperação do país que, em 2014, finalmente saiu de uma recessão que durou seis anos:
"Entrego um país que é membro da União Europeia e do euro. Para o bem do país, desejo que o próximo governo continue a manter o que conseguimos alcançar."

Nos últimos dois anos os bancos franceses e alemães diminuíram a exposição à dívida grega e, na passada quinta-feira, o Banco Central Europeu anunciou um programa de compra de dívida soberana para incentivar o crescimento da economia da zona Euro que, na prática, não autoriza os bancos europeus a comprar novas obrigações do tesouro da Grécia enquanto as actuais não forem amortizadas.

A União Europeia fez o trabalho de casa. A classe alta grega há muito que transferiu as fortunas para offshores.
"O povo grego vai recuperar a coesão social e a dignidade. E a mensagem é que o nosso futuro comum na Europa não é o futuro de austeridade. É o futuro da democracia, solidariedade e cooperação", disse Tsipras depois de votar.
O problema é que não se põem economias a crescer com frases bombásticas. Quando os eflúvios da vitória do Syriza se desvanecerem e forem confrontados com a realidade económica da Grécia no contexto europeu e mundial, os gregos vão ter uma ressaca dolorosa.



Cartoon publicado no jornal "Ekathimerini"



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Arábia Saudita tem um novo rei


A Arábia Saudita foi fundada em 1932 por Abdulaziz al Saud (1876-1953). É uma monarquia absolutista que tem como constituição o Corão, o livro sagrado do islamismo, a bandeira tem inscrita a shahada — Não há deus senão Alá e Maomé é o mensageiro de Alá —, a declaração de fé do islamismo, e possui a segunda maior reserva de petróleo do mundo.

O regime tem a pena de morte por decapitação e lapidação. É frequente a aplicação de penas de mutilação e de flagelação, tendo condenado recentemente um blogger a uma pena de 1000 chicotadas e 10 anos de prisão por defender o debate político e social.

No dia em que esta teocracia tem um novo rei com 79 anos, filho do fundador como todos os reis sauditas (seis) desde 1953, é esta figura esbelta e este discurso moderado que pretendo recordar:


September 20th, 2012

Ameerah al-Taweel sabe vestir-se e comportar-se com elegância, é inteligente e, sobretudo, é culta. É uma figura em que as jovens mulheres trabalhadoras da Arábia Saudita se revêem. Trabalhou na difusão da cultura islâmica e dedicou-se a projectos humanitários e caritativos da fundação do príncipe Alwaleed bin Talal bin Abdulaziz al Saud, com quem foi casada, e defende os direitos das mulheres no único País do mundo onde estão proibidas de fazer quase tudo, até de conduzir um automóvel.

O mentor da fundação é neto do fundador da Arábia Saudita, como o seu nome revela, mas tornou-se o árabe mais influente do mundo graças a investimentos bem sucedidos.
Em 1979, durante a crise do petróleo (1974-85), começou a negociar contratos de construção civil e transacções de propriedades, depois adquiriu um banco saudita e acabou a resgatar o americano Citibank. Hoje tem investimentos a nível internacional em vários sectores desde hotéis, comunicação social e entretimento, passando pela agricultura e retalho, até à petroquímica, aviação e empresas tecnológicas. É o líder do projecto da Torre Jeddah, o edifício mais alto do mundo que vai ultrapassar 1 km de altura, em construção na sua cidade natal à beira do mar Vermelho.


Píxide de al-Mughira, Espanha, Córdova, 968

Jarro em nome do sultão al-Malik al-Nasir Salah al-Din Yusuf, Síria, Damasco, 1259


Painel com cena de jardim, Irão, Isfahan, séc. XVII
Departamento das Artes do Islão, museu do Louvre


A fortuna acumulada permite-lhe espalhar a cultura islâmica e custear projectos filantrópicos a nível mundial.
Subsidiou a construção de centros de estudos islâmicos em universidades europeias e americanas e da ala islâmica do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. Foi o principal mecenas do novo departamento das Artes do Islão do museu do Louvre, em Paris.
Em 2002 doou 18,5 milhões de libras a famílias da Cisjordânia, depois de uma incursão de forças militares israelitas, e em 2004 contribuiu com 17 milhões de dólares para as vítimas do maremoto no oceano Índico.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

BCE anuncia compra de 60 mil milhões de euros de dívida por mês


O Banco Central Europeu (BCE) decidiu implementar um programa de compra alargada de títulos ao ritmo de 60 mil milhões de euros por mês até, pelo menos, Setembro 2016, com o objectivo de alcançar taxas de inflação próximas de 2% na zona Euro.

Numa conferência de imprensa iniciada às 14:30 CET (13:30 em Lisboa), Mario Draghi anunciou que o BCE vai implementar um programa de compra de títulos que incluirá obrigações emitidas pelos governos centrais dos Estados-membros da zona Euro, por certas agências da zona Euro e por certas instituições supranacionais ou internacionais localizadas na zona Euro.
Vai abranger os programas de compra de dívida privada já existentes, mas não inclui compra de dívida de empresas como chegou a ser admitido.

As compras serão feitas ao ritmo de 60 mil milhões de euros por mês, um valor que inclui também as efectuadas ao abrigo dos programas ABSPP (asset-backed securities purchase programme) e CBPP3 (covered bond purchase programme), dois programas de compra de dívida privada iniciados em Outubro de 2014 — o primeiro para títulos garantidos por activos e o segundo para obrigações garantidas — cujos critérios permanecem inalterados. Os títulos serão avaliados pelo custo de amortização.

Este programa vai decorrer entre Março de 2015 e Setembro de 2016, mas poderá continuar até que a inflação na zona Euro comece a recuperar no sentido de atingir a meta de 2% definida no actual mandato do BCE.

O programa inclui a compra de títulos com maturidades dos 2 aos 30 anos no momento da compra. Serão aceites títulos com notações de risco de investimento, como sucede no caso português, e aplicadas regras especiais aos países sob programas de ajustamento, o que vai permitir a compra de títulos gregos e cipriotas.
Mario Draghi esclareceu que as compras serão feitas de acordo com a chave de capital dos Estados-membros da zona euro no BCE. Portugal detém cerca de 2,5%, ou seja, serão comprados 1,45 mil milhões de euros por mês.

Mas há limites para a aquisição destes títulos adicionais. O BCE
  • não comprará mais de 33% da dívida pública de cada país, nem poderá deter mais de 25% de cada emissão de um país;
  • não comprará dívida no mercado primário, ou seja, no momento em que os países emitem os títulos;
  • criou um sistema de partilha de risco entre os vários países: 20% das compras adicionais (8% pelo BCE e 12% pelos bancos centrais nacionais) terão o risco mutualizado por todos, os restantes 80% ficarão no balanço dos bancos centrais nacionais.

O PIB real na zona Euro subiu 0,2%, em variação homóloga, no terceiro trimestre de 2014. Os dados mais recentes e a evidência observada apontam para um crescimento moderado na viragem do ano. Olhando para o futuro, as recentes quedas nos preços do petróleo têm fortalecido a base para a recuperação económica ganhar impulso. Preços mais baixos do petróleo devem apoiar o rendimento disponível real das famílias e a rentabilidade das empresas. A procura interna também deve ser reforçada com as nossas medidas de política monetária, a melhoria contínua das condições financeiras e os progressos realizados na consolidação fiscal e nas reformas estruturais. Além disso, as exportações devem beneficiar da recuperação global. No entanto, a recuperação da zona Euro vai, provavelmente, continuar a ser atenuada pelo desemprego elevado, a considerável capacidade não utilizada e os ajustes de balanço necessários nos sectores público e privado”, explicou Draghi na sua declaração inicial para, em seguida, abordar o problema da inflação:

Segundo o Eurostat, na zona Euro a inflação homóloga medida pelo IHPC foi -0,2% em Dezembro de 2014, depois de 0,3% em Novembro. Este declínio reflecte principalmente uma queda acentuada dos preços de energia e, em menor medida, a diminuição da taxa de variação homóloga dos preços dos alimentos. Com base nas informações actuais e prevalecendo os preços futuros do petróleo, a inflação homóloga medida pelo IHPC deverá manter-se muito baixa ou negativa nos próximos meses. Taxas de inflação tão baixas são inevitáveis no curto prazo, dada a recente queda muito acentuada nos preços do petróleo e assumindo que nenhuma correcção significativa terá lugar nos próximos meses. Apoiadas nas nossas medidas de política monetária, na recuperação esperada no consumo e no pressuposto de um aumento gradual dos preços do petróleo no período que se avizinha, as taxas de inflação devem aumentar gradualmente nos finais de 2015 e em 2016.

Para o fim, Draghi guardou a análise monetária:

A taxa de variação anual dos empréstimos a sociedades não financeiras (corrigida de vendas e titularização de créditos) manteve-se fraco em -1,3% em Novembro de 2014, em comparação com -1,6% em Outubro, enquanto continua a recuperação gradual de uma calha de -3,2% em Fevereiro de 2014. Em média, nos últimos meses, os resgates líquidos têm registado uma moderação dos níveis historicamente elevados de há um ano e os fluxos de empréstimos líquidos passaram a ser ligeiramente positivos em Novembro. A este respeito, o inquérito aos bancos em Janeiro 2015 indica uma flexibilização adicional dos padrões de crédito no quarto trimestre de 2014, com as disparidades entre países diminuindo em paralelo com um aumento na procura de empréstimos em todas as categorias de empréstimos. Os bancos esperam que essa dinâmica prosseguirá no início de 2015. Apesar destas melhorias, a concessão de empréstimos a sociedades não financeiras permanece fraca e continua a reflectir a relação desfasada com o ciclo de negócios, risco de crédito, factores de oferta de crédito e o ajustamento em curso dos balanços do sector financeiro e não financeiro. A taxa de crescimento homóloga dos empréstimos às famílias (corrigida de vendas e titularização de créditos) foi de 0,7% em Novembro, depois de 0,6% em Outubro. As nossas medidas de política monetária devem apoiar uma melhoria dos fluxos de crédito.

O valor anunciado pelo presidente do BCE fica acima das expectativas de mercado que, na última semana, apontavam para um montante total abaixo de 700 mil milhões de euros, não ultrapassando os 50 mil milhões de euros por mês. Ficam até acima dos números que, segundo a Reuters e a Bloomberg, terão sido apresentados ontem e hoje ao Conselho dos 28 governadores pela Comissão Executiva do BCE (os seis membros permanentes que trabalham em Frankfurt).
Uma fonte de um banco central da zona Euro disse que cinco políticos se opuseram a este programa de compra alargada de títulos: os governadores dos bancos centrais da Alemanha, Áustria, Estónia e Países Baixos, e ainda a alemã Sabine Lautenschlaeger, um dos seis membros da Comissão Executiva do BCE.

Com este programa de compra de títulos, o BCE tem grandes expectativas. Espera aliviar os bancos e outros operadores financeiros da zona Euro da dívida pública que têm em carteira, trocando-a por dinheiro para gastarem em novos financiamentos, seja na compra de outros activos, seja no crédito à economia.
O BCE espera ainda que aumentar o dinheiro em circulação gere aumentos de preços. E que a taxa de câmbio do euro baixe, ajudando os exportadores da zona Euro. Além disso, e talvez ainda mais importante para muitos economistas, o BCE espera garantir uma inflação de 2% no médio prazo.

No entanto, o sucesso desta operação de estímulo à economia está longe de ser seguro. O maior risco é que este tipo de instrumento da política monetária precisa de ser apoiado por políticas nacionais de incentivo ao consumo das famílias enquanto prosseguem as reformas estruturais. Outros críticos do programa defendem que os impactos serão pequenos porque as taxas de juro e de câmbio já estão baixas.

O BCE já tinha reduzido as taxas de juros para níveis históricos, sendo 0,05% a taxa que determina actualmente o custo do crédito da zona Euro. Agora decidiu baixar os custos de financiamento dos bancos, passando os empréstimos de longo prazo iniciados no ano passado a ser feitos à taxa de juro central, sem os 10 pontos base de spread que eram aplicados.


*




Depois de três operações de quantitative easing do Fed, o financiamento da dívida pública americana tornou-se mais caro do que o da Alemanha mas a taxa de desemprego diminuiu.


Mario Draghi decidiu seguir os exemplos da Reserva Federal dos Estados Unidos, do Banco de Inglaterra e do Banco de Japão e vai lançar 60 mil milhões de euros por mês na economia europeia durante o corrente ano e em 2016. Ou seja, mais de 1 bilião de euros terá sido criado do nada (quantitative easing) na zona Euro até Setembro do próximo ano.

Uma tão impressionante enxurrada de dinheiro não podia deixar de ter efeitos imediatos nos mercados financeiros: o euro caiu para 1,14108 dólares e as cotações das acções europeias atingiram recordes de sete anos.

A elevada probabilidade do BCE tomar esta decisão dramática já tinha levado o banco central da Suíça a abandonar o limite mínimo de 1,20 francos por euro na taxa de câmbio. A Dinamarca cortou hoje a principal taxa de juro, pela segunda vez nesta semana, após o anúncio do BCE, com o objectivo de defender a ligação da coroa dinamarquesa ao euro.

O BCE e os bancos centrais dos países da zona Euro vão comprar títulos em proporção com a respectiva "chave de capital" no BCE, o que significa que será recolhida mais dívida nas maiores economias como a Alemanha do que em pequenos Estados-membros, como a Irlanda.

A Grécia e Chipre, que permanecem sob programas de resgate da UE/FMI, serão elegíveis para o programa do BCE, embora sujeitos a condições mais estritas. Na prática, porém, não haverá compra de dívida grega devido à regra que estipula um máximo de 33% para a compra de títulos emitidos por qualquer país. O BCE e outros bancos centrais da zona Euro já possuem mais do que isso, só podendo começar as compras quando os títulos gregos forem amortizando e ficarem abaixo daquele limiar.

No entanto, apenas 20% das compras serão da responsabilidade do BCE: se um governo da zona Euro não conseguir amortizar a sua dívida pública, a maior parte das perdas potenciais cairá sobre o banco central nacional.

Os cidadãos dos países da zona Euro podem votar nos partidos políticos que entenderem. Podem votar até em políticos astutos e corruptos que prometem este mundo e o outro para chegarem ao “pote”, e depois entretêm o povo com algumas benesses enquanto endividam o país e engordam desavergonhadamente as contas dos amigos nos bancos suíços. Mas os eleitores têm de estar conscientes que vão pagar esses pecúlios alheios até ao último cêntimo e com juros.

É verdade que depois de três operações de quantitative easing do Fed, o financiamento da dívida pública americana tornou-se mais caro do que o da Alemanha mas a taxa de desemprego diminuiu face à da zona Euro. Acontece que os Estados Unidos são a maior potência militar mundial e detêm a primazia na inovação tecnológica. Na zona Euro há países, como a Grécia, que vivem da agricultura, da aquicultura e do turismo.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

As tramóias do socratismo na comunicação social


Um artigo de opinião que foca um triângulo perigoso: um primeiro-ministro socialista — José Sócrates — que incentiva o seu advogado — Daniel Proença de Carvalho — a comprar um grupo de comunicação social (dono do DN, do JN e da TSF) de que se torna presidente do conselho de administração e nomeia um amigo — Afonso Camões — para o cargo de presidente do conselho de administração da agência de notícias Lusa e, via Proença, para o cargo de director do JN.

A comunicação social permite controlar a mente do povo: daí o controlo da comunicação social ser um objectivo das ideologias extremistas, tanto de direita como de esquerda, mas nunca de um partido democrático de centro-esquerda como pretende ser o PS. A ler atentamente:


"Proença tem de se explicar
JOÃO MIGUEL TAVARES 20/01/2015 - 01:24

José Sócrates processou 14 jornalistas (repito: 14) do Correio da Manhã, tendo como advogado o mesmo Proença de Carvalho que actualmente manda no DN, no JN e na TSF.

Se eu ainda sei ler português, diria que o director do Jornal de Notícias, Afonso Camões, admitiu ontem em editorial que em Maio de 2014 avisou José Sócrates de que estava a ser investigado pela justiça. As palavras de Camões são estas: “Dizem que o avisei que ia ser detido. E que terá sido em Maio, quando eu integrava a comitiva do presidente da República à China e a Macau. Ora, se o avisei, e se foi em Maio, eu era administrador e presidente da Agência Lusa. Logo, não estava jornalista, muito menos director do nosso Jornal de Notícias. E, pelos vistos, nem sequer havia processo. É verdade: disse-me um jornalista do grupo empresarial da Coisa [o Correio da Manhã] que a prisão de Sócrates estava iminente.”

Se eu ainda sei ler português, o resultado de Afonso Camões afirmar que soube em Maio da investigação, de não desmentir que avisou Sócrates, e de denunciar que foi alvo de escutas, só pode ser este: Afonso Camões está a admitir que alertou José Sócrates e a supor que isso ficou registado na investigação. E esta admissão, quer ele queira, quer não, é muito mais relevante do que as suas queixas (justas, sem dúvida) a propósito de uma nova violação do segredo de justiça. Mais: esta admissão, quer ele queira, quer não, acaba por credibilizar a história que o seu odiado Correio da Manhã publicou na sexta-feira e no sábado, e que o jornal i entretanto já garantiu ter confirmado junto das suas próprias fontes. Uma história tão grave que convinha não ser alegremente ignorada pelo resto da comunicação social, como foi durante tanto tempo ignorada a história de Paris e da Octapharma. Uma história que, mais uma vez, tem Daniel Proença de Carvalho como protagonista.

Porque o problema vai muito além de Afonso Camões, que no citado editorial afirmou ter “mais de 40 anos” de amizade com José Sócrates. Eu diria que tão longa amizade o deveria ter desaconselhado de aceitar, em Março de 2009, o cargo de presidente do Conselho de Administração da Agência Lusa — mas isso se calhar sou eu que sou muito puritano. Só que entre o meu excesso de puritanismo e a absoluta mixórdia de interesses há-de existir um ponto de equilíbrio. E é nesse exacto ponto que Proença de Carvalho começa a perder o pé, e que começa a dever-nos uma boa explicação.

O Correio da Manhã afirma que Sócrates incentivou — havendo escutas que o confirmam — Proença de Carvalho a negociar a compra da Controlinveste, da qual o advogado acabaria por se tornar presidente do conselho de administração. Além disso, via Proença, Sócrates teria tido algum papel na escolha de Afonso Camões para dirigir o JN e na tentativa de pressionar a ERC, via Carlos Magno, para deliberar contra o Correio da Manhã devido às notícias de Paris e da Octapharma, como efectivamente veio a acontecer em Fevereiro de 2014.

Proença declarou ao i que, “por dever deontológico”, não pode falar das “entidades” que patrocina ou patrocinou “enquanto advogado”. Só que o problema já não está nos patrocinados, mas no patrocinador. Na sequência das referidas notícias, José Sócrates processou 14 jornalistas (repito: 14) do Correio da Manhã, tendo como advogado o mesmo Proença de Carvalho que actualmente manda no DN, no JN e na TSF. O mesmo Proença de Carvalho que desta vez não aceitou representar Sócrates, apesar de ter sido para o seu escritório que o motorista ligou ao ser preso. O mundo de Sócrates está a desmoronar-se — e é demasiado tarde para Proença simplesmente virar costas enquanto assobia para o lado."


Entre os comentários do fórum do Público, considero serem motivo de reflexão estes:

Luis Marques
IT Consultant, Manchester 20/01/2015 09:36
Proença de Carvalho é um homem e peras! Consegue ter tempo para ser administrador do JN, DN, TSF e ainda o moço de recados da Câmargo e Correia na Cimpor. Os dias dele devem ter umas 32 horas...

OldVic
20/01/2015 09:38
Quando tudo isto se esclarecer vamos precisar de uma enciclopédia para relatar os meandros destas questões. Talvez se possa usá-la no futuro como exemplo dos perigos de uma sociedade civil distraída e complacente.

Pedro M Areias
Mecânico de Motociclos 20/01/2015 14:52
João Miguel Tavares: Não leve a mal, mas já reparou no sítio em que está? O "polvo" Italiano é uma brincadeira de crianças comparado com Portugal das 'famílias'. Quando der por ela nem no Mac-Donalds arranja emprego. E atenção: sim, aconteceu comigo.

Albino Brás
20/01/2015 15:51
O ódio visceral de JMT tolda-lhe o raciocínio e pretende fazer o mesmo com o dos leitores. Mistura tudo. Se há escutas de Sócrates a convencer alguém, primeiro é preciso que existam, que sejam públicas e que digam exatamente o que o articulista pretende, e alguém que escreve, como JMT, tem sempre que ter cuidado com o que escreve.
Porque é que Proença tem que dar explicações do que fez como advogado ou como empresário? Porque JMT assim o entende? Tenha juízo. Parece que com a raiva que escreve o que está a desmoronar é o seu mundo. Tenha cuidado que, tal como nos desenhos animados, ainda lhe cai algum pedaço do céu na cabeça.
  • gomesdacosta
    20/01/2015 16:10
    Ao ler as suas ameaças veladas lembrei-me irresistivelmente daquela boutade: "quem se mete com o PS, leva". Essa mentalidade do "tenha cuidadinho com o que diz" é uma velha mania herdada directamente do Estado Novo para algum PSD e o PS em geral. Nem o Asterix vos vale...
  • Cassiano Pacheco da Cunha
    20/01/2015 18:33
    Este deve ser o mauzão cá do burgo... Que medo!

Luisa Marques
21/01/2015 06:22
JMT pode saber ler português mas só lê o que lhe convém! Se queria ser imparcial tinha citado também a parte em que Afonso Camões diz 'preto no branco' que quem o informou (sobre a prisão iminente de Sócrates) lhe disse também de onde tinha vindo a notícia...
Excerto do editorial de Afonso Camões sobre o ter (ou não) avisado Sócrates:
"É verdade: disse-me um jornalista do grupo empresarial da Coisa que a prisão de Sócrates estava iminente. Esse mensageiro cometeu um erro: quando se tem uma informação relevante, o primeiro dever de cidadão de um jornalista livre, pesados os seus direitos e responsabilidades, é para com os seus leitores. Ele deveria ter publicado a informação, que lhe veio, disse-me depois, por um seu camarada, diretamente da investigação, liderada pelo juiz Carlos Alexandre e pelo procurador Rosário Teixeira. Erro maior, criminoso, é ser verdade essa possibilidade: que a fuga de informação veio dos agentes da justiça, ou seja, de onde menos podemos admitir que se cometam crimes de violação do segredo de justiça."
Então isso não é grave? Violar o segredo de justiça não é grave JMT?
  • OldVic
    21/01/2015 07:52
    Está a dar como certa uma afirmação de uma parte interessada. Será prudente?


domingo, 18 de janeiro de 2015

Em defesa da liberdade de expressão - II


O massacre no semanário Charlie Hebdo está a estimular a criação de artigos de fino recorte humorístico.
Não consegui resistir à tentação de transcrever esta sátira contundente ao português meias-tintas que vive exclusivamente em função dos seus interesses mesquinhos disfarçados de ideologias progressistas, um covarde incapaz de se reger por um sistema de princípios que defenda com clareza e pelos quais se bata mesmo com prejuízo pessoal:


"PERSONAGENS DE FICÇÃO
Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie
SOU CHARLIE MAS CALMA AÍ

RUI CARDOSO MARTINS, 18 de Janeiro de 2015

Eu sou pela liberdade de expressão, mas ai ai ai. Eu defendo o direito ao humor iconoclasta, só que atenção. Isto que aconteceu é intolerável mas temos de ver o contexto. É uma tragédia mas estava-se mesmo a ver. Há limites. E andamos a ser manipulados, a mim não tomam por parvo. Uma nova espécie de ser humano acaba de nascer — ou de se revelar — faladoramente confusa. E com várias cabecinhas nos ombros.

A Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie nasceu entre 7 e 8 de Janeiro de 2015, pouco depois dos atentados (17 mortos) cometidos por terroristas fundamentalistas islâmicos, de nacionalidade francesa, contra o jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, e o mercado com produtos judeus Cacher. Desconhece-se a identidade dos progenitores, mas suspeita-se de que o pai, ou a mãe, já em 2001 assistira à queda das Torres Gémeas de Nova Iorque num misto de horror genuíno e secreta satisfação, já que a América andava a pedi-las. Foram os EUA que criaram de propósito o terrorismo islâmico (resultado da pobreza e do imperialismo), se não foi mesmo a América que atirou os aviões contra si própria para depois poder atacar à vontade o resto do mundo, há provas disso.

No entanto, o ADN desta nova criatura é tão complexo que a ordem do seu mapa genético deverá levar muitos anos a sequenciar, sem garantia de sucesso. Suspeita-se de que vários genes muito fortes se deslocaram para as extremidades esquerda e direita da fita de ácido desoxirribonucleico. É uma dupla hélice extremista, mas paradoxalmente disfarçada com fluidos de bom senso e de politicamente correcto. Tem um ADN ora cauteloso e cobarde, ora radicalmente paranóico.

Os bebés costumam nascer com um choro simples (“buááá!”), a Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie veio a este duvidoso mundo sibilando “no entanto, por outro lado, eu bem vos disse, e quem são estes agora para se atreverem a falar em liberdade de imprensa, etc.”. É provável que esta pessoa sofra do problema contemporâneo da “amálgama”. Não a de confundir, por exemplo, o islão inteiro com os fanáticos fundamentalistas assassinos, mas a amálgama-papa-azeda dos seus próprios preconceitos e inibições, quando estes colidem com qualquer coisa nova que acontece no mundo. Isto é que não estava previsto, portanto isto não foi nada disto.

A Pessoa Que Não Sabe Bem Se é Charlie ficou baralhada ao ver o impacto provocado pelo assassinato — dentro do local de trabalho — de um grupo de cartoonistas e jornalistas que, há muitos anos, desafiando ameaças, satirizavam em total liberdade autoral os poderes políticos e religiosos, mais a moral sexual burguesa. Espantou-se com o número de franceses que saiu à rua, milhão e meio só em Paris, de todos os credos e cores, na manifestação de 11 de Janeiro. Uma homenagem aos desenhadores mortos em combate pela liberdade, o direito ao humor e ao “mau gosto”, à existência do Estado laico, contra o terrorismo e a ditadura em nome de Deus. Na opinião desta pessoa, uma manifestação tão gigantesca transforma-se automaticamente em carneirada acéfala dirigida por interesses obscuros e hipocrisias. Para não dizer que, afinal de contas, teve pouco significado. Agora são todos Charlie, mas antes nem conheciam o jornal... E ver os flics, a bófia, do lado dos bons, é duro.

Tivemos acesso a algumas páginas do diário em que esta personagem complexa, contraditória, tentou ao longo dos últimos dias catalogar e contextualizar a questão “Je Suis Charlie”:

“Soube pela rádio que a redacção do Charlie Hebdo foi atacada por homens armados e que há vários mortos. Os autores do massacre gritaram Allahu Akbar, dizendo que tinham vingado a afronta dos desenhos satíricos de Maomé. Que horror! Como levaram estes pobres rapazes a pegar em armas, fanatizados pela cruel austeridade e racismo da nossa sociedade? É intolerável e temos de agir para evitar tais injustiças. Sinto-me muito culpado com esta falha. A Ana Gomes já enquadrou a situação no Tweeter.”

“Hoje estive a ler umas coisas sobre Voltaire e a questão da defesa da liberdade. Por outro lado, alguém lembrou que o Voltaire escreveu textos anti-semitas...” “Gostei de ver a mobilização dos cidadãos depois da tragédia. Comovedor. Por outro lado, espero que os humoristas tenham, com este apoio maciço, aprendido que há coisas mais importantes do que insultar as convicções dos outros, isso é que é liberdade. Para quê desenhar o Profeta se isso os enerva? Um pouco de respeitinho, ou sujeitam-se a levar com extremistas. Não em meu nome.”

“A quantidade de hipócritas políticos internacionais e criminosos que foi à manifestação! Se lá na terra deles não deixam as pessoas falar… E enganaram-nos porque nem sequer iam na verdadeira manifestação, mas centenas de metros à frente, não se misturaram com o povo. Por outro lado, se se tivessem misturado, é que eu ficava furioso.” “Houve um massacre enorme na Nigéria mas ninguém se manifestou a pedir uma intervenção internacional. Por outro lado, se houvesse uma intervenção internacional contra o Boko Haram era mais um acto de ingerência do imperialismo ocidental em África, não contem comigo.”

“Avolumam-se as provas de que houve marosca. A cabeça do polícia alegadamente morto no chão nem explodiu como é habitual. E porque é que os mataram só porque não se renderam? O que é certo é que levavam roupa verdadeira das tropas de elite francesa! Será que os islâmicos se infiltraram aí? O mais certo: o atentado foi cometido pelos serviços secretos franceses, em conluio com os extremistas de direita da Frente Nacional, para a Le Pen ganhar as presidenciais. Por outro lado, pode ter sido obra da Mossad israelita para mobilizar a Europa contra os árabes. No entanto, também é provável que tenha sido a CIA, que está feita com a Al-Qaeda do Iémen. Mas o mais razoável é ter sido o Presidente Hollande, que assim se aguenta no Eliseu e pode continuar os namoros escandalosos.” “Soube agora que o director do Charlie Hebdo costumava exclamar Allahu Akbar! quando falava com os colegas. Se era uma brincadeira parva, estava a pedi-las. Ou então o Charb era ele próprio um infiltrado do movimento islâmico, que se martirizou para mostrar ao mundo que ninguém brinca com o Profeta. Pista a investigar.”

“Desilusão. A edição feita pelos sobreviventes volta a meter-se com o Profeta na capa. Lá dentro há mulheres despidas, o Papa, fundamentalistas, sátiras contra a Merkel e o Le Pen nas manifestações do Je suis Charlie, e o diabo a sete. Até gozam com as teorias da conspiração. Não aprenderam nada. Andamos a lutar pela liberdade e é assim que nos pagam?”


Um comentário que acertou na mouche:

greg
19/01/2015 12:38
Se deixarmos de poder desenhar o Profeta porque isso os enerva, amanhã vamos deixar de desenhar uma mulher porque isso os enerva também. Vamos deixar de ensinar as meninas a ler e escrever porque isso também os enerva. Vamos deixar de comer porco, para não se enervarem. Amanhã vou andar de saia e até pode ser que encontre algum maluco que fique enervado e para me castigar, até me viole... mas a culpa será minha porque o enervei...


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Em defesa da liberdade de expressão - I





Muitos artigos de opinião têm sido escritos sobre o massacre no semanário satírico Charlie Hebdo, quase sempre com a argumentação restringida a sentimentos de culpabilidade. Como aconteceu com Boaventura Sousa Santos, professor numa conceituada universidade portuguesa, que se deixou cegar pela sua ideologia de esquerda radical e procurou justificar o totalitarismo islamita aqui.
O artigo que se segue foi o melhor que, até agora, li sobre o assunto — embora pense que o humorista Dieudonné cometeu o crime de apologia do acto terrorista de Coulibaly —, pelo que tomo a liberdade de o transcrever com a devida vénia:


"Charlie Hebdo: calar ou ser morto?

FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA 16/01/2015 - 03:42

A blasfémia é um direito e não um crime.

A dimensão de que goza a liberdade de expressão numa sociedade é uma excelente forma de aferirmos da sua democraticidade pelo que a definição dos seus limites deve ter sempre em conta que a proibição ou a repressão de qualquer opinião, por mais aberrante que seja, é sempre um prejuízo para a sociedade, ao impedir a livre circulação de ideias.

Há, no entanto, expressões que podem ou devem ser reprimidas, como, por exemplo, a instigação pública à prática de crimes, na medida em que constituam um perigo sério e atual para a integridade física e psíquica dos cidadãos, mas nunca por não concordarmos com as mesmas ou porque sejam aberrantes ou sinistras. Como disse o juiz Oliver Wendell Holmes Jr., do Supremo Tribunal norte-americano, a liberdade de expressão não protege o pensamento dos que concordam connosco, mas sim o pensamento que odiamos.

Muito daquilo que se escrevia e desenhava no Charlie Hebdo — e espera-se que assim continue — era de um profundo mau gosto, por vezes, abjecto e sempre de uma enorme inconveniência, num jornalismo satírico e violento que, à partida, não respeitava nada nem ninguém, testando os limites admissíveis da liberdade de expressão numa cruel apologia de uma humanidade despida de tabus e preconceitos, de moralismos e hierarquias. É por isso mesmo perfeitamente absurdo ver, entre outros, os presidentes da Hungria e da Turquia, países onde a liberdade de expressão é uma miragem, desfilarem em Paris sob a bandeira “Je suis Charlie”.

A matança na redação no Charlie Hebdo é uma manifestação de um fanatismo político-religioso, desesperado, ao qual não podemos responder de forma cordata, mas sim com o radicalismo da palavra: reafirmando a essencialidade de podermos pensar e falar livremente. Não podemos aceitar polícias do pensamento e da palavra, sejam eles fundamentalistas religiosos ou fanáticos moralistas. Muçulmanos, judeus ou cristãos.

Responder com um pretenso “bom senso” ao ataque terrorista à liberdade de expressão em França, com afirmações do tipo “há que ter em conta a sensibilidade dos outros e evitar proferir publicamente palavras que chocam as crenças, nomeadamente religiosas”, seria abdicar da nossa responsabilidade e liberdade enquanto seres humanos e cidadãos de sociedades democráticas. Seria a vitória do terrorismo. No fundo, ceder à chantagem.

A Al-Qaeda da Penísula Arábica já reivindicou a autoria do atentado, nomeadamente a escolha do alvo e o financiamento da operação. Segundo um dirigente desta organização, “a operação foi uma grande satisfação para todos os muçulmanos” e constituiu “uma mensagem forte a todos aqueles que se atrevem a meter-se com o que é sagrado para os muçulmanos”, aproveitando para exortar os ocidentais a “pararem com os seus ataques em nome de uma falsa liberdade”.

Este criminoso fanatismo político-religioso, de uma vanguarda iluminada e autoproclamada representante de toda uma comunidade, que responde às caricaturas do Charlie Hebdo com a execução pública dos cartoonistas não pode prevalecer. Temos de continuar a poder dizer — quem o quiser fazer — e a poder ouvir — quem o quiser, também — todas as inconveniências, políticas, religiosas e culturais, sob pena de um dia não podermos dizer nenhuma, nem mesmo aquelas que já não acharmos inconveniências.

Embora a liberdade de expressão, como garantia do livre pensamento, deva incluir o direito à blasfémia, isto é, às injúrias e desrespeito às divindades e às religiões, não é essa a realidade legal em todos os Estados democráticos. Mas seja um direito ou seja um crime, a blasfémia não é seguramente justificação ou atenuante sequer para a morte dos seus autores.

O terrorismo sempre foi uma realidade extremamente minoritária e nunca conseguiu atingir grandes objectivos ou provocar grandes modificações sociais, antes se consumindo em atos que, embora de grande visibilidade e impacto emocional, são isolados e estéreis. Não podemos, pois, aceitar que o medo nos domine, nem que a Europa mergulhe em qualquer sinistra deriva securitária como aquela a que assistimos nos EUA após o 11 de Setembro, com um crescimento exponencial do Estado com graves prejuízos para os direitos individuais.

Haverá, certamente, explicações para aquilo que sucedeu em Paris, para além do indesmentível fanatismo dos seus autores. Como também as haverá para as crianças armadilhadas “explodidas” em mercados da Nigéria. Ou muitos outros atos terroristas. Certo é que não podemos nunca aceitar abdicar da nossa liberdade pela chantagem terrorista daqueles que desprezam a nossa humanidade.

P.S.— Espera-se que o humorista Dieudonné, que escreveu na sua página de Facebook após ter participado na manifestação do dia 11 de Janeiro que se sentia “Charlie Coulibaly”, seja absolvido do crime de apologia de terrorismo por que foi detido a bem da liberdade de expressão."


domingo, 11 de janeiro de 2015

Manifestação histórica em França contra o terrorismo islamita


Depois do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo na quarta-feira, do tiroteio contra os polícias em Montrouge, na quinta-feira, e do sequestro num supermercado kosher em Vincennes pelo atirador de Montrouge, na sexta, que provocaram um total de 17 vítimas, a manifestação contra o terrorismo islamita levou, este domingo, cerca de 4 milhões de pessoas para a rua por toda a França.

A marcha em Paris reuniu mais de 1 milhão de pessoas, tornando-se o acontecimento mais importante desde a Libertação em 1944.
Quase cinquenta chefes de Estado e de governo estiveram hoje presentes em Paris para homenagear as vítimas dos atentados no Charlie Hebdo, em Vincennes e Montrouge. Na fila da frente desfilaram Angela Merkel e David Cameron, mas também Mahmoud Abbas e Benjamin Netanyahu.



A estátua alegórica da Praça da República, em Paris, foi o local privilegiado pelos manifestantes desde quarta-feira à noite.
AFP/Loic Venance


Os manifestantes prestaram homenagem às 17 vítimas dos atentados com o lema "Eu sou Charlie".
AFP/Joel Saget


No percurso da Praça da República à Praça da Nação, em Paris, os franceses agitaram as bandeiras tricolores e cantaram a "Marselhesa".
AFP/Jean-François Monier


A manifestação teve início às 15:30, mas uma hora antes já a Praça da República estava cheia.
AFP/Bertrand Guay


O mar de gente da Praça da República visto do céu.
AFP/Kenzo Tribouillard


A manifestação em Paris durou até às 21h.
AFP/Bertrand Guay


François Hollande recebeu cerca de 50 dirigentes mundiais no Palácio do Eliseu que depois incorporaram a marcha de Paris.
AFP/Dominique Faget


Na primeira fila: o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, o presidente francês François Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.
AFP/Philippe Wojazer


Imagens aéreas da manifestação republicana
Le Monde.fr | 11.01.2015


Le Monde.fr | 11.01.2015 à 16h47


Outras cidades francesas também se associaram a esta manifestação histórica:



25 mil pessoas desfilaram em Reims.
AFP/François Nascimbeni


60 mil manifestaram-se em Marselha.
AFP/Anne-Christine - Poujoulat


Uma maré humana de 300 mil pessoas desfilou em Lyon.
AFP/Jean-Philippe Ksiazek


100 mil manifestaram-se em Bordéus.
AFP/Nicolas Tucat


Mais de 100 mil manifestantes em Rennes.
AFP/Jean-François Monier


A multidão que se manifestou junto ao mar Mediterrâneo, em Nice.
AFP/Valery Hache


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Nos últimos tempos houve uma escalada de ataques islamitas em França. Depois do caso ocorrido em Joué-lès-Tours, em que um jovem entrou no comissariado com uma faca na mão a gritar "Allahu Akbar" (Deus é grande), ferindo três polícias antes de ser baleado, o primeiro-ministro Manuel Valls alertou para a singularidade da época actual em França: "Nunca experimentámos um perigo tão grande em matéria de terrorismo."
Valls pediu aos franceses para reagirem ao fenómeno do envolvimento dos jovens com a jihad: "Temos mais de mil pessoas envolvidas na jihad na Síria ou no Iraque, mais de 300 estão lá, 56 ou 57 morreram, isto mostra o grau de envolvimento (...). Muitos foram para lá, muitos querem ir, muitos têm regressado felizmente. Isto deve desafiar a sociedade francesa."

Na Alemanha, os líderes do movimento Pegida pretendem denunciar a islamização da sociedade, a ausência de direitos humanos para as mulheres muçulmanas e a existência de sistemas alternativos de justiça impiedosos como a sharia, mas os políticos alemães têm procurado associar os activistas anti-islão aos neonazis.
Na sua mensagem de Ano Novo, a chanceler Angela Merkel disse que os apointes do Pegida têm “ódio nos seus corações”, mobilizando os alemães contra as manifestações do movimento e fazendo gorar a manifestação de Berlim.

A sede do semanário satírico francês Charlie Hebdo foi atacada em 7 de Janeiro de 2015, no mesmo dia em que Soumission, escrito por Michel Houellebecq, chegou às livrarias. Justamente o escritor que foi satirizado no número do Charlie Hebdo saído nessa quarta-feira trágica, no cartoon publicado na primeira página.


A última edição do Charlie Hebdo, publicada em 7 de Janeiro de 2015.
AFP/Bertrand Guay

Mas por que motivo os cartoonistas assassinados assestaram os seus lápis contra o escritor, transformando-o no mago Houellebecq?
Porque, no livro, o islamismo triunfa e dá um Presidente muçulmano à França. Trata-se de um islamismo suave, chegado ao poder pela via democrática, sem confrontos.
Um islamismo que deriva de uma hipotética incompetência dos dois grandes partidos republicanos da direita e da esquerda que teriam conduzido o País para um pântano onde chafurda uma classe branca, afortunada, educada, dominante, que se submete aos medos que criou no povo e ao inimigo que deixou instalar dentro das fronteiras.
Um islamismo politicamente correcto que cria o partido da Fraternidade Muçulmana oportunisticamente aliado ao Partido Socialista para vencer a extrema-direita. Seria muito natural, descreve Houellebecq, que os muçulmanos em França tivessem um partido que os representasse com os valores tirados do Islão, o que obrigaria à refundação do sistema educativo francês sobre uma base islâmica e reconduziria as mulheres ao seu papel doméstico e procriador.

Mas os cartoonistas do Charlie Hebdo não morreram em vão. Quase 4 milhões de franceses perderam o medo e, insubmissos, manifestaram-se em defesa dos valores da República.
Dezenas de dirigentes políticos mundiais aliaram-se ao povo, deliberadamente ou para atenuar a revolta libertada e participaram na marcha de Paris contra o terrorismo islamita. Na primeira fila François Hollande e Angela Merkel. Ladeados por Mariano Rajoy (Espanha), David Cameron (Reino Unido), Jean-Claude Juncker (Comissão europeia) e Matteo Renzi (Itália). A Europa Unida com Paris a ser hoje a capital. Ninguém se importou com a ausência de Barack Obama.

Esta manifestação veio reforçar os valores da República Francesa — Liberdade, Igualdade, Fraternidade é o seu lema — e da sociedade europeia, aberta e laica que erradicou a pena de morte e onde tudo é tolerado excepto a prática ou a apologia da violência. Quem escolher a França para viver, não importa qual o país de origem, a cultura ou a religião professada, terá de aprender a respeitá-los. Parafraseando o provérbio “Em Roma, sê romano”, poder-se-á concluir que “Na Arábia Saudita, sê árabe” mas “Na Europa, sê europeu”.