domingo, 21 de dezembro de 2014

Estados Unidos e Cuba anunciam normalização de relações


Barack Obama e Raúl Castro anunciaram, em simultâneo, na passada quarta-feira, o início da normalização de relações entre os Estados Unidos da América e Cuba, cortadas há 53 anos:

17 Dez, 2014, 20:46


O presidente dos Estados Unidos reconheceu que o corte de relações não teve o efeito de defender os interesses americanos em Cuba.
O presidente de Cuba pediu que, depois de reatadas as relações diplomáticas, fosse posto fim ao bloqueio económico e agradeceu a intervenção decisiva do Vaticano dirigida pelo papa Francisco.

Antes dos discursos de reaproximação de Obama e Castro, Havana tinha libertado um espião norte-americano, Alan Gross, que estava em Cuba alegadamente ao serviço de uma agência de desenvolvimento, enquanto os Estados Unidos davam a liberdade aos três espiões cubanos restantes, de um grupo de cinco, que haviam sido condenados em 2001, depois da denúncia de um alto funcionário cubano.

O reatar de relações não significa o levantamento do embargo norte-americano a Cuba. O embargo só pode ser levantado por ordem do Congresso, que actualmente é dominado pela oposição republicana, tanto na Câmara dos Representantes como no Senado. O presidente pode anunciar o restabelecimento de relações diplomáticas e libertar espiões mas não pode sequer nomear o embaixador em Cuba, sem obter o acordo do Congresso.
Para já, vai haver um levantamento parcial do embargo das viagens dos norte-americanos a Cuba, que são proibidas neste momento. Haverá também o restabelecimento de relações bancárias, com a possibilidade de bancos norte-americanos instalarem caixas ATM em Cuba.


O embargo americano enraíza em acontecimentos ocorridos há mais de meio século:

17 Dez, 2014, 20:46

Em Janeiro de 1959, Fidel Castro conquistou o poder em Cuba depois de encabeçar uma guerra de guerrilha, durante dois anos, contra o governo repressivo e corrupto do ditador Fulgencio Batista que, a partir de 1952, estabeleceu relações com a máfia americana a quem entregou os negócios da droga, do jogo e da prostituição.

Depois de se tornar primeiro-ministro, Fidel de Castro visitou os Estados Unidos, procurando manter relações cordiais com a potência vizinha enquanto desenvolvia projectos sociais nos sectores da educação, saúde e infra-estruturas para melhorar o nível de vida da população cubana.

O governo era apoiado pelos camponeses, operários e estudantes, que constituíam a maioria da população do país, enquanto a classe média se deslocava para a oposição, com milhares de médicos, engenheiros e outros profissionais altamente qualificados a emigrarem para a Florida, nos EUA. Em consequência desta fuga de cérebros, a produtividade diminuiu e as reservas financeiras do país ficaram esgotadas em dois anos. A imprensa conservadora tornou-se hostil ao governo de Castro que decidiu prender centenas de opositores apelidados de contra-revolucionários.
Grupos anti-castristas financiados por exilados, pela Agência Central de Inteligência (CIA), dos EUA, e pelo governo da República Dominicana estabeleceram bases de guerrilha nas montanhas de Cuba, donde conduziam ataques contra o governo de Fidel de Castro. As forças castristas envolveram-nos em cercos cada vez mais apertados e fuzilaram sistematicamente os guerrilheiros capturados até à extinção dos grupos.

Em 1960, as duas superpotências — os Estados Unidos, uma democracia capitalista, e a União Soviética, um estado socialista marxista-leninista governado pelo Partido Comunista único — travavam a Guerra Fria. Fidel de Castro afasta-se dos EUA e defende claramente a visão ideológica da URSS, estabelecendo relações com os países marxistas-leninistas da Europa de Leste.

O presidente americano Eisenhower apoiou um plano da CIA para derrubar Castro que culminou, em Abril de 1961, já na época do seu sucessor John F. Kennedy, na invasão da Baia dos Porcos por exilados cubanos. Foram capturados pelas forças de Fidel de Castro 1.189 dos cerca de 1400 rebeldes que participaram na invasão, sendo 14 levados a julgamento, enquanto os outros foram devolvidos aos EUA em troca de 25 milhões de dólares de alimentos e remédios. Foi instituído o embargo económico e financeiro a Cuba.


18 Dez, 2014, 14:12

O anúncio do reatar de relações diplomáticas entre os dois países, nesta quarta-feira, foi comemorado por muitos cubanos que vivem na ilha, que tem uma população de 11 milhões, como o início de uma nova era para Cuba.


18 Dez, 2014, 14:18

Como era expectável, a notícia foi recebida com apreensão em Miami, nos Estados Unidos, onde vive a maior comunidade dos cerca de 2 milhões de exilados cubanos. Embora alguns pensem que vai provocar, primeiro, a abertura do regime comunista, e depois a sua desintegração, grande parte dos exilados considera-se traída pela administração Obama.
A cidade de Miami foi palco de uma manifestação de exilados cubanos que protestaram contra o governo de Raúl Castro e apelaram ao Congresso para impedir o levantamento do embargo a Cuba.

Já para os norte-americanos o fim do embargo representaria a possibilidade de criar negócios em Cuba, principalmente no sector do turismo, e poderia ter um impacto anual de 6 mil milhões de euros em exportações.
Em Washington, há quem considere que o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países poderá mesmo levar ao desaparecimento de Guantánamo, a base norte-americana localizada em território cubano, para onde os militares americanos levaram os prisioneiros afegãos que nenhum estado americano quis receber.

*

Começou o princípio do fim do embargo norte-americano a Cuba. Começou o enfraquecimento do regime castrista.
Raúl Castro sabe-o, mas reconhece que o socialismo já fez tudo o que era possível para melhorar o nível de vida da população cubana. Para ir mais além precisa de atrair empresas estrangeiras e reconciliar-se com a classe média cubana exilada nos Estados Unidos. Vai procura singrar a via chinesa: um país capitalista — tão ferozmente capitalista que só os empresários gozam do direito de propriedade privada através das suas empresas — governado por um partido comunista.

Mas não é certo que uma solução que funcionou na Ásia, vai funcionar na América latina. Um papa polaco acelerou a implosão dos regimes socialistas marxistas-leninistas da Europa de Leste, um papa latino-americano poderá desencadear a implosão do regime cubano. Não deixa de ser irónico.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Governo decreta requisição civil na TAP


O Governo quer que todos os voos programados entre 27 e 30 de Dezembro se realizem e, para isso, vai obrigar os trabalhadores da TAP a apresentarem-se ao serviço nos quatro dias da greve marcados para esse período:

18 Dez, 2014, 20:16


A requisição civil vai abranger 70 por cento dos funcionários da empresa que o Governo entende serem os necessários para garantir os 1141 voos previstos para o período da paralisação. O ministro da Economia Pires de Lima tornou claro que se trata de uma medida excepcional para proteger o direito das famílias se reunirem no Natal e fim de ano.

É a terceira requisição civil na TAP. O ministro da Economia estranhou as críticas do PS e lembrou que as duas anteriores requisições civis da TAP foram feitas por governos socialistas, um de Mário Soares e outro de António Guterres, e sublinhou que o último desses governos integrava António Costa.

*

Em Agosto de 1997, o governo socialista de António Guterres que tinha António Costa na secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares, elevada em Novembro desse ano à categoria de ministério, decretou a requisição civil na TAP. A decorrência jurídica que essa decisão teve foi considerada válida pelo Supremo Tribunal Administrativo.

Opor-se indiscriminadamente a todas as medidas do Governo, procurando cavalgar o natural descontentamento popular com as medidas de austeridade, foi a estratégia de António José Seguro e nunca lhe permitiu alcançar uma maioria absoluta nas sondagens.
O actual secretário-geral dos socialistas prossegue na mesma senda: apenas procura ganhar votos para poder instalar-se no poder, apoiado pelo bando dos socratistas. No entanto, a sua atitude na questão da TAP é grave porque, além de ausência de ideias para desencadear o desenvolvimento económico que o País carece, vem demonstrar uma enorme hipocrisia.
Portanto não deve ser surpresa que António Costa esteja a cair nas sondagens e já comece a falar das virtudes do governo do Bloco Central, liderado por Mário Soares e tendo como vice-primeiro-ministro o social-democrata Mota Pinto, professor da Universidade de Coimbra.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Príncipe - II


Depois do longo depoimento inicial, de hora e meia, de Ricardo Salgado na Comissão de Inquérito parlamentar à gestão do BES-GES, iniciou-se a primeira ronda de perguntas.

10:34
Carlos Abreu Amorim, coordenador dos deputados do PSD, acusa Salgado de "desonestidade intelectual" por comparar o BES com o país e o BdP com a troika e questiona se houve em algum momento manipulação de contas” no BES e no GES.
Ricardo Salgado responde que nunca comparou o BES ao país, apenas comparou "o método". “O GES está há 40 anos no Luxemburgo. Nunca tivemos qualquer problema com as nossas sociedades luxemburguesas”. “Devo dizer que a minha vida era dedicada” 100% à área financeira e não tinha responsabilidade directa sobre as contas da Espírito Santo International.

Carlos Abreu Amorim repisa: "Não sabia... Mas essa manipulação existiu."
Ricardo Salgado: "Todos os membros do Conselho Superior assinaram as contas. Não dei instruções para ocultação de passivos ao dr. Machado da Cruz [o contabilista da ESI]."

10:51
Carlos Abreu Amorim: "Para onde foi o dinheiro [relativo às imparidades do BES]?"
Ricardo Salgado: "Está-se a referir às imparidades do BES? Essas imparidades foram aceleradas por uma ordem do BdP. Portanto, o prejuízo que o BES realizou foi por ordem dessa provisão imposta. Ficou registado em acta que foi imposta. Estamos todos à espera da auditoria forense. Mas a provisão não se traduz em saída de dinheiro".
 E sublinha: "Ninguém se apropriou de um tostão, nem na administração, nem na família".




09/12/2014 - 11:21

10:57
Carlos Abreu Amorim mostra um gráfico, baseado no relatório da KPMG, para demonstrar a exposição do banco ao GES, em Dezembro de 2013, a diminuição referida por Ricardo Salgado, em Março de 2014, "mas depois há uma subida impressionante em Junho, o que comprova a violação das orientações do BdP".
Ricardo Salgado contorna a questão: “Eu julgo que consegui explicar, na medida do possível, a inexequibilidade do ring-fencing [barreira de protecção do BES em relação ao GES] num prazo de sete meses.” "O Grupo entrou em colapso por não haver tempo e não ser possível realizar a operação de médio prazo. Não houve fugas de dinheiro do banco."

11:04
Carlos Abreu Amorim: "Nas últimas semanas em que esteve à frente do banco há notícias de transferências para off-shores nas ilhas britânicas. De quem são esses off-shores?"


Ricardo Salgado: "Não tenho conhecimento de capitais que tenham saído do banco para terceiros."

Carlos Abreu Amorim: "Foi responsável por alguma operação bancária de capital superior a 1 milhão de euros desde Abril?"
Ricardo Salgado: "Era responsável do Comité de Crédito mas só tinha intervenção em operações de grande dimensão. Por isso, operações de um milhão de euros não caem dentro da alçada do Presidente da Comissão Executiva." 


11:16
Carlos Abreu Amorim questiona sobre o BES Angola (BESA).
Ricardo Salgado: "Se não tivesse havido um enorme problema em Angola, por que razão haveria uma garantia assinada pelo Presidente? A partir de certa altura começámos a ter informações em Lisboa... estranhas. Deve ter sido em meados da década. Os clientes queixavam-se que Álvaro Sobrinho não tinha tempo para receber os clientes. Houve um crescimento do crédito. Chegámos a uma altura, infelizmente, em que o BNA [Banco Nacional de Angola] diz que os bancos angolanos têm de ter total independência informática do exterior. Tivemos de dar autonomia informática a Angola em 2009. Acontece que começámos a ficar preocupados à medida que o tempo ia avançando. Começam a sair notícias... Está ali a dra. Cristina Ferreira, do PÚBLICO, que se deve lembrar disso."

Carlos Abreu Amorim: "Está a dizer-nos que sabia de tudo pelos jornais?"


Ricardo Salgado: "Recorro à sua sapiência jurídica. É crime em Angola violar o segredo bancário. Os nossos sócios angolanos sugeriram a substituição do doutor Álvaro Sobrinho. Pois bem, a partir da altura em que Álvaro Sobrinho sai, os órgãos de imprensa da propriedade dele, que adquiriu o Sol e o i, começa o bombardeamento na imprensa do doutor Álvaro Sobrinho a meu respeito, e não só."


11:31
Ricardo Salgado: Às equipas do BES que depois chegaram a Angola “foram-lhe levantadas as maiores resistências e ameaças”. E foi isso que nos levou a pedir apoio” ao presidente de Angola, justificando que a garantia foi dada porque as autoridades angolanas consideraram o BESA “um banco essencial para o desenvolvimento de Angola”.



09/12/2014 - 11:29

Carlos Abreu Amorim: “Mas o Banco de Portugal sabia da situação?
Ricardo Salgado: “Procurávamos informar o banco de Portugal sempre na medida do possível”. O supervisor português “levantou sempre as maiores dúvidas sobre a garantia” ao ponto de não a aceitar para efeitos de rácios de capital. “[Foi] extremamente lamentável que isso tenha acontecido”.

 “A forma da resolução, com a divisão do BES em banco bom e banco mau, deixando as acções do banco angolano no banco mau, significou considerar a garantia dada pelo governo de Angola como um produto tóxico. Tenha em consideração que há três bancos em Portugal com participações de grupos angolanos, BPI, BCP, e BIC. E colocar a garantia do sr. presidente da República de Angola no banco mau, como sendo um activo tóxico, é no mínimo uma enorme ofensa diplomática”.



09/12/2014 - 11:44

11:34
Carlos Abreu Amorim: "Falo do benefício que lhe foi atribuido pelo construtor José Guilherme que primeiro teria sido 8 milhões de euros e mais tarde veio a saber-se que era 14 milhões de euros. Teve algum proveito, nomeadamente neste último exemplo?"
Ricardo Salgado: "É um assunto do foro pessoal que está enquadrado em segredo de justiça."




09/12/2014 - 11:34

Carlos Abreu Amorim, resumindo as respostas de Salgado: “Embora fosse o principal responsável, era sempre o último a saber.”
Ricardo Salgado: “Eu não era o responsável do Grupo Espírito Santo como um todo. A minha responsabilidade era apenas na área financeira como presidente do conselho de administração da Espírito Santo Finantial Group e presidente executivo do BES. Vivia dentro do BES. Era dos primeiros a chegar e sempre dos últimos a sair. Passei 70% dos fins-de-semana a trabalhar em casa. Considero-me um verdadeiro trabalhador. Não posso aceitar, tendo dedicado a minha vida ao banco, e exclusivamente ao banco, de ser responsável pelo que se passou fora da área financeira.”


11:36
Começam as perguntas do coordenador dos deputados socialistas.
Pedro Nuno Santos: "Como é que pede a Machado da Cruz para continuar, depois do que fez?"
Ricardo Salgado admite alguns erros, mas garante: “Fui sempre um profissional consciente. Não houve desvios de capital para fora do banco, nem para administradores, nem para directores do banco. Os cenários apresentados nas televisões sobre saídas de dinheiros são totalmente falsos”.

11:46
Pedro Nuno Santos: “O BESA acabou por se transformar numa transferência de 3 mil milhões de euros dos contribuintes portugueses para outros, empresários angolanos, ou portugueses, não sabemos... Há uma responsabilidade de quem decidiu conceder o crédito ao BESA, que é do BES. É sua."
Ricardo Salgado: “O problema do crédito do BESA “emerge agora” porque a garantia do Presidente de Angola caiu. “Não acredito por outra questão que não a separação do Banco Espírito Santo num banco bom e no banco mau”. Aos deputados, deixa a interpretação deste facto.



Pedro Nuno Santos: “A garantia caiu por causa da resolução. Mas esse não é o problema. O problema é anterior. Rui Guerra está desde 2013 à frente do BESA. Dou-lhe só 5 empresas que receberam 1600 milhões de euros. Empresas desconhecidas e que boa parte desse dinheiro não se destinou a actividade produtiva. Era altura de começarmos a falar um pouco mais sobre este assunto."


Ricardo Salgado: “Não podemos discutir esses assuntos, por causa do sigilo bancário angolano. O doutor Rui Guerra diz que a responsabilidade desses créditos cabe a Álvaro Sobrinho. Também se sabe que a partir de certa altura, Sobrinho nomeou a cunhada para responsável da atribuição de crédito."

12:02
Ricardo Salgado: “Enquanto o GES estava em plena reorganização, pedimos tempo ao Banco de Portugal. Ora, tempo foi aquilo que não nos foi dado. Simplesmente não tivemos tempo e ainda há aí muitas empresas que ainda estão à venda”. A única que diz ter conseguido “fugir à pressão dos supervisores foi a Espírito Santo Saúde”, empresa que depois do colapso do GES foi alvo de várias OPA, acabando por ficar nas mãos dos chineses da Fosun. “A sentença de morte veio quando não foi possível fazer o aumento de capital da Rioforte. A sentença de morte é uma sentença que evolui ao longo do tempo. Nós estávamos a defender a credibilidade do grupo e dos clientes do BES, mas com sete meses para resolver um problema desta magnitude era impossível.
”

12:16
Pedro Nuno Santos: "Uma estratégia que pusesse em risco as suas empresas, nunca poderia ser liderada por si, que queria proteger o ramo não-financeiro. À medida que foi implementando as medidas do BdP, foi encontrado, segundo o Banco de Portugal, um esquema fraudulento para continuar a financiar o GES. Doutor Ricardo Salgado, como é que conseguiu convencer o senhor governador do BdP a mantê-lo?"
Ricardo Salgado: "Ouvi surpreendido as declarações do Governador do BdP segundo o qual teve um braço de ferro comigo. Nunca me foi sugerido que estava em avaliação a minha idoneidade. Bastaria um sinal [do Banco de Portugal] para eu abandonar a liderança do banco."


12:36
Começam as perguntas do CDS.
Cecília Meireles: "Esta é a parte que não consigo de todo entender: como é que a holding de topo não era auditada, não tinha revisor oficial de contas, e porque é que ninguém se questionou sobre a ESI..."
Ricardo Salgado: "A ESI, não era uma holding financeira e, portanto, não era supervisionada. Estivemos 40 anos no Luxemburgo e nunca tivemos um processo e agora parece que o céu nos desabou em cima da cabeça."

12:40
Cecília Meireles: "Quando é que o senhor governador lhe disse que se deveria afastar da liderança do BES?"


Ricardo Salgado: "O senhor governador nunca me disse que eu deveria sair da administração do BES. O que me disse, foi que a família, toda, deveria sair da administração do BES. Nunca, por nunca, eu tive uma reacção negativa. E se o senhor governador alguma vez me tivesse dito que eu deveria sair, eu sairia na hora, mas é que era na hora!"
"O senhor governador perguntou-me quem me deveria suceder. Foi algures antes do aumento de capital. Eu disse: o doutor Morais Pires e em segundo o doutor Joaquim Goes. O senhor governador disse-me que havia uma certa preferência pelo doutor Joaquim Goes, que gozava de muito apreço na área da supervisão. Por isso fiquei muito surpreendido quando ele foi suspenso. Como íamos para o aumento de capital, considerava essencial pôr o dr. Amílcar Morais Pires [para presidente executivo] e a dra. Isabel Almeida como CFO [responsável financeira]”.
Salgado lê um email enviado ao governador do BdP no dia 20 de Junho às 12h27, pedindo “mais uma vez e com urgência que fosse dada autorização ao nome de Morais Pires”, e frisando que João Moreira Rato, então presidente do IGCP [entidade responsável pela gestão da dívida do Estado] apontava dificuldades de mercado. Na resposta, às 13h35, Carlos Costa refere que “o Banco de Portugal não estava em condições de validar o nome proposto por um accionista sem avaliar os requisitos de idoneidade”.
"Quando em fins de Junho perguntei ao senhor governador se podia indicar o Amílcar, respondeu que precisava de dois dias para pensar. Depois telefonou-me a dizer que “será quem o senhor presidente entender"".

13:08
Segue-se Miguel Tiago, do PCP: "As provisões eram referentes a que imparidades, de que créditos, de que clientes?"
Ricardo Salgado: "Pois... Em relação à promiscuidade política, vi alguns comentários de políticos altamente colocados de que o grupo teria tido uma ligação especial ao governo anterior e ao PS. Todos os bancos em Portugal, de alguma dimensão, contribuíram com colaboradores seus para o Governo. Não tivemos uma bolha à espanhola, ou à irlandesa, mas tivemos imparidades no sector imobiliário. Não posso dar-lhe de memória clientes que tivessem créditos provisionados."



Miguel Tiago: "Entre os clientes do banco estavam também as empresas do GES. Não respondeu, portanto...Temos as listas dos grandes clientes dos bancos, mas os nomes foram apagados e a alguns deles foram cortados 100% do crédito."
Ricardo Salgado: "Tem toda a razão de levantar a questão, mas não lhe posso responder, mesmo que soubesse."

13:19
Miguel Tiago: "Como é que diz que o departamento de risco era eficaz e eficiente, quando se perderam 5 mil milhões de euros?"


Ricardo Salgado: "Senhor deputado, tenha paciência... O departamento de riscos angolano foi pervertido. Per-ver-ti-do. Aquilo não funcionou."

Miguel Tiago: "Em Portugal também surgem imparidades de 100%..."

13:31
Ricardo Salgado: "Se houve um braço-de-ferro com o governador do Banco de Portugal eu não senti..."
Miguel Tiago: "Tal era a força do governador.."

Ricardo Salgado: "Oh senhor deputado Miguel Tiago, eu não tenho por sistema mentir. Nunca menti nestas coisas. É fundamental que a governação do Banco de Portugal seja clara. Se o Banco de Portugal tivesse querido que eu saísse era muito fácil... [lê duas cartas enviadas a Carlos Costa em que se dispõe a sair e uma outra, ao chefe da supervisão, em que propõe um calendário para a sua saída] Portanto, fará o favor de entender que eu nunca pus qualquer obstáculo à mudança de governance do BES."


13:43
Ricardo Salgado: "Eu saio no dia 13 [de Julho]. No dia 12 enviei uma carta ao BdP a dar conta de financiadores interessados. O BdP não esteve na disposição de receber os investidores interessados. Remeteu o assunto para a nova comissão executiva. Eles não resolveram o assunto. Adiaram para o fim do mês. E no dia 30, o BdP dá 48 horas para o aumento de capital. Julgo que essa carta do BdP é uma forma de se desresponsabilizar. 48 horas para fazer o aumento de capital? Só se fosse um milagre. O que parece é que tudo estava orientado para o mesmo..."

13:45
A primeira ronda termina com Mariana Mortágua, do BE. "Quem detinha o resto do capital da ESI?"
Ricardo Salgado: "De cabeça, não sei..."

14:07
Ricardo Salgado: “No final do mês de Novembro, sabíamos que era essencial reforçar os capitais e ainda pensámos começar pela ES Control e a ESI [holdings de topo do grupo]. Mas quando nos apercebemos da situação real, entendemos que era completamente impossível estar a chamar capital para essas holdings. Daí passar-se a reforçar capitais na Rioforte”.

14:23
Ricardo Salgado confirma que o Governo foi informado, em Maio, sobre o risco sistémico do grupo, a ministra das Finanças, Carlos Moedas e também Durão Barroso, à data presidente da Comissão Europeia. 

“Isto não tinha nenhuma finalidade de obter vantagens estranhas ou promíscuas com o Governo. O que foi feito foi comunicar ao Governo, pela última vez (...), a eventualidade de um risco sistémico e a necessidade de obter um apoio intercalar para financiar a área não financeira”.


Mariana Mortágua: “Qual foi a resposta de Carlos Moedas e de Durão Barroso?”
Ricardo Salgado: “Eles ouviram, compreenderam”.
Mariana Mortágua: “Em que datas ocorreram essas reuniões?”
Ricardo Salgado, consultando uma folha A4: “A reunião com Passos foi a 20 de Maio. A reunião com a ministra das Finanças julgo ter acontecido a 14 de Maio, pensava terem ocorrido no mesmo dia; e a reunião com Carlos Moedas foi a 2 de Maio; da reunião com Durão Barroso, não tomei nota, o encontro não teve lugar em Bruxelas, mas sim em Lisboa.”

14:24
Ricardo Salgado, sobre o BESA: “O que pude constatar pessoalmente é que os dois accionistas angolanos do BESA, os generais Leopoldino de Nascimento e Helder Vieira Dias [estavam] muito indispostos com o dr. Álvaro Sobrinho. Houve mesmo uma reunião no BNA complicadíssima e os investidores angolanos disseram que queriam uma mudança de governação no BESA e a saída do dr. Álvaro Sobrinho.”
“Mostrei a garantia [do Governo angolano] ao Presidente da República e disse-lhe que estava convencido que ela se devia também ao bom relacionamento de Cavaco Silva com a Presidência de Angola.”



09/12/2014 - 14:45

14:34
Mariana Mortágua questiona o papel da ESCOM (Espírito Santo Commerce).
Ricardo Salgado: “Não posso avançar muito mais, porque a Escom está integrada num processo em que estou arguido.”
Mariana Mortágua: “Imagino que não me possa confirmar se recebeu ou não dinheiro do consórcio alemão que vendeu submarinos ao Estado português.”


Ricardo Salgado: “O assunto dos submarinos não está abrangido pelo segredo de justiça, que eu saiba. Foi, visto à luz de hoje, um dos erros de julgamento do GES ter entrado nessa operação para a qual contribuí com a decisão de participação. Foi uma operação pontual e única. Imediatamente a seguir decidimos não fazer mais nenhuma operação dessa natureza, pelo efeito terrível que teve sobre o grupo, em termos de reputação.
O Estado estava interessado em reequipar a marinha portuguesa com duas unidades novas. O BES foi consultado para estudar uma operação de financiamento que permitisse ao Estado pagar a aquisição desse material em condições de prazo o mais longo possível e o BES e o Credit Suisse montaram uma operação de leasing de longo prazo para a aquisição dos submarinos. A Escom fez um acordo com o grupo alemão para o representar, não sei em que altura, que deu origem a um benefício. Este benefício teve custos. Houve uma parte que foi distribuída em resultados, apurados pelo conselho superior do grupo, através de uma subsidiária da Escom.
Esses custos foram analisados pelo Ministério Público. A garantia que tenho dos administradores da Escom é que não foram pagas comissões a quem quer que seja a nível político.”

14:36
Ricardo Salgado, sobre o processo de resolução do BES, aplicado pelo Banco de Portugal a 3 de Agosto: “Foi um erro. A avaliação ainda está por fazer. Há uma leitura que não deixo de fazer, tendo em conta os valores perdidos com a intervenção pública. O nível de capitalização do BES foi completamente dizimado e, se o banco for vendido por um valor inferior ao da intervenção, é preciso ter em conta esse diferencial. E também ao nível do crédito, a situação do Novo Banco vai criar uma crise maior ao nível do emprego e das empresas.
”



09/12/2014 - 16:12

15:34
Começa a segunda ronda de perguntas, depois de uma pausa de 40 minutos.
Carlos Abreu Amorim, depois de criticar a "habilidade" de Ricardo Salgado em "compor uma narrativa alindada":
“À cautela foi-se munindo de elementos, para inviabilizar o eventual processo de levantamento da idoneidade, por parte do BdP. Autoriza que o Banco de Portugal revele a troca de correspondência que o regulador manteve consigo a propósito da idoneidade?”
O BES faliu por má gestão, por uma gestão pouco rigorosa, pouco sã e pouco prudente. O BES não faliu porque foi forçado a falir. Finou-se por culpa própria. Neste sentido julgo que a sua versão dos acontecimentos cai pela base.”
”Ainda na questão da recomendação dos livros: foi a primeira vez que vi alguém vir a uma comissão de inquérito recomendar aos deputados que expandissem os seus horizontes culturais. Recomendou, entre outros, o livro do Paulsen que considero de segunda categoria, o livro e a pessoa. Vou recomendar-lhe o livro de alguém que morreu há 1586 anos, mas que me parece muito indicado para uma pessoa que chegou a esta comissão de inquérito, não aceitou responsabilidades de coisa nenhuma, assinou durante cinco anos, de cruz, as contas que Machado da Cruz lhe colocou à frente na ESI, a culpa é do BdP, de Álvaro Sobrinho, ... O livro que recomendo para quem tem este tipo de postura é o livro Confissões, de Santo Agostinho.”

Ricardo Salgado: “O senhor deputado fez uma exposição bastante extensa. Nunca fui uma pessoa presunçosa, ou que pretendesse assumir posições de destaque. Sou uma pessoa sóbria e não tenho por costume alindar narrativas. Volto a dizer exactamente o mesmo: se tivesse sido levantada a questão da minha idoneidade, eu tinha imediatamente pedido a demissão. Aquilo que me levou a aceitar uma determinada liberalidade foi o facto de ter consultado juristas. O BdP podia ter-me dito que esses pareceres, por mais sábios que sejam, eu teria de sair. Eu teria saído imediatamente. Estamos abertos a dar tudo o que entender. Os elementos que tivermos estão abertos. O Banco de Portugal, por mim, está completamente livre de dar esses elementos ao senhor deputado.”
”Eu sou gestor bancário há 40 anos. Passei por 5, 6, 7 grandes crises internacionais. Fomos considerados um dos melhores bancos em termos europeus. Estou de consciência tranquila. Não tenho nada de que me arrependa. Tenho uma carga pesadíssima em cima de mim. Há responsabilidades do nosso lado. Mas também há responsabilidades de outros lados.”
”Recomendei aos senhores deputados aquelas obras porque elas são muito valiosas para compreender o actual contexto de crise. Sou católico praticante. Tenho o maior respeito por Santo Agostinho. Sempre que posso leio as meditações do Santo Agostinho.”



09/12/2014 - 16:56

15:59
A segunda ronda prossegue com Pedro Nuno Santos, do PS: "O país aceita com dificuldade, mas percebe, que o Estado possa intervir num banco com impacto sistémico, mas não percebe que interviesse num grupo não financeiro.”
“Temos nas transcrições das reuniões do Conselho Superior do GES isto [sobre a Escom]:
Vocês [os representantes dos cinco ramos da família Espírito Santo] têm todo o direito de perguntar “Mas como é que aqueles três tipos [os administradores da Escom] receberam 15 milhões?” A informação que temos é que há uma parte que não é para eles. Não sei se é, ou não é. Como hoje em dia só vejo aldrabões à nossa volta... Os tipos garantem que há uma parte que teve de ser entregue a alguém, em determinado dia.
Diz-nos que foi-lhe garantido que não foram entregues comissões a pessoal político. E a pessoal não político?”

Ricardo Salgado: “Gostaria que ficasse muito claro que não se pedia que o Estado capitalizasse a área não-financeira do Grupo.”
“Não sei quando essas gravações se iniciaram. Os senhores referiram várias vezes que eu mandava no grupo e tinha o domínio completo do grupo. Posso garantir que nem sequer sabia que estava a ser gravado... Alguém desencadeou as gravações dentro do grupo e as passou cá para fora. O que posso dizer é que se tratava de uma estrutura informal, com uma liberdade de linguagem não permitida em outras organizações. No meu entender cometemos um erro de julgamento ao ter entrado no negócio dos submarinos. Tive a garantia, tanto quanto se pode ter, da administração da Escom de que não tinham sido pagas comissões da área política. De facto, pareceu-nos que o montante que foi entregue aos accionistas nos parecia relativamente baixo. O Ministério Público tem uma acta assinada pelo Conselho Superior do grupo. O valor recebido foi superior a 5 milhões de euros. Não lhe sei dizer mais nada, a não ser que toda a envolvente, a situação terrível das contrapartidas, me levou a um excesso de linguagem a dizer que estava rodeado de aldrabões. As investigações que foram feitas criaram um mal estar muito grande, o que foi uma pena."




09/12/2014 - 17:13

09/12/2014 - 17:13

16:30
Segue-se Miguel Tiago, do PCP: “Em primeiro lugar, registamos a ironia de ouvir o presidente de um grupo que durante décadas faz a apologia do Estado mínimo e a retirada do Estado da economia e que depois, perante o colapso de um grupo, não financeiro também, não hesita em fazer contactos com o governo da República para que a República, que combateu activamente durante tanto tempo, seja a salvação. Mais valia não ter saído da esfera pública o banco que lhe foi entregue.
Ao que parece, o Banco de Portugal foi enganado pelo BES; ficamos a saber que o BES acha que também foi enganado pelo Banco de Portugal. Quem é que forçou a instituição financeira a desaparecer?”
”Qual a origem das verbas, e em que contexto, da bolsa de Durão Barroso nos Estados Unidos da América com carro e motorista assegurados pelo grupo?”

Ricardo Salgado: "O Estado mínimo e a iniciativa privada são sempre conceitos fundamentais na organização da sociedade que é bom ter presente. O Grupo investiu em Portugal 8 mil milhões de euros e criou 25 a 30 mil postos de trabalho. Julgo que, a seguir às privatizações, em que o Estado realizou encaixes substanciais, e comparativamente às indemnizações que foram pagas, o Estado conseguiu resolver na altura [1992] uma parte importante da sua equação financeira através das privatizações.”
”Sobre a Escom não lhe posso dizer mais, porque não sei. A Escom teve que pagar encargos, muitos encargos, técnicos, jurídicos. Não era a minha área, mas que não foram pagas comissões a políticos foi o que me garantiram que aconteceu.”
”O BES, segundo os dados da auditora KPMG, apresentou um património líquido de 3700 milhões, sem contar com os 2 mil milhões de provisões, em 29/8. Gostaria de ver as auditorias forenses para perceber. Mas o BES estava com 3700 milhões. O BES escusava de ter desaparecido. Não estávamos muito longe do que era necessário para ter sobrevivido. Era escusada esta resolução.”
”De facto, o doutor Durão Barroso tinha uma relação de aconselhamento connosco. Não me recordo do montante, mas não era nada de significativo.
Não sei o número de colaboradores que transitaram para o Governo. Houve vários ilustres membros do Governo que estiveram no BCP, no BPI.”

16:54
Mariana Mortágua, do BE: "É incrível que o 'dono disto tudo' apareça aqui como a vítima disto tudo... Quis fazer-nos acreditar que o seu império ruiu sem que soubesse?”
”Percebe-se que o Governo seja contactado por um banco em risco sistémico, mas não se percebe como Durão Barroso é contactado, ou Carlos Moedas...”
”Houve um acordo com o Banco de Portugal para que saísse após o aumento de capital?
”Passaram-se activos arriscados para o BESA para limpara o BES?”
”E por que razão o Conselho Superior recebe lucros do negócio dos submarinos da Escom?"


Ricardo Salgado: "Esta classificação do "dono disto tudo" é irrisória. Para mim, "dono disto tudo" é o povo português e os senhores são os representantes do povo português. Isto foi uma caracterização que me foi colada. Por fim, o dono disto tudo passa a responsável disto tudo ou vítima disto tudo. Não foi com a ideia de me vitimizar que presto esclarecimentos, mas para, com a objectividade possível, dar a minha visão dos acontecimentos. A minha responsabilização será certamente apurada pela via jurídica e pelos tribunais...
[No BES procurei] defender os interesses dos clientes dentro de uma envolvente política, económica e financeira extremamente complexa. Nunca passei por uma crise desta dimensão.”



O Príncipe - I


Eram 9:07 quando Ricardo Espírito Santo Salgado entrou na sala onde ia ser inquirido pela Comissão de Inquérito parlamentar à gestão do BES-GES, acompanhado por assessores e pelo seu advogado, Francisco Proença de Carvalho.

Era a sua primeira intervenção pública desde que deixou a presidência do Banco Espírito Santo (BES), desde que o Banco Espírito Santo (BES) desapareceu e desde que foi constituído arguido no processo Monte Branco por suspeita de evasão fiscal, burla e corrupção.

Ricardo Salgado começou por citar um provérbio chinês: “O leopardo quando morre deixa a sua pele e um homem quando morre deixa a sua reputação.”


Em seguida, durante cerca de hora e meia, leu um longo depoimento sobre a sua versão dos factos que levaram ao desaparecimento do Banco Espírito Santo (BES), o segundo maior banco privado português, que era controlado por um intrincado sistema de holdings sediadas no Luxemburgo:


09/12/2014 - 12:17

Peço e agradeço a Vossa compreensão para o tempo que esta minha intervenção inicial vos tomará.

Neste momento cabe‐me apenas enunciar os factos que antecederam a situação vivida até 13 de Julho, data em que cessei as funções de membro do Conselho de Administração do BES e de Presidente da respectiva Comissão Executiva.

Ficará para mais tarde a minha interpretação dos mesmos. E para a História, o juízo definitivo sobre o acerto das actuações do poder político e regulatório, que é constitucional e legalmente o objecto da competência da Assembleia da República.
(...)

Durante semanas e meses a fio, a minha família e eu próprio fomos julgados sumariamente na opinião pública com acusações de ilegalidades, de fugas em escassas semanas de centenas de biliões de euros destinados a enriquecer‐nos em off‐shores, de fortunas pessoais escondidas na Ásia, de mansões em Miami e de castelos na Escócia.

Tudo histórias totalmente falsas mas que acabaram por ocultar a verdade dos factos.

Em 22 anos de presidente da Comissão Executiva do BES, terei certamente tomado decisões que poderão não ter sido as mais adequadas.

Mas quero acreditar que os meus últimos seis meses e treze dias à frente do Banco – qualquer que seja o juízo formulado – não são mais reveladores sobre a acção das equipas que liderei do que um histórico de 22 anos, nacional e internacionalmente reconhecido e o exercício da profissão durante mais de quarenta anos, dezoito dos quais no estrangeiro.

Depois destaca que a crise do GES não se pode dissociar da crise que afectou, desde 2007, a economia mundial, a economia europeia e, naturalmente, a "frágil economia portuguesa". E recorda o colapso do Lehman Brothers, aproveitando para criticar a actuação do governo dos EUA por não dado apoio financeiro ao banco norte-americano:

O caso Lehman — banco de investimento especializado e global, mas pequeno em termos da economia norte-americana — teve efeitos devastadores que hoje motivam, generalizadamente, juízos críticos que recaem sobre a actuação dos reguladores e dos supervisores, à época.

E também sobre a omissão do Governo dos EUA que preferiu não intervir, por considerações políticas, assim detonando uma crise sem precedentes que o forçaria depois a lançar triliões sobre a economia.

Nomes tão diversos como Tim Geithner, Paulson, Kaletsky e Martin Wolf apontam a falência do Lehman como uma decisão com consequências trágicas, designadamente a nível do risco sistémico.

O que se passou com o Lehman deve ser retido na evocação do percurso do BES, pois este, embora centrado na economia portuguesa, tinha um peso relativo maior nesta — com cerca de 20% de quota de mercado; 2 milhões de clientes no retalho; 25,5% de quota nas empresas e 30% de quota no comércio externo.

Recorda previsões falhadas da OCDE para os países da periferia da zona euro, lembra projecções do FMI e cita a descida dos ratings da República iniciada em 16 de Março de 2011 pelas agências de rating, e a sua colocação pela Moody´s, em 5 de Julho, dois níveis abaixo do nível de investimento, com "consequências imediatas: a paralisação dos fluxos de capital do exterior que deixaram de investir na dívida pública portuguesa, na dívida dos bancos e na dívida privada em geral, determinando a queda da Bolsa de Valores e a quebra acentuada do investimento imobiliário, acarretando uma drástica desvalorização dos activos das empresas e das instituições de crédito."

E criticou o Governo e a troika por não aceitarem, das medidas então propostas pelos bancos, "senão a transferência para o Estado de liquidez correspondente a cerca de 50% dos Fundos de Pensões e mesmo essa sem que a Comissão Europeia autorizasse o Estado a cumprir, nos termos fixados, a obrigação assumida de recomprar aos bancos os créditos sobre o próprio Estado e autarquias".

Até que lança uma pergunta, para poder enumerar as várias emissões de dívida e aumentos de capital do banco e explicar porque não recorreu aos fundos da troika:

Mas como é que o BES viveu os anos da crise em 2012 e 2013? Conseguiu romper o fechamento dos mercados internacionais e colocar dívida.
(...)

O que fica dito – com dez aumentos de capital desde 1992 e acesso ao mercado externo em 2012 e 2013 – explica a escolha de não recorrer à recapitalização por meio da ajuda do Estado com fundos da Troika.

O BES conseguia obter capital e crédito sem diluir o capital, pois: recorria ao mercado, com preferência para os accionistas; trazia mais capital externo para Portugal; e não contribuía para a dívida pública.

E sobretudo podia fazê-lo porque quase não tinha a exposição à dívida grega, italiana e irlandesa, como sucedera com bancos nacionais.

Estas as razões da escolha feita. E não — como tem sido dito — por temer que a intervenção do Estado desvendasse segredos, manobras ou situações questionáveis.

Depois passa a narrar a sua versão dos acontecimentos ocorridos nos últimos meses, começando pela descoberta do buraco financeiro de 1300 milhões de euros na Espírito Santo International (ESI), a holding de topo do GES:


09/12/2014 - 10:15

A partir do início do novo século, e sobretudo a partir de 2007‐2008, reconheço, como já o fiz publicamente, problemas de organização, de financiamento, de perfis de gestão e de controlo de um Grupo essencialmente concentrado na área financeira.

Um grupo que necessitava de encontrar novas estruturas e novos modelos de governação para a área não financeira.

Em 2009, na ressaca da crise mundial, foi criada a RIOFORTE, com um capital de 1,3 mil Milhões de €, pensada para ser a holding única da área não financeira e cotada na Bolsa.
(...)

O agravamento da crise em 2011, retardou a cotação em Bolsa e atingiu, especialmente em 2012 e 2013, a área não financeira, dificultando a reconversão de uma realidade muito diversificada e geograficamente dispersa.

Na área não financeira, há que dar especial enfoque ao problema descoberto na ESI, no âmbito do Exercício Transversal de Revisão das Imparidades dos Créditos Concedidos (designado por ETRICC), iniciado pela PWC, em 14 de Outubro de 2013, e concluído em 14 de Março de 2014 .

Esta auditoria envolveu uma interacção das equipas do GES e do BES que disponibilizaram toda a informação à PWC. Fruto desta interacção, em finais de Novembro de 2013, foi reportado que haveria um passivo não registado na ESI.

Esta circunstância afectava, naturalmente, a dívida directa e indirecta do Grupo, em parte titulada por papel comercial colocado no mercado nacional e internacional.

Ao tomar conhecimento deste problema, eu próprio, todos os órgãos do Grupo, bem como a equipa financeira do Banco, encarámos as dificuldades da sua superação, e de forma consciente e realista procurámos as soluções adequadas.

Ainda nesta altura foi também solicitada à ESFG, a pedido do BdP, que fossem preparadas demonstrações financeiras consolidadas proforma da ESI, com referência a 30 de Setembro de 2013, e que as mesmas fossem objecto de análise por auditor externo, a KPMG.

O Conselho Superior [formado pelos representantes dos cinco ramos da família Espírito Santo], na tarde de 3 de Dezembro de 2013, reuniu com o BdP para discutir a situação financeira da ESI e apresentou propostas para uma resolução de curto/médio prazo.

Nessa reunião, os representantes do BdP ouviram‐nos e saímos dela com a sensação de que as soluções propostas iriam ser analisadas com ponderação, para posterior desenvolvimentos e negociações, com vista a proteger os interesses de todas as partes envolvidas, em especial dos investidores e dos clientes do Banco.

Ora, no próprio dia, e passadas cerca de 2 horas, por carta recebida pelas 19h, o Senhor Vice-Governador do Banco de Portugal impunha o reembolso de todo o papel comercial até ao fim do mês de Dezembro — ou seja, em escassas semanas —, sob pena de constituição de uma provisão.

Em face da óbvia inexequibilidade de tal exigência, o Grupo concentrou-se num plano para resolução da situação, consciente dos riscos reputacionais resultantes da deterioração ou da percepção de deterioração da posição financeira da ESI.

Esta situação de sobre-endividamento traduzia, também ela, os efeitos da crise na área não financeira, carecida de um plano rápido e eficaz para garantir a sua viabilização, salvaguardando sempre a área financeira.
(...)

Em 10 de Dezembro de 2013, a ESFG apresentou um Plano ao BdP, através de carta dirigida ao Senhor Vice-Governador do BdP.

Prossegue a narrativa, descrevendo o Plano de Recuperação então proposto para o GES que pressupunha um apoio financeiro ao grupo de 2500 milhões de euros:

Depois de uma análise que foi muito ponderada — já que ela exigia, além de dados firmes, a convergência de todos os ramos do Grupo e o acordo de sócios estrangeiros, como o Crédit Agricole, em algumas das suas componentes — acertou-se um Plano de Recuperação, com os seguintes pontos essenciais:

• Objectivo central: reduzir a área não financeira, reforçar a sua sustentabilidade e, acima de tudo, continuar a proteger o que estava em primeiro lugar, os direitos dos clientes e dos accionistas do BES e também da ESFG;
• Prazo de execução: cinco anos. Muito menos do que os 31 anos de pagamento da dívida pública previstos no quadro do Memorando para Portugal;
• Acções:
1ª: aumentar o capital do BES, a fim de respeitar Basileia III e reforçar a posição do Banco junto dos clientes e accionistas;
2ª: aumentar o capital da RIOFORTE, bem como da ES IRMÃOS, através de capitais que estavam disponíveis para serem investidos por terceiros, ficando o conjunto destas duas holdings com 100% da ESFG e dando tempo para a venda de posições da área não financeira.
RIOFORTE e ESI tenderiam a fundir-se no final do processo;
3ª: venda de activos e de participações não estratégicas na área não financeira, sem ser em velocidade tal que fizesse cair a pique o valor desses activos.
(...)

Antes, porém há ainda uma questão prévia que se impõe: seria o GES efectivamente viável, que justificasse a elaboração de um Plano de Recuperação?

Ou essa recuperação seria só o salvar de uma Família e dos seus aliados, à custa dos outros?

A resposta está no ETRICC, ou seja na auditoria que a PwC realizou, a pedido do BdP, à área não financeira do GES e que finalizou em 14 de Março de 2014.

No referido documento, a PwC concluiu que o GES era económica e financeiramente viável e a dívida sustentável num prazo até 2023.
(...)

E a PwC confirma, no mesmo relatório, que o valor da RIOFORTE era de 1.708 M€, mesmo com a provisão de 700 Milhões de € na ESFG, de que adiante se falará e que foi determinada pelo BdP.

A mesma auditoria, a páginas 32, concluiu que a RIOFORTE não tinha qualquer imparidade.
(...)

Em 31 de Dezembro de 2013, a exposição do BES ao GES era de 1,9 mil M€, atendendo ao papel comercial do GES colocado em clientes do BES.

Em face do que o BdP definiu o chamado «ring‐fencing», ou barreira protectora, determinou uma provisão de 700M€ de acordo com a KPMG a ser registada na ESFG e uma acelerada redução da exposição, com reembolso do papel detido pelos clientes — observe-se que a PWC entendia inicialmente que uma provisão de 400M€ seria suficiente.

O GES, e em especial o BES, foram tentando enfrentar ao mesmo tempo quatro desafios:
• 1º: Realizar o aumento de capital do BES;
• 2º: Preparar e lançar o aumento de capital da RIOFORTE e recorrer a uma linha de crédito de médio prazo intercalar no montante de 2,5 mM€ — que não fosse financiada pelo Grupo ESFG;
• 3º Acelerar as vendas na área não financeira; e
• 4º reembolsar rapidamente papel comercial do GES, colocado pelo BES.

Tudo num clima mediático de permanente debate acerca do Grupo, do banco, da supervisão, de visões superficiais que reduziam a realidade à identificação do GES como um conjunto de empresas não viáveis, à separação teórica entre clientes do GES e do BES e à ideia de que a resolução de todos os problemas passaria pela discussão da liderança do Banco.

Ricardo Salgado passa a esmiuçar o relacionamento do BES com o BdP, no qual distingue duas fases. Na primeira, o BdP iniciou um processo de pressão no sentido da mudança de gestão do BES:


09/12/2014 - 10:23

A primeira de Dezembro de 2013 a Março de 2014 é marcada pela exigência da provisão de 700 M€, pela imposição do reforço do capital do BES, pela carta de 25 de Março, e pela intensificação do reembolso do papel comercial do GES colocado no BES.

Esta intervenção acrescentou‐se à supervisão permanente do BdP no BES, já anteriormente estabelecida.

Foi como se imagina uma fase muito difícil para o BES e para o GES, patente, designadamente, na correspondência trocada, mas em que foi possível, com um esforço considerável, reduzir a exposição do Grupo aos clientes do BES em mais de mil milhões de euros, num período de apenas 5 meses — como aliás foi aqui reconhecido pelo Senhor Governador do BdP.

Isto enquanto os activos do Grupo e do Banco sofriam pela repercussão mediática de cada passo, de cada diligência, de cada divergência pontual.

Por outro lado, e a par das iniciativas que o GES e o BES estavam a realizar com vista a resolver os problemas a que me referi, o BdP, de forma vaga e imprecisa, iniciava um processo de pressão — que o Senhor Vice-Governador designou por “persuasão moral” — no sentido da mudança de governance do BES.

Esta “persuasão moral” verificou-se mais pelas notícias, comentários e juízos de valor surgidos na imprensa, do que por indicação que nos tivesse sido directamente transmitida pelo BdP.

Quero deixar bem claro que era minha firme intenção preparar um novo modelo de governance com a minha saída de funções executivas do BES.

Aliás, o Senhor Governador disse-me de forma clara que desejava, para manter a estabilidade do Grupo BES, que fosse eu próprio a liderar essa transição e a mudança de governance.

Assim, solicitei ao Dr. Rui Silveira e ao Dr. Daniel Proença de Carvalho que fosse elaborado um projecto de alteração dos Estatutos, para uma nova governance do Banco, a propor ao BdP e a submeter a uma posterior Assembleia Geral, naturalmente, a realizar após o aumento de capital do Banco e com vista à minha saída da Administração Executiva.

Em conversas tidas com o Senhor Governador, foi-me manifestado o desejo do BdP de que a mudança de governance e a saída da família dos órgãos de Administração ocorresse ainda antes do aumento de capital.

O que eu considerei imprudente e mesmo de risco elevado.

Em 31 de Março, enderecei uma carta ao Sr. Governador do BdP, apontando pela terceira vez o risco sistémico que derivaria de uma ruptura desordenada na Administração do Banco, em vez de uma transição controlada que salvaguardasse a confiança do mercado, que até aí se mantivera, tal como veio a confirmar-se pelo sucesso do aumento de capital.

Nessa carta reafirmei textualmente o seguinte, cito: “Quero dizer claramente a V. Ex.ª que estou inteiramente disponível, no quadro de um saudável e cooperante relacionamento com o BdP, para encontrar uma solução construtiva de Governance, com forte incidência numa maior profissionalização e independência executiva do Banco. Não serei eu que por qualquer motivação pessoal dificultará essa desejável evolução.”

Tal carta é também revelada ao Senhor Presidente da República e ao Governo, na pessoa do Senhor Primeiro-Ministro, que a devolveu, e à Senhora Ministra das Finanças. É igualmente comunicada ao Senhor Presidente da Comissão Europeia.

Nesse momento, optou-se por adiar as alterações de governance para depois do aumento de capital do Banco.

Depois descreve a segunda fase desse relacionamento, entre Março e Junho de 2014, quando decorre a escolha atribulada da futura gestão do BES, voltando a realçar a necessidade de um apoio financeiro estatal ou bancário ao GES e também de um aumento de capital da Rioforte, a holding da área não financeira:


09/12/2014 - 10:22

Desde 3 de Dezembro de 2013 que, antes mesmo do ETRICC 2 e da auditoria da KPMG, o GES havia, por escrito, formalizado a sua preocupação quanto ao risco sistémico derivado da relutância do BdP em entender a importância do Plano de Recuperação.

Os meses seguintes tornaram mais evidente ainda que para além do aumento do capital do BES e da alienação de participações – como as entretanto vendidas na ZON, Sodim e Cimigeste – ou preparadas para tanto como a ES Saúde, a ES Hotéis e a ES Viagens, era indispensável um apoio intercalar ao Grupo, que alguma banca aceitaria encarar mas fazia depender da posição do Governo.
(...)

Nova diligência do GES, em Abril, para sensibilizar para a impossibilidade de reconversão do Grupo em 6 meses e para o risco de contaminação do BES, deparou com a posição inabalável do Governo de rejeitar qualquer abertura a apoio estatal ou bancário ao GES. Fala-se então em montante muito inferior aos ulteriormente referidos após a resolução do BES.

Entre Março e Junho há, pois, uma situação contraditória: por um lado, o BdP e o GES falam de aumento de capital e de alteração estatutária com vista a uma nova gestão; por outro lado, o outro pilar da recuperação do GES e, mediatamente, do BES, ficava como que bloqueado.

E o bloqueamento seria total quando foi inviabilizado o private placement de um Fundo de Investimento Internacional disposto a tomar firme 70% de mil M€ do aumento de capital da RIOFORTE, conforme apresentação em 7 de Maio de 2014 à Comissão Executiva do BES.

Mais: até ao fim, ainda em 12 de Julho de 2014, em carta endereçada ao Senhor Governador, apresentámos investidores internacionais como a Blackstone & Weil que a nosso convite se encontravam em Portugal, que representavam outros investidores, entre eles, o KKR, e que haviam revelado disponibilidade para participar no reforço de capitais.

O Senhor Governador do BdP, no próprio dia 12, não manifestou abertura para receber os representantes daqueles investidores e em carta de 13 de Julho, referiu que concordava com tal solução, mas que haveria de ser apreciada pela nova administração.

Estes factos motivaram o desinteresse imediato dos referidos investidores.


09/12/2014 - 10:59

Todo este exercício dificílimo ocorre no contexto de um clima público intenso e por vezes dramatizador que leva a dois processos sucessivos de escolha da futura gestão do BES.

No primeiro, o CFO e uma Directora Coordenadora merecem aceitação inicial do BdP para CEO e CFO respectivamente, chegando o Senhor Governador do BdP a afirmar-me por telefone “será quem o Senhor Presidente entender”.

No segundo, perante aquele clima, no dia 20 de Junho suscitam-se dúvidas sobre a necessidade de avaliação da idoneidade daqueles gestores, que nunca antes fora questionada e que gozavam de prestígio considerável no sector bancário internacional (o dr. Amílcar Morais Pires, meu colega da comissão executiva, dedicado para CEO, estava há 28 anos no banco, nunca tinha sido questionada a sua idoneidade; a dra. Isabel Almeida era responsável pelo departamento financeiro de mercados e estudos) — sendo certo que haviam estado ligados, com mais um outro administrador executivo, ao sucesso do aumento de capital.

E tudo se adensa com o anúncio de uma auditoria forense, em 2 de Julho – auditoria ainda hoje não terminada.

Estes factos, só por si, desencadeiam nos investidores internacionais, que tinham acabado de subscrever o aumento de capital, em 16 de Junho, uma reação extremamente negativa manifestada numa quebra de confiança e na queda do valor das acções – GRÁFICO.

Isto obriga a ESFG a ter de propor novos nomes para CEO e CFO, nomes esses que viriam a ser aceites pelo BdP e cooptados pela gestão cessante, na última reunião do Conselho de Administração em que participei.

Assumo quer as primeiras escolhas do GES, que viriam a ser afastadas pelo BdP, quer as que lhe sucederam e foram por este aceites. E que transitariam para o Novo Banco.

É agora que Ricardo Salgado refere a questão da garantia dada pelo governo angolano ao BESA:

Quanto à posição do BES perante o BESA: limito-me a invocar as palavras do Senhor Governador neste Parlamento, em 18 de Julho de 2014, ou seja, já uma semana depois da minha saída, cito: “Importa salientar que o BdP não antecipa um impacto negativo relevante na posição do capital do BES resultante da situação financeira da filial do BESA. Tendo em consideração que a garantia do Estado de Angola cobre parte substancial da carteira de crédito e que existe uma forte interacção entre as autoridades de ambos os países, o BdP espera que a situação desta filial seja clarificada e sem impacto material no BES”. Esta declaração está disponível no site do BdP.

Repito: a 18 de Julho de 2014, seis dias depois de eu ter cessado funções.

Assim, a situação do BESA estava assegurada por uma garantia on first demand do Estado Angolano, tal como esclarece o Senhor Governador, que não foi questionada pelo próprio emitente nem até à data da cessação de funções da gestão do BES que obtivera tal garantia, nem até à medida de resolução que destruiu o BES.

Observe-se que o risco da extinção da garantia tinha sido referido na carta de 31 de Março, por mim endereçada ao Senhor Governador.

Outras questões melindrosas — as obrigações EUROFIN e o prejuízo de 3500 milhões de euros relativo ao primeiro semestre de 2014:


09/12/2014 - 10:59

Quanto ao tema das chamadas obrigações EUROFIN: tal como decorre da acta de 30 de Julho de 2014, do último Conselho de Administração, publicada na imprensa, relativamente às emissões de obrigações de cupão zero e prazo longo, verificou-se terem sido gerados ganhos por intermediários na ordem dos 780M€.

De acordo com a intervenção referida nessa mesma acta, da Senhora Dra. Inês Viegas da KPMG, cito: “face ao apurado, a KPMG reuniu com o Dr. Joaquim Goes e Dr. Manuel Freitas e o Departamento Financeiro de Mercados e Estudos, tendo este Departamento, após ter sido confrontado com toda a evidência, informado que as transações em questão foram efectuadas através da EUROFIN e que o valor retido por terceiras entidades foi utilizado para o pagamento de divida do GES detida por clientes do Banco.”
(...)

Peço que me escutem, Senhores Deputados: ninguém da administração do BES, do GES ou da família Espírito Santo obteve qualquer alegado benefício daqui decorrente, ao contrário do que foi repetidamente insinuado em alguns órgãos de comunicação social.

Além disso, o prejuízo registado nas contas e que é apresentado como o prejuízo “record”, detonador da medida de resolução, não corresponde a dinheiro que saiu do BES; a milhões a irem para o estrangeiro ou para off-shores como se escreveu; mas sim a provisões impostas ao Banco, num valor superior a 2MM€, contra o entendimento e a vontade de muitos administradores, tendo, a título de exemplo, um deles, exigido que ficasse registado em acta que considerava tal provisão injustificada e imposta ao Banco.

Marc Oppenheim, indicado pelo Crédit Agricole, pediu que, cito: “ficasse registado na presente Acta que, no seu entendimento, estas provisões traduzem um nível de conservadorismo que se afigura excessivo e que é, de facto, imposto ao Banco, podendo esta circunstância constituir um risco relativamente à percepção que os accionistas terão sobre a situação do Banco.”

A questão da PT ficou para o fim:

Por último quanto à relação do BES com a PT, que nasceu há décadas, da posição de accionista na sua antecessora Marconi, cumpre apontar alguns factos essenciais.

O BES foi accionista importante no impulso da Marconi e, através desta, como financiador no processo de reprivatização e consolidação do universo PT e sua projecção no Brasil, em África e na Ásia.

Desde 2000 e até 2014, existiu uma parceria estratégica entre PT, BES e CGD.

Desde 2002, a PT manteve aplicações de tesouraria no BES e no GES, sempre públicas e divulgadas nos relatórios anuais, submetidos ao parecer da Comissão de Auditoria, ROC e Auditores externos, sem qualquer reparo ou observações, bem como de resto pelo detentor da golden share e por maioria de razão do terceiro elemento da parceria e accionista da PT, a CGD.

Isto mesmo aconteceu com o relatório e contas de 2013, na sequência de todos os anos anteriores. Sendo certo que se impõe observar que anos houve, no início do século, com valores de aplicação até mais significativos do que os de 2013 e 2014.

Aqueles dados foram naturalmente facultados ao Banco avaliador dos activos na fusão com a Oi (Banco Santander Brasil), no âmbito do aumento de capital da Oi e, assim, vêem registados no prospecto do mesmo.

A título emblemático da aplicação recíproca de fundos da PT no BES e do BES na PT, mencionarei que foi o BES quem financiou a PT na aquisição das empresas brasileiras que, conjuntamente, com as empresas adquiridas pela Telefónica viriam a formar a VIVO.

Em Março, Abril e Maio de 2014 o investimento da PT na RIOFORTE estava — para além daquela prática nunca ter sido objectada pelo Estado ou CGD, desde 2002 — solidamente apoiado no programa ETRICC de 14 de Março de 2014, que, tal como a PwC, considerava que a RIOFORTE não tinha qualquer imparidade.

O depoimento de Ricardo Salgado termina com as seguintes considerações:

Peço desculpa por ter sido demasiado longo.

Mesmo evitando opiniões e não me pronunciando sobre o que se passou após a alteração da gestão do BES, com particular relevo para a sua resolução e divisão em dois bancos, senti ser meu dever explicar os acontecimentos, o pano de fundo e os meses intensíssimos vividos entre Outubro de 2013 e Julho de 2014.

Tentei ser factual e objectivo.

Apesar de saber que, mais de um ano de diária apresentação pública – em jornais, televisão e internet – como responsável e responsável todo poderoso por várias crises no BES, no GES e noutras áreas económicas, sociais e políticas já fez caminho no espírito de muitos portugueses e criou condições para juízos condenatórios imediatos e sem apelo, mesmo se apressados e injustos.

Tentei sempre preservar a unidade do Grupo e da Família, até por sempre ter entendido que ninguém sai ileso de uma guerra familiar.

Um nome pode ser apagado da fachada de um banco, mas não pode ser apagado da História e de uma família com 145 anos ao serviço de Portugal.

Tentei evitar apreciações políticas. Recordo com gratidão o quanto estadistas tão diversos como o Sr. Dr. Mário Soares e o Prof. Cavaco e Silva foram essenciais para o nosso regresso a Portugal.

Recordo, com saudade, o Professor Ernâni Lopes que sempre considerou o GES um dos grupos estruturantes e centro de racionalidade da economia portuguesa.

E devo reconhecer que mesmo os revolucionários de Abril nunca se sentiram na necessidade de apagar um nome ainda quando mudaram um regime.

Sei que muitos perderam tudo com o desaparecimento do BES e a insolvência do GES.

Sei que o mais fácil em tempo de crise, de sofrimento, de revolta social é encontrar responsáveis e que a História é sempre tardia em reparar erros de apreciação e de julgamento.

Procurei explicar o que o Grupo, o Banco e todos os seus colaboradores tentaram fazer para evitar um desenlace fatal.

Sei como o Grupo aceitou sair da gestão do Banco, de forma pactuada, sem rupturas sistémicas. E como propôs pistas para se reconverter e não atingir o Banco.

Sei como o Banco conseguiu, no meio de um clima dramático, realizar um aumento de capital para muitos impossível.

Sei como tudo se fez para encontrar nomes para a futura gestão que pudessem ser aceites pelo BdP.

Sei como o tempo muito longo, o ambiente especulativo, as reticências quanto ao apoio ao Grupo e as sucessivas alterações de nomes na nova gestão dificultaram uma tarefa já de si muito complexa.

Sei como contribuímos para a criação de emprego em Portugal, com colaboradores de excelência, a quem aqui deixo uma palavra de reconhecimento profundo.

Sei que desde 1991, investimos em Portugal, com os nossos parceiros, mais de 8 B€.

Não apontei o dedo a ninguém, nem antes de Julho, nem depois da resolução do Banco.

Termino com um apontamento funcional que é também pessoal. Tendo, certamente acertado e falhado muito na minha vida, sempre em consciência me considerei idóneo para servir na sucessão daqueles que fundaram e prestigiaram o Grupo Espírito Santo.

Mas sempre tive a humildade de reconhecer que cabia a outros — na supervisão — o permanente julgamento da minha idoneidade.

Ao longo de 22 anos ninguém com poder para tal — e que nunca duvidei que existisse — a questionou. Até à própria aceitação como Presidente do futuro Conselho Estratégico. Até ao momento de saída de funções.

Perdoarão pois que ouse continuar a pensar que, modestamente, servi, com idoneidade, nas tarefas que me foram confiadas no exercício da minha profissão ao longo de quarenta anos, dentro e fora do País.

*

Será interessante comparar esta narrativa com a investigação realizada pela jornalista Cristina Ferreira, do Público, e publicada neste jornal sob os títulos "Crónica do fim do império" e "A recta final".


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Quanto mais José Sócrates fala, mais se enreda


Na passada sexta-feira, o programa ‘Sexta às 9’, da RTP, divulgou nos vinte minutos iniciais uma investigação jornalística sobre os motivos da detenção de José Sócrates e de Carlos Santos Silva, seu amigo e presumível testa-de-ferro.

Há oito anos, o então primeiro-ministro justificou a compra de um par de apartamentos no luxuoso edifício Heron-Castilho com dinheiro oriundo da venda de outros apartamentos herdados pela mãe. Naturalmente, a reportagem começou pelos três apartamentos que Maria Adelaide de Carvalho Monteiro, mãe de José Sócrates, ainda detinha e que vendeu recentemente a Santos Silva:

28 Nov, 2014


Dois desses apartamentos estão situados no prédio número 27 da Rua Dr. António José de Almeida, na freguesia de Agualva, concelho de Sintra, um edifício construído há cerca de 50 anos. Cada um tem 80 m² de área e é composto por três assoalhadas, cozinha e uma casa de banho.
A escritura do primeiro andar esquerdo comprova que, no dia seguinte às eleições legislativas perdidas por José Sócrates, foi vendido por 100 mil euros.
Um mês depois, foi feita a escritura de venda do segundo andar esquerdo por 75 mil euros. Um apartamento idêntico ao anterior, mas menos degradado e ainda habitado por uma senhora idosa, diz o proprietário do terceiro andar esquerdo que mostrou a sua residência remodelada aos repórteres.

Como um apartamento com aquela área, situado num prédio construído há meio século, vale 40 mil euros, no máximo, no mercado imobiliário da zona, o valor real dos dois apartamentos não excede 80 mil euros. Tendo sido vendidos por 175 mil euros, mais do dobro do valor real, cria-se a suspeição que se tratou de uma forma de financiar a estadia de José Sócrates em Paris.

Em 2012, foi feita a escritura de venda de um terceiro apartamento, este com 155 m2 e situado no quarto andar do edifício Heron Castilho, em Lisboa, pelo preço de 600 mil euros, preço um pouco superior ao de outro apartamento com a mesma tipologia vendido no mesmo edifício, nesse ano. O DCIAP, que está a investigar os percursos sinuosos seguidos pelo dinheiro de uma conta do banco suíço UBS para chegar à conta da CGD do ex-primeiro-ministro, presume tratar-se de um negócio simulado.

José Sócrates tem afirmado que viveu em Paris graças ao empréstimo de 120 mil euros que pediu à CGD que, porém, foi quase completamente gasto na aquisição de um automóvel Mercedes no valor de 90 mil euros. Terão sido os 775 mil euros obtidos na venda destes apartamentos que lhe permitiram pagar parte do referido empréstimo e, sobretudo, financiar a vida faustosa que fazia em Paris.

O DCIAP suspeita também que os 25 milhões de euros depositados no banco suíço UBS em nome de Carlos Santos Silva provieram de "luvas" pagas a José Sócrates, relativas a obras públicas adjudicadas à empresa Lena Engenharia e Construções de que Santos Silva foi administrador até 2009.
No portal dos contratos públicos, criado em 2008, dos 196 milhões de euros ganhos desde então por esta empresa, 138 milhões derivaram de nove contratos celebrados com a empresa pública Parque Escolar. Cinco destes contratos foram assinados entre Maio e Julho de 2009, mas apenas foram publicados no portal pelo actual Governo, e contribuíram com a fatia do leão: 89 milhões de euros.








Em Paris, José Sócrates residiu sempre no 16º bairro, o mais luxuoso da capital francesa, tendo inicialmente alugado um apartamento. Mais tarde, fixou residência num apartamento situado no primeiro andar do número 15 da Avenue du Président Wilson, comprado por 2,8 milhões de euros e registado em nome de Carlos Santos Silva.



Avenue du Président Wilson, em Paris, que liga a Place de l'Alma à Place du Trocadéro. Ao fundo da fotografia, vê-se a Place d'Iéna que fica ao meio desta avenida.


Número 15 da Avenue du Président Wilson, em Paris


Número 15 da Avenue du Président Wilson, em Paris. O apartamento onde José Sócrates residia está situado no primeiro andar.


Entrada do número 15 da Avenue du Président Wilson, em Paris.


Este apartamento foi posto em venda por 3,95 milhões de euros, ou para arrendar por 7500 euros, há cerca de uma semana, na imobiliária Daniel Féau.







Depois de ver o programa ‘Sexta às 9’, o ex-primeiro-ministroe decidiu ditar uma carta ao seu advogado, por telefone, para enviar à RTP.

Sobre a residência em Paris, diz José Sócrates nessa carta:

"No primeiro ano vivi num apartamento arrendado; depois, de Setembro 2012 a Junho 2013 vivi no apartamento que me foi emprestado pelo meu amigo engenheiro Santos Silva, que o comprou para o restaurar, arrendar ou vender, que é a situação actual dele. Saí quando começaram as obras.
No princípio deste ano, depois de uns meses a viver com a família em hotéis, aluguei outro apartamento que mantenho actualmente como minha residência em Paris.
"

Quanto aos apartamentos vendidos pela mãe, o ex-primeiro-ministro refuta as acusações:

"A minha mãe vendeu, na altura com a ajuda do meu irmão, dois — não um, como afirma a peça — apartamentos por um preço total de 100 mil euros e não, como afirmam, um por aquele preço.
Em 2011, decidiu regressar a Cascais, de onde se mudara para Lisboa para ficar a viver perto de mim, porque, nesse ano, me desloquei para Paris e ela ficou sozinha em Lisboa. Daí o regresso a Cascais e a venda do apartamento em Lisboa. O preço por que vendeu foi o preço justo, que resultou de uma avaliação.
"

"É certo que é difícil eu falar. Estou preso. Mas não lhes faço o favor de ficar calado", termina a carta do ex-primeiro-ministro.

A estação televisiva respondeu-lhe imediatamente:

01 Dez, 2014, 20:16


"Ao longo de duas páginas, [José Sócrates] refuta vários factos. Logo a começar pela propriedade do apartamento de luxo em Paris, que a RTP mostrou por dentro pela primeira vez, explicando que está à venda há pouco mais de uma semana por cerca de 4 milhões de euros", noticia a estação.

O registo francês prova que está no nome de Carlos Santos Silva, também ele preso preventivamente por suspeita de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Em momento algum é dito que a casa pertence a José Sócrates.

Já sobre as casas vendidas pela mãe do ex-primeiro-ministro, a RTP reitera:

"Demonstrámos que dois dos três apartamentos que a mãe vendeu ao amigo Carlos Santos Silva foram escriturados por um preço duas vezes acima do preço do mercado. Ambos no Cacém, ambos com intermediação do advogado Gonçalo Trindade Ferreira, outro dos presos preventivos, que se assumiu como procurador de Maria Adelaide Monteiro, vendedora, e Carlos Santos Silva, comprador."

"O primeiro foi vendido no dia seguinte às eleições legislativas que ditaram a derrota de Sócrates. Custou 100 mil euros mas permanece vazio. O segundo foi escriturado um mês depois por 75 mil euros. Ainda é habitado pela mesma inquilina dos últimos 30 anos, apesar de não existir nenhum contrato de arrendamento registado nas finanças. Ao todo, os apartamentos foram vendidos por 175 mil euros", conclui a RTP.


*

José Sócrates gosta de falar, esquecendo-se de que há documentos escritos. Quanto mais fala, mais se enreda.
A estratégia é manter a dúvida sobre a sua culpa no espírito daqueles a quem distribuiu diplomas do 9º ou do 12º anos de escolaridade do 'Novas Oportunidades', que dificilmente conseguirão ler uma escritura de várias páginas e, muito menos, um registo predial em francês.
No entanto, ainda não é desta vez que José Sócrates consegue virar a opinião pública a seu favor, havendo até comentários à notícia a denotar que o português, mesmo quando assaltado, mantém o bom humor:


Jorge Artur Vieira@Facebook
01 Dezembro 2014 - 23:19
Estar preso afinal não deve ser assim tão mau. Visitas todos os dias, liberdade de comunicação para o exterior, e aquilo que não sabemos. Qualquer dia vai jantar com o director ao Fialho. Ai vai, vai.

Anónimo
01 Dezembro 2014 - 23:32
Amigo também lhe pagava os empréstimos e as despesas que ele tinha. Que sorte! É como o outro com o taxista que tinha a conta na Suíça. Mas os amigos que mais falta lhe fazem são os do DCIAP, da PGR e do STJ, com esses amigos é que não ia parar à cadeia, com os que ficaram, até eles vão para a cadeia.

Marlene Campos@Facebook
01 Dezembro 2014 - 23:34
O Sócrates não se cala porque gosta de se fazer de coitadinho. Já era assim há vários anos. Já não tenho paciência. Mas será que ainda alguém acredita nele? Existiram sempre grandes indícios da falta de honestidade deste homem. Por favor...

Anónimo
01 Dezembro 2014 - 23:41
Meses a viver em hotéis com a família?
E quanto custa viver assim?
De onde veio o dinheiro para pagar esse luxo pois de certeza que não seriam hotéis de 2 ou 3 estrelas.
Isto é que é roubar à grande e à francesa.

Anónimo
01 Dezembro 2014 - 23:52
Que se faça justiça, mas devia estar em liberdade a aguardar julgamento...

  • Anónimo
    02 Dezembro 2014 - 00:41
    Já devia estar, onde está agora, há muito tempo... Mas mais vale tarde do que nunca! E alguns como o Salgado e outros em breve estarão a fazer-lhe companhia! É a Campanha LIMPAR PORTUGAL em marcha.

wand
02 Dezembro 2014 - 08:15
A casa é do amigo, ele Pinto de Sousa (até o nome Sócrates é falso) vive em casa do amigo, muito amigo, e tem dinheiro para viver em Paris porque tem uma mãe que é muito rica e sustenta um homem de 57 anos que, por acaso, já foi primeiro-ministro de um País.
Surreal...

Lerinho
02 Dezembro 2014 - 09:24
Ora aí está!
Dêem-lhe corda que ele enforca-se sozinho... ou talvez não!
Cá para mim acho que vai arrastar uns quantos com ele. Vai uma aposta?

Joe Shit
02 Dezembro 2014 - 09:29
Li e ouvi as explicações do ex-primeiro ministro e fiquei sem perceber bem.
OK, a casa de Paris não é dele, é do amigo que lhe disse: oh pá vai lá viver, até eu fazer obras. Saiu da casa para um Hotel com a família (sic) até arrendar uma nova casa. Estudavam ele e o filho, tomava as refeições num restaurante de luxo.
Quando veio a Portugal almoçar com o Sr. Monteiro para falar de literatura (almoço que a sua secretária considerou urgente) foi ao Aviz.
Tinha um motorista, uma secretária e várias senhoras que lhe faziam as limpezas. Portanto tinha dinheiro!
Não ganhava do Estado como ex-ministro, era representante duma Farmacêutica. Portanto é só fazer contas segundo o método italiano, uma folha para as despesas e outra para os gastos e ver o saldo. Appassionata.

Sei do que falo
02 Dezembro 2014 - 09:58
A casa em Paris é do motorista que a comprou quando saiu do bairro da Boavista através do testa-de-ferro que é o amigo do prisioneiro 44.
Tanto o prisioneiro 44 como o amigo trabalhavam como testas-de-ferro para o motorista, esse sim, o grande corrupto da Administração Pública.
O prisioneiro 44 foi para Paris, não para estudar filosofia, mas para tratar dos negócios do motorista. O motorista como paga dos seus trabalhinhos, às vezes levava-lhe umas malitas com uns trocos lá dentro, assim para as necessidades mais básicas.
Alguém imagina aquela carinha de anjinho do 44 a fazer seja o que for em proveito próprio? Aquilo é a perfeição absoluta. Vai para o Céu.

Jaime
02 Dezembro 2014 - 10:13
Claro que era do amigo, que seguramente tinha muito interesse em investir em Paris.
Este gajo é um autêntico aldrabão. É como nos divórcios por arranjo, em que o marido que gere as empresas fica com as dívidas, e ela com tudo após o divórcio. E depois vivem juntos.
Este só se enterra. Pelo menos já se sabe que a casa não era alugada...

Não gosto do Sócrates, mas...
02 Dezembro 2014 - 13:41
Pergunto eu: era o Sócrates que estava na gestão, ou no departamento de contratação/concursos, da empresa pública Parque Escolar, quando esta fez os contratos de empreitada com o Grupo Lena? Era o amigo do Sócrates o único administrador do Grupo Lena, com poderes para dar milhões de euros em "luvas" pelos contratos feitos pelo grupo, quer em Portugal, quer na Venezuela? Há muita coisa para saber, ai há, há!

Preso 44 & Quadrilha do PS
02 Dezembro 2014 - 18:48
Só os anjinhos é que podem acreditar que as alegadas "luvas" das negociatas feitas durante o governo PS beneficiaram apenas o Preso 44! Mas alguém acredita que ele (se) governou sozinho? Quem aprovou os tão convenientes RERTs?
Fazer muita obra mantém o dinheiro a circular de forma a gerar "luvas". Eu sempre desconfiei dos políticos que fazem muita despesa, sobretudo em obras inúteis. Eis a razão do PS ser o campeão das PPPs, dos Swaps, da Parque Escolar, das Eólicas e dos ajustes directos. O preço de tudo isso foi a 3ª bancarrota.
Mas o PSD que não pense que aqui faz como Pilatos. Também tem muitos "telhados de vidro". E é por isso que este sistema político está PODRE e urge uma reforma do sistema eleitoral. A bem da democracia.

Anónimo
03 Dezembro 2014 - 02:39
Não há melhor forma dele compreender o que é a dívida, os juros e o seu pagamento, do que obrigá-lo a pagar aos portugueses tudo o que não era dele. Nós somos os credores da dívida dele, queremos o nosso dinheiro de volta e com juros!


  • 03 Dezembro 2014 - 12:26
    Também queremos o nosso dinheiro desviado por outros corruptos. Ou esqueceste que estamos a pagar o dinheiro que outros desviaram e estão longe, ou em casa, sem que nada lhes aconteça. A justiça tem que ser igual para todos, não só prender um para dizer que a justiça está a funcionar.
    Não foram os portugueses anónimos que viveram acima das possibilidades, foi esta gente que se dignou roubar aquilo que não era deles. A quem se provar o tal enriquecimento ilícito, que lhes seja retirado tudo o que levaram, e tenho quase a certeza que se pagava a dívida portuguesa.

Anónimo
03 Dezembro 2014 - 02:41
Título do jornal Libération, em França, diz tudo: "Sócrates, a queda de um oportunista sem ideologia". Nem mais.