sábado, 26 de fevereiro de 2011

"Gabba gabba we accept you, we accept you, one of us"


"Talvez nem todos saibam, no entanto, que as lições de gestão de Bourdain [ex-chef de Les Halles, um restaurante de Nova Iorque] já foram recolhidas e são igualmente interessantes. O resultado está num texto com o título "Management by fire", publicado na "Harvard Business Review" (...) Segundo o nosso herói, quais as funções do "chef"? Sete pistas:

1. Os "chefs" criam meritocracias. Para Bourdain, os "chefs" têm o dever de criar meritocracias. Na cozinha, é-se julgado pela qualidade do trabalho, e não por quaisquer outros factores. Não há maneira de inverter a ordem das coisas. Esta regra pode ser de difícil aplicação em Portugal, um país onde, como dizia um gestor estrangeiro há longo tempo estabelecido no nosso país, todos estão de acordo com os princípios da meritocracia desde que aplicados aos outros.

2. Os "chefs" falam com acções. As palavras que eles dizem contam, mas conta sobretudo aquilo que fazem: "Lidero sempre a partir da frente. O pessoal da cozinha gosta sempre de ver o seu "chef" chegar antes deles, sair depois deles, e trabalhar sempre pelo menos o mesmo que eles, ou melhor ainda, trabalhar mais que eles.

3. Os "chefs" cuidam da equipa. A avaliação do mérito não é incompatível com a criação de um espírito de corpo: "É importante que saibam que me preocupo com eles e que tomarei conta deles". Ou seja, são duros mas preocupam-se.

4. Os "chefs" facilitam o desenvolvimento dos seus colaboradores. Mas sabem que o processo é duro e que tem regras: não aceitam liberdades criativas sem a sua concordância - "quero que reproduzam uma ideia ou um tema como se fossem autómatos". Mas à medida que provam o seu valor, recebem mais espaço para expressarem as suas próprias ideias.

5. Os "chefs" introduzem uma ordem extrema. Num restaurante não é possível saber que clientes chegam a que horas. Por isso, as coisas têm que estar rigorosamente organizadas e planeadas para que a reacção possa ser rápida e ordenada.

6. Os "chefs" sabem que o planeamento pode colapsar. Por isso, mantêm a atenção: "numa cozinha encontra-se o mesmo tipo de intimidade, lealdade, dependência e trabalho em equipa que se encontra nas situações em que pessoas boas são empurradas para uma situação de crise."

7. Os "chefs" instilam orgulho no trabalho. Como se pode ver se o restaurante está bem gerido? Há critérios óbvios: a comida chega quente, a tempo e na ordem certa. Mas, acrescenta Tony, há pistas subtis que chegam ainda antes da comida: "os empregados parecem ter orgulho naquilo que fazem."

Experimente agora o leitor trocar "chef" por chefe e veja se continua a fazer sentido.
"


A gestão ensinada às crianças e ao povo.
Se Salazar fosse o primeiro-ministro e Galvão Telles (1962-68) o ministro da Educação, substituíam a moribunda Área de Projecto e a sobrevivente, mas inútil, Formação Cívica dos 2º e 3º ciclos do ensino básico por uma disciplina de Gestão e punham este senhor Professor a formar os docentes. A começar pelos directores das escolas.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Entrevista ao reitor da Universidade Técnica de Lisboa


Fernando Manuel Ramôa Ribeiro, de 65 anos, reeleito por unanimidade reitor da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), onde estudam mais de 22 mil alunos, assinalou a sua tomada de posse com uma entrevista que é obrigatório ler.




Destacamos a parte das fusões de universidades e a necessidade de rankings:

Sente da parte dos outros reitores a mesma disponibilidade para falar de fusões?
O reitor da Universidade de Lisboa (UL) tem-na manifestado publicamente... Com os outros reitores não tenho falado.

Mas é inevitável que acabe por acontecer?
É inevitável se se preservar a autonomia das universidades, com o seu próprio modelo de gestão. Seria importante associar também todos os centros de investigação de Lisboa. Mas é naturalmente um processo longo. Estas fusões em França demoraram oito, nove anos a acontecer, porque há uma grande resistência das universidades.

Dou um exemplo: a UL não tem cursos de Economia nem de Gestão. Nós temos o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), que é a escola mais antiga nesta área... Mas a UL tem Direito. E nós não temos Direito. Já temos dito que era importante ter maior mobilidade de docentes de Direito para a nossa universidade e docentes de Economia e Gestão para a faculdade de Direito. Isso são coisas de que já estamos a tratar. E já há vários doutoramentos conjuntos, que têm sido um sucesso.

Em Portugal é preciso racionalizar o sistema de ensino superior. Há universidades a mais, politécnicos a mais, licenciaturas a mais, mestrados a mais. A agência da avaliação e acreditação do ensino superior (A3ES) tem feito um bom trabalho, mas não pode tomar decisões políticas.

Nos EUA, pelo menos até há algum tempo, para que uma universidade fosse criada tinha que ter dois milhões de pessoas à volta. Em Portugal se essa regra existisse... [no país existem 15 universidades públicas].

Há condições para começar já esse debate das fusões?
Vamos aguardar algum tempo e talvez dentro de seis meses possamos começar a discutir.

Significa transformar as instituições universitárias que existem em Lisboa numa só?
Ou não. Em França tem-se feito uma coisa: ter uma instituição chapéu, um reitor, ou um presidente da universidade, sendo que as universidades mantêm alguma da sua autonomia. Do ponto de vista externo aparece "Universidade de Lyon" — e houve fusões de faculdades, juntaram-se os centros de investigação, porque não se pode fazer investigação separada do ensino. Portanto, a ideia pode ser essa: haver um presidente único, em que as universidades de Lisboa possam numa fase inicial manter a sua autonomia, e ter uma "Universidade de Lisboa" ou "Técnica de Lisboa" — o nome, depois, será certamente motivo de discussão porque todos quererão manter o seu nome.

Isso significa acabar com cursos. Por exemplo: em vez de haver um curso de Ciências da Comunicação na Universidade Nova e outro na Técnica, passaria a haver um só.
Sim, por exemplo.

Serão precisos menos professores.
Poderia implicar a redução do número de professores, mas se os alunos aumentarem, não haverá grande redução. Em relação aos professores, há um assunto que neste momento acho muito mais complicado, que é a renovação do corpo docente. A idade média dos docentes na UTL é 50 anos. Penso que em Outubro será possível haver alguma renovação, porque 50 catedráticos e associados vão aposentar-se. E, portanto, vai-se libertar alguma verba para contratar professores auxiliares. É urgente contratar. Ainda por cima, temos jovens doutorados no estrangeiro de grande qualidade e não nos podemos dar ao luxo de perder os nossos melhores. Os grandes saltos dão-se com pessoas geniais e não podemos perder os nossos génios que estão no estrangeiro. É preciso sangue novo.

Constitucionalmente não é possível mandar fechar um curso que não tem empregabilidade. Devia ser possível?
Acho que sim. Na UTL temos valores de empregabilidade muito bons, o que significa que os nossos diplomas são muito valiosos — dados de 2006 a 2008 mostraram que os diplomados têm emprego assegurado no 1.º ano em 95% dos casos. Mas há instituições com cursos de empregabilidade muito baixa.

Fala muito de rankings, mas em Portugal não há rankings de universidades.
Falo muito de rankings ao contrário de alguns dos meus colegas.

Em Inglaterra existe um ranking feito todos os anos e nenhuma instituição acha mal que de um ano para o outro passe do 1.º lugar para o 4.º...

Quem pode fazer o ranking cá?
A própria A3ES pode ter esse papel. Vai ter muita informação sobre os centros de investigação, os cursos, as licenciaturas que são más. Não sei se o professor Alberto Amaral [o presidente da agência] se quer meter nisso, mas a A3ES é um organismo que todos consideramos isento.

Quem tem medo dos rankings é quem tem pouca qualidade?
Não queria ser tão forte nessa afirmação. Vai haver um ranking europeu, que está a ser preparado pela Comissão Europeia, e nós temos que entrar. As instituições que não apanharem o comboio ficarão afastadas da participação nos grandes projectos comunitários. É minha intenção nomear um pró-reitor para os rankings que terá entre outras funções a de estudar os rankings internacionais, estar atento, perceber por que é que por vezes não aparecemos...


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Vão emigrar os licenciados de que o país mais precisa


Recentemente foi noticiado que a Alemanha quer contratar jovens licenciados portugueses e espanhóis.

A Alemanha não quer licenciados em Literaturas Modernas, Relações Públicas, Relações Internacionais, Sociologia, Antropologia, História, Filosofia, Direito, Ciências Políticas, Economia, Gestão, Educação pré-escolar, Ensino do 1º e 2º ciclos (pelo politécnico), Ensino do 3º ciclo e secundário (pelas universidades), Ciências da Educação e outros cursos análogos.
O que a Alemanha precisa é licenciados em Matemática e Computação, Física, Química, Engenharias Mecânica, Electrotécnica e Telecomunicações ou Informática e Computadores e em Enfermagem ou Medicina.

Isto significa que vamos assistir à emigração dos poucos licenciados que sabem produzir bens ou serviços de alto valor acrescentado para consumo interno ou exportação e cuja formação ficou cara aos contribuintes porque exige equipamentos onerosos que só as universidades públicas possuem.

E vamos ficar com aqueles que se formaram com o objectivo de entrar no funcionalismo público, em especial para o ministério da Educação, ou enveredar por uma carreira política e de que as empresas não necessitam e as Administrações Central e Local, ambas sobrelotadas, também não.
Os políticos entulharam, com este tipo de licenciados, os gabinetes ministeriais e os dos grupos parlamentares, os institutos, as agências e as fundações públicas, as empresas do sector empresarial do Estado e as empresas municipais, mas não conseguem empregar todos. Ainda podiam criar um novo estrato de funcionalismo público previsto nos artigos 255.º a 262.º da Constituição da República — as regiões administrativas —, mas os eleitores recusaram-no em referendo.
Só se 'esqueceram' da solução óbvia: diminuir o número de vagas no ensino superior para os cursos de que o tecido empresarial não precisa... Pois, mas isso ia mexer com o lobby mais poderoso do país a seguir à banca — o ‘eduquês’ — dono do ministério da Educação há três décadas e capaz de constranger o próprio ministro do Ensino Superior, Mariano Gago.

Regressando ao problema migratório, ainda há outra faceta que ninguém aborda por ser politicamente incorrecta: é a imigração proveniente de vários países africanos e do Brasil.
São, em geral, pessoas com reduzidas qualificações que desempenham tarefas em limpezas, obras públicas, estão desempregadas ou a receber o RSI.
A maior parte nem o próprio nome sabe escrever, enchem os cursos de alfabetização e as turmas B1, B2 e B3 (equivalentes aos 1º, 2º e 3º ciclos do ensino diurno) do curso Novas Oportunidades com o qual o Estado está a gastar rios de dinheiro, tanto no pagamento de vencimentos aos docentes como na sustentação de uma multiplicidade de empresas privadas, meras parasitas que vivem à sombra do orçamento do Estado.

Temos um país cuja dívida directa do Estado ascendia em Dezembro a 152 mil milhões de euros, cerca de 90% do PIB se este mantiver os valores de 2009, e que se prevê venha a sofrer a curto prazo uma intervenção do FMI porque o gráfico das taxas de juro da dívida soberana a dez anos parece o perfil do monte Everest.
Pois este país vai exportar licenciados de alto valor cuja formação custou cara ao erário público e continua a importar trabalhadores pouco qualificados a quem tem de dar uma formação básica.
Parece que os nossos políticos só vão aperceber-se deste contra-senso quando a tensão social se agudizar.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O projecto WindFloat, ou de projecto em projecto até à vinda do FMI


"A EDP, a InovCapital e a Principle Power, Inc. assinaram um acordo de projecto e um contrato em regime chave‑na‑mão, para a implantação do primeiro WindFloat à escala real equipado com um aerogerador de 2 megawatt (MW), ao largo da costa portuguesa.
A EDP, a InovCapital, a Principle Power, a Vestas Wind Systems A/S, a A. Silva Matos (ASM) e o Fundo de Apoio à Inovação (FAI) são alguns dos parceiros deste projecto
", refere um comunicado da EDP.

Com um custo de 18,4 M€, este projecto será financiado pelos vários parceiros, receberá um subsídio a fundo perdido do Fundo de Apoio à Inovação e prevê a instalação do protótipo na Aguçadoura, num parque EDP ligado à rede, até ao próximo Verão.

Recorde-se que neste local, junto à Povoa de Varzim, foi instalado o primeiro parque de ondas do mundo. Inaugurado em Setembro de 2008 pelo ministro da Economia, Manuel Pinho, e situado a 5 km da costa, o parque tinha três máquinas Pelamis que convertiam a energia cinética das ondas em energia eléctrica, com a potência máxima de 2,25 MW. Em Novembro as máquinas foram retiradas do mar devido a problemas técnicos e levadas para terra. Consta que o seu custo ascendeu a 9 M€.





Em Fevereiro de 2009, três meses após o fracasso do projecto Pelamis, a EDP assinou um acordo preliminar com a americana Principle Power para desenvolver um novo projecto pioneiro — um parque eólico flutuante ao largo da costa portuguesa.
Ora a energia eléctrica gerada em parques eólicos marítimos custa actualmente mais 50 a 100 por cento que nos parques eólicos em terra, de acordo com um relatório recente da Capgemini. Porquê investir no offshore? Porque ''a energia eólica marítima é uma das nossas prioridades de inovação'', disse, então, o presidente executivo da EDP, António Mexia. Havia, porém, outro motivo.





O WindFloat é uma estrutura flutuante patenteada para suporte de aerogeradores offshore que atenua os movimentos induzidos pelas ondas e pelos aerogeradores/vento, permitindo instalar aerogeradores em locais onde a água excede os 50 m de profundidade.
Para avaliar o comportamento do WindFloat com o aerogerador offshore Vestas V80 de 2,0 MW fornecido, instalado e comissionado pela empresa dinamarquesa Vestas, realizar-se-ão estudos de comissionamento, operação e manutenção por um período não inferior a 12 meses.

Se o projecto tiver sucesso, "a EDP estará mais bem posicionada para superar os desafios da energia eólica offshore em todo o mundo", afirmou António Mexia, CEO da EDP, citado no comunicado.
Por seu lado, Alla Weinstein, presidente e CEO da Principle Power, empresa responsável pela execução do projecto, afirmou que "nós, na Principle Power, congratulamo‑nos por a EDP adoptar esta tecnologia facilitadora na sua fase inicial. Consideramos o Governo de Portugal e a indústria portuguesa parceiros no desenvolvimento de tecnologias eólicas offshore capazes de suprir a procura portuguesa e mundial de energias renováveis".
Juan Araluce, presidente da Vestas Mediterranean, concluiu: "É com satisfação que anunciamos esta cooperação com a Principle Power e com o Grupo EDP, um dos nossos principais clientes a nível mundial. Trata-se de um projecto precursor na região mediterrânica. Os seus resultados poderão facilitar a implementação de boas práticas na região e noutras zonas do mundo".

Se não tiver sucesso, o cidadão consumidor de energia eléctrica paga novo aumento das tarifas.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A admirável energia eólica


Enquanto o planeta Terra existir, haverá vento e a água dos rios vai correr para o mar... Sendo a água e o vento duas fontes inesgotáveis de energia, classificamos a energia hídrica e a energia eólica como renováveis.

A água de um rio pode armazenar-se, construindo uma barragem no seu leito, e ser turbinada quando a energia eléctrica fizer falta, mas o vento não.
Se o vento soprar, as turbinas eólicas entram em rotação e os geradores acoplados produzem energia eléctrica. Se não houver vento, nada feito. Era preciso armazenar esta energia de alguma forma.
Surgiu a ideia de gastar a energia eléctrica de origem eólica, nas horas de baixo consumo, na bombagem de água dos rios para as albufeiras das barragens. Investir em energia eólica obriga, portanto, a um investimento em centrais hidroeléctricas reversíveis, i.e. cujas turbinas rodem nos dois sentidos.

Acontece que o nosso país tem o vento de melhor qualidade na sua orla costeira e ventos marítimos arrastam humidade que se converte em chuva em regiões com relevos. Logo há uma correlação entre chuva e vento, como os gráficos seguintes demonstram:




O resultado é que a albufeira vai receber água do rio de ambos os lados da barragem: de montante, porque está a chover, e de jusante, por bombagem para armazenamento da energia que as torres eólicas estão a produzir, porque há vento.
Quando encher será inevitável abrir as comportas da barragem e a água que foi bombeada para a albufeira depois vai correr, sem ser turbinada, para o mar.

Mesmo em épocas de seca as perdas de energia por atrito tornam a bombagem um processo pouco eficiente.

No norte da Europa, países com extensas regiões planas onde não podiam construir barragens, como a Dinamarca e a Alemanha, desenvolveram uma indústria de turbinas eólicas com tecnologia própria.
O negócio começou a interessar empresas lusas bem apoiadas em generosos subsídios do Estado, primeiro na fase de instalação dos parques eólicos, e depois no preço de compra pela EDP da energia eléctrica produzida por esses parques. Nunca foi desenvolvida tecnologia nacional, contentando-se o país em ser o líder mundial... na importação de turbinas eólicas.
O objectivo era atingir a quota de 20% de energia eléctrica de origem eólica, tal como acontece na Dinamarca. Lamentavelmente esqueceram-se de olhar para este mapa:

Recursos eólicos europeus a 50 m acima do nível do mar. Copyright © 1989 by Risø National Laboratory, Roskilde, Denmark.


Quando perceberam que o vento nos países meridionais (PIGS) não estava pelos ajustes, alargaram o campo de visão e descobriram que podiam caçá-lo a uma dezena de quilómetros ao largo das costas:

Recursos eólicos europeus em mar aberto. Copyright © 1989 by Risø National Laboratory, Roskilde, Denmark.


Só há um problema: a energia eléctrica gerada em parques eólicos marítimos é, obviamente, muito mais cara que nos parques eólicos em terra. Nada que o cidadão consumidor de energia eléctrica não possa resolver, pagando novo aumento das tarifas.


O governo suíço rege-se por código de ética


"Na sexta-feira, imediatamente após a demissão de Hosni Mubarak, o governo federal de Berna ordenou aos bancos suíços o congelamento de todos os activos que possam pertencer ao ex-presidente ou seus familiares.

A decisão da Suíça, válida por três anos, foi apoiada na segunda-feira por Jean-Claude Junker, o presidente do Eurogrupo, por Londres e Paris quando foi anunciado que as autoridades militares do Cairo tinham solicitado o congelamento de fundos eventualmente pertencentes a associados de Mubarak.

Idêntico pedido chegou a Washington, mas também neste caso não é claro se abarca expressamente bens de Mubarak e seus familiares.

Desde a entrada em vigor, a 1 de Fevereiro, da "Lei de Restituição de Bens Ilícitos", aprovada em Outubro de 2010 pelo parlamento suíço, a federação helvética reforçou consideravelmente os dispositivos de combate ao desvio e lavagem de dinheiro.

A legislação helvética permite o congelamento de bens suspeitos, mesmo no caso de determinados estados não terem capacidade para fazer prova de actos criminosos dos detentores de activos financeiros ou imobiliários na Suíça.

No caso de o suspeito não conseguir provar que adquiriu bens por via legal, a justiça suíça reserva-se o direito de os expropriar e reverter esses fundos para o estado lesado, através de programas de ajuda ao desenvolvimento de comprovado interesse público.

Na sequência de processos judiciais para recuperação de fundos desviados por políticos que remontam a 2002 como o caso Vladimiro Montesinos — chefe dos serviços secretos peruanos durante a presidência de Alberto Fujimori —, passando pelas fortunas de Marcos, Mobutu, Abacha ou Jean-Claude Duvalier, a justiça suíça devolveu aos estados lesados cerca de 1,8 mil milhões de dólares.
"


As chefias nas escolas são um sumidouro de dinheiro III


Acontece que através do Regulamento Interno (RI) pode fazer-se crescer exponencialmente o número de cargos, fixando um número reduzido de docentes para criar um novo cargo.
Vejamos um dos artigos do RI, com oitenta e cinco (85!) páginas, de certo agrupamento de escolas, redigido e aprovado pelos membros do Conselho Pedagógico (grupo de compadrio nomeado, legalmente, pela directora):

"SECÇÃO IV
Representantes de Grupo Disciplinar/Conselho de Ano
Artigo 58.º
Funcionamento
1‐ Para coadjuvar os Coordenadores dos Departamentos Curriculares existem representantes do grupo disciplinar, designados pelo Director por um período de quatro anos de entre os professores que fazem parte do grupo disciplinar, de acordo com os seguintes critérios:
a) Existência de dois ou mais docentes no respectivo grupo disciplinar;
b) Os representantes do grupo disciplinar, não devem pertencer ao mesmo grupo disciplinar do coordenador de departamento.
2‐ Os representantes do grupo disciplinar dispõem de redução para o exercício das suas funções, nos termos da lei em vigor.
3‐ O mandato dos representantes das estruturas acima mencionadas pode cessar, a todo o tempo, por decisão fundamentada do Director, ouvido o Conselho Pedagógico, ou a pedido do interessado no final do ano lectivo.
4‐ O grupo disciplinar reúne, ordinariamente, uma vez por mês e, extraordinariamente, sempre que seja convocado pelo seu representante, por sua iniciativa, a requerimento de um terço dos respectivos membros.”

Agora apliquemos este artigo a um dos seis departamentos — Departamento de Matemática e Ciências Experimentais (DMCE) — que tem 25 docentes:

2º ciclo
Matemática: 5 docentes representados pelo coordenador do DMCE.
C. Natureza: 4 docentes, um dos quais é o representante deste grupo disciplinar.
3º ciclo
Matemática: 4 docentes, um dos quais é o representante.
C. Físico-Químicas: 3 docentes, um dos quais é o representante.
C. Naturais: 3 docentes, um dos quais é o representante.
Tecnologias da Informação e Comunicação: 2 docentes, um dos quais é o representante.
Curso Novas Oportunidades (NO)
Matemática para a Vida: 2 docentes, um dos quais é o representante.
Tecnologias da Informação e Comunicação: 2 docentes, um dos quais é o representante.

Conclusão: em 25 docentes há oito chefias intermédias, uma delas em acumulação com a coordenação do DMCE.

Quem abriu esta caixa de Pandora? Lurdes Rodrigues com o DL 75/2008 (gestão escolar) que legalizou e deu um poder ilimitado aos grupos de compadrio que sempre povoaram as escolas.
Estes cargos são, certamente, irregulares, sobretudo os do curso NO.
No entanto, ao lermos noticias como esta verificamos que mesmo pessoas que ocuparam, ou ocupam, posições de relevo na política — Mário Soares, Veiga Simão, o ex-ministro da Educação David Justino e Suzana Toscano, assessores do Presidente da República Cavaco Silva — não denunciam abertamente estes factos e apoiam quem mais contribuiu para a destruição da qualidade na escola pública.

Defendemos que os directores e os coordenadores de departamento sejam eleitos, como antigamente, pelos seus pares? Não, porque os grupos de compadrio já existiam nas escolas e, sempre que podiam, procuravam aceder aos privilégios e mordomias associados aos cargos.

Preconiza-se a formação de um governo com pessoas que se tenham destacado nas suas profissões, mas cuja história de vida mostre claramente que alcançaram essa posição de relevo profissional por mérito e não subiram à sombra de partidos políticos.
O ministério da tutela depois nomearia uma cadeia hierárquica nas escolas por um critério de mérito, exigindo a prestação de provas públicas nacionais aos directores, no domínio da gestão, e aos coordenadores de departamento, no domínio de conhecimentos científicos relativos às múltiplas disciplinas englobadas pelos seus departamentos.


As chefias nas escolas são um sumidouro de dinheiro II


Depois da Resolução do Conselho de Ministros 44/2010 ter desencadeado a criação de agrupamentos verticais, por fusão de agrupamentos de escolas do ensino básico com escolas do ensino secundário, do Despacho 18063/2010 ter alterado o número de directores-adjuntos e do DReg 5/2010 ter revisto o montante dos suplementos remuneratórios, torna-se necessário actualizar este artigo.

Nas escolas secundárias predominam os docentes com formação superior universitária, que determina uma cultura científica mais aprofundada, e esta característica leva-os a privilegiar a reflexão sobre os conteúdos programáticos das disciplinas que leccionam em detrimento de tarefas administrativas.
Já os docentes das escolas básicas provêm sobretudo do ensino superior politécnico e manifestam um certa apetência pela parte administrativa da educação, resistindo mal à carga burocrática imposta às escolas pelo ministério da Educação, com o beneplácito dos senhores sindicalistas.
Portanto a fusão das escolas do ensino básico com as escolas secundárias teria redundado numa melhoria da qualidade do ensino se a direcção fosse confiada a estas últimas. Em várias fusões aconteceu justamente o oposto mas, pelo menos, diminuiu o número de direcções.
No entanto, uma tosca estimativa mostra que, no ano lectivo 2011/12, vai continuar o despesismo:

Cada agrupamento de escolas/escola não agrupada tem uma direcção composta por 1 director e ainda 1 subdirector, 2 directores-adjuntos e 1 representante dos cursos nocturnos nomeados pelo director.
Em média, cada subdirector, ou director-adjunto, recebe €1500 de remuneração líquida (remuneração bruta €2277,93 ⎯ 6º escalão) e €200 de suplemento remuneratório líquido (subdirector €300, director-adjunto €250 ⎯ escola com 901 a 1800 alunos, no próximo ano lectivo) o que dá

1500x14 + 200x12 = 23 400 euros

Existem cerca de 1400 agrupamentos/escolas não agrupadas, donde

23 400x1400 = 32 760 000 euros

Ora se desaparecessem os dois directores-adjuntos não se ia dar pela falta, pois existem ainda 6 coordenadores de departamentos, director de biblioteca, coordenadores de escolas do 1º ciclo, coordenadores de ano nas escolas do 1º ciclo, coordenadores dos directores de turma do 2º ciclo, coordenadores dos directores de turma do 3º ciclo, directores de turma (um por cada turma), directores de projectos, assessores técnico-pedagógicos, ... , todos com os correspondentes suplementos remuneratórios ou reduções de horário para exercerem as suas funções. Um agrupamento com 1200 alunos tem cerca de 120 docentes.

Os antigos liceus nacionais eram dirigidos apenas por dois professores, 1 reitor e 1 vice-reitor, e não dispunham de meios informáticos, nem sequer de uma calculadora. Portanto a eliminação, apenas, dos directores-adjuntos permitiria poupar anualmente 65 milhões de euros sem perda de qualidade no ensino. Pelo contrário, quanto mais burocratas a escola tiver, pior será a qualidade do ensino.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A brincar se dizem coisas sérias


Desde que os mercados financeiros souberam que, ao contrário dos 5,9% anunciados, o défice orçamental de 2009 ascendia a 9,4%, o país perdeu toda a credibilidade e as taxas de juro das Obrigações do Tesouro a dez anos dispararam:



Neste gráfico interactivo, onde podemos ver as yields máxima, mínima, de abertura e fecho, escolha-se a opção 5Y: no ano 2010 começámos a subir o monte Everest.


Vamos sublimar: Quando o sujeito parar, depois de muitas contorções e cambalhotas, pegue-lhe e recomece a queda. Aprecie aquele riso característico dos alunos cábulas!





segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Exportar é preciso




Cavaco Silva e presidente alemão na Autoeuropa
Quinze anos depois de ter inaugurado a Autoeuropa, o Presidente da República Cavaco Silva voltou acompanhado pelo Presidente da Alemanha, que está de visita oficial a Portugal.
A fábrica da Volkswagen Autoeuropa em Palmela, o maior investimento estrangeiro até hoje feito em Portugal, exporta 95% da produção.
Cavaco Silva apontou esta fábrica como um caso de sucesso que Portugal deve apresentar ao mundo para captar mais investimento estrangeiro. O presidente alemão apelou para que mais carros produzidos em Palmela sejam vendidos no nosso país. No final, o Presidente da Alemanha saiu num Volkswagen e Cavaco Silva num BMW.




Carteiros dinamarqueses calçam sapatos portugueses
Os carteiros da Dinamarca calçam sapatos portugueses. A marca pertence a uma empresa de Guimarães que fabrica calçado de segurança.
Em 2010 a fábrica facturou cinco milhões de euros e exportou 90% do que produziu.




Portugal Fresh na maior feira mundial de frutos e legumes
Vinte e três empresas portuguesas produtoras de frutos e produtos hortícolas juntaram-se, em Berlim, para promoverem a produção agrícola portuguesa entre 2300 empresas de todo o mundo. Portugal Fresh foi a marca nacional para atrair mercados internacionais. Entre os produtos expostos esteve a maçã bravo de esmolfe que apenas existe em Portugal.
O sector de frutos e legumes exportou 800 M€ em 2010.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

"Rumo à Profissão"


"Durante cerca de 14 meses, ocupei um posto de trabalho por conta de outrem numa empresa da área da publicidade, comunicação e eventos; dessa experiência, guardo memória das minhas primeiras conclusões acerca dessa dita indústria, poucas vezes (para mal das minhas próprias pretensões) criativa.
Registei o conhecimento adquirido sobre concursos que são metáforas sobre a "transparência", com os vencedores a não cumprirem um único item do "briefing" e clientes — representantes pagos pelo sector público — sem a menor preocupação com isso; registei a ausência completa de qualquer estratégia de recursos humanos, sustentada pela velada chantagem do desemprego (nada como um mal ainda maior para "meter as tropas em alerta"); aprendi que o sucesso de muitos negócios não tem nada a ver com o que realmente "produzem", mas muito mais com "para quem trabalham", e que estas transferências de dinheiro do erário público para o bolso privado mais não são do que a mais hipócrita forma de subsídio encapotado, atrás dos acessórios e adereços com que se constrói uma muito questionável "imagem de sucesso".
Uma espécie de "nouveau pato-bravo" que, ao contrário do seu antecessor dos anos oitenta, desta feita se esconde atrás dos "conceitos inovadores" em vez da "obra feita".
"


Eis um testemunho que alerta para a existência de um falso sector privado, aquele que trabalha quase exclusivamente para o Estado e mais não é senão uma excrescência desse mesmo Estado.

Quer saber, caro leitor, quem são estas empresas privadas?
Contam-se por vários milhares, cresceram como cogumelos após a chuva nos últimos seis anos, estão em www.base.gov.pt, movem-se nos domínios da publicidade, comunicação e eventos, da restauração e catering, da advocacia, da informática, ...
E se tiver a pachorra de ler alguns destes artigos — Os jantares da ANACOM, A festança dos 160 anos da DGCI ou O negócio das Novas Oportunidades — pode descobrir o nome de muitas delas.
Mudam de cor tal como os camaleões, tanto podem reflectir o rosa socrático ou o laranja santanista, o que não há ali é uma única empresa que saiba produzir bens exportáveis...


Louçã está a pôr o carro à frente dos bois


Primeiro, Francisco Louçã deve tentar reduzir o número de deputados de 230 para 180, o que é permitido por este artigo da Constituição da República:
"Artigo 148.º
(Composição)
A Assembleia da República tem o mínimo de cento e oitenta e o máximo de duzentos e trinta Deputados, nos termos da lei eleitoral."

E que diz a Lei Eleitoral da Assembleia da República?
"Artigo 13º
Número e distribuição de deputados
1 — O número total de deputados é de 230."
Basta alterar dois algarismos no nº 1 deste artigo e basta o voto de metade dos deputados!
Proponha primeiro esta alteração, senhor deputado Francisco Louçã. Depois, que venha a moção de censura.

Que ninguém pense que os eleitores são tão fáceis de enganar como há meia dúzia de anos atrás. Vivemos na Idade da Web e hoje temos acesso a muita informação.
Sabemos que existem 18 distritos e duas regiões autónomas, portanto dando a cada um destes círculos eleitorais 5 mandatos, em média, concluímos que 100 deputados era mais do que suficiente para aprovar a legislação do país. É preciso não esquecer que as leis são elaboradas em escritórios de advogados associados aos partidos, os deputados limitam-se a aprová-las obedecendo às ordens das cúpulas partidárias.

Mas também sabemos que a Constituição exige o acordo de dois terços dos deputados para fazer esta redução:
"Artigo 286.º
(Aprovação e promulgação)
1. As alterações da Constituição são aprovadas por maioria de dois terços dos Deputados em efectividade de funções."
Ora dois terços dos deputados estão nas mãos do PS e do PSD e nunca estes partidos, que nem sequer aceitam reduzir o número de deputados para 180, vão aceitar uma redução para 100.

Mas nós, eleitores anónimos, demos 13,2% ao Fernando Nobre, 4,2% ao José Coelho e 6% de votos em branco/nulos, ou seja, 13,2+4,2+6 = 23,4% dos votos.
Bom, é verdade que os políticos atiram para o caixote do lixo os votos brancos/nulos e dizem que demos 14,1% ao Fernando Nobre e 4,5% ao Coelho. Mas nós sabemos que é uma aldrabice legal.
Acontece que a lei eleitoral da Assembleia da República não nos deixa votar em candidatos fora das listas dos partidos. Também não adianta lançar novos partidos para a Assembleia da República, dentro de um par de anos já actuam como as "famílias" que lá estão e começam a pôr os interesses partidários à frente dos interesses nacionais.

É preciso delinear uma nova estratégia, talvez envergonhá-los ou pregar-lhes um bom susto.
Comecemos por envergonhá-los. Mas não vamos ficar em casa. Vamos anular o nosso voto escrevendo um gigantesco 100 deputados no boletim de voto. Serão 23,4% de votos nulos, sempre há-de causar alguma mossa aos incompetentes e inúteis que aprovam as nossas leis. Resta saber se têm vergonha na cara...

Quanto às razões fundamentais da moção de censura que o BE vai apresentar contra o Governo a 10 de Março que, segundo Francisco Louçã, vão ser "salvar o país e as gerações que estão a ser destruídas pelas medidas que o Governo apresenta para promover a facilidade dos despedimentos" e defender "uma geração de trabalhadores, jovens cientistas que vivem à procura da bolsa e trabalhadores qualificados que vivem à espera do recibo verde" só podemos concordar.


A opinião dos outros:

concorde 12 Fevereiro 2011
Tristeza
É uma tristeza a política em Portugal. Vale tudo para aparecer na TV. Este homem (já ouvi dizer que era inteligente) devia ser internado e tratado. Para bem dele e do país.

cad7 13 Fevereiro 2011 - 10:45
Louçã
É simplesmente um economista singular cujo curriculum académico excede largamente o curriculum de outros economistas tidos como referência, por exemplo, Cavaco. Pensa diferente e o seu pensamento deverá ser respeitado e, eventualmente, reflectido e combatido com argumentos e não aleivosias.
Para os seus detractores, direi apenas que num recente congresso onde pontificavam economistas liberais, Louçã foi o único economista português a merecer o convite da organização (liberal) para estar presente. Pode-se discordar dele, e eu discordo algumas vezes, mas insultos são dispensáveis e só demonstram a ignorância e insensatez de quem os produz.
Já agora, o que diz Louçã de errado quando afirma que Portugal é um país mais desigual que o Egipto? Onde está a estupidez de tal afirmação?
Vivemos com mais de 2.000.000 de pobres e outros tantos, mesmo a trabalhar, a caminho da pobreza, numa população de 10.000.000...
Os argumentos de Louçã podem não ser válidos e podem merecer discordância. Até aqui tudo bem. Mas a pobreza em Portugal é uma invenção dele?

joaopires5 13 Fevereiro 2011 - 10:58
Discordo em grande parte da política económica e de alguma política social do BE ...
... mas aqui Louçã tem razão. É preciso que este governo caia o mais rapidamente possível.
Só um presidente da República totalmente desumanizado pode prolongar a agonia em que vive o povo tuga.

almeida 13 Fevereiro 2011 - 11:37
O coveiro dos trabalhadores
O Estalinista Louçã, arauto do quanto pior melhor, está-se borrifando para os trabalhadores e funcionários públicos. Transformou-se num agente intermediário da direita a quem vai entregar de mão beijada o poder/governo para no dia seguinte aparecer aqui o FMI a exigir despedimentos em massa na função pública e redução maior em todos os vencimentos.
Passos e Portas não podiam ter melhor aliado do que o Estalinista Louçã que mais não é do que o coveiro dos que trabalham.

zeferinozacarias 13 Fevereiro 2011 - 15:49
Razão quanto à moção
Que a moção traga a remoção de todos os que desgovernam o País.
O resto, a comparação com o Egipto, é demasiado faraónico para o enquadramento. Este senhor não sabe parar, no momento oportuno, o seu exacerbado discurso.

cad7 13 Fevereiro 2011 - 19:34
Leio aqui ataques ...
... a Louçã, uns que reflectem a tempestividade da moção e outros que atacam a pessoa e rotulam-no de causador de todas as desgraças. É só fazer uma incursão na história para ver que tais afirmações, não têm nenhuma credibilidade.
Não foi ele que destruiu as pescas, a pecuária e a agricultura. Parece que foi um senhor de nome Cavaco Silva que, ao tempo, ao invés de proteger as cláusulas de salvaguarda que ainda hoje funcionam para alguns países da comunidade, mandou Álvaro Barreto trocar quotas por euros.
Outrora tínhamos 90.000 produtores de leite e agora temos 8.000 em crise. Outro exemplo, o porto de Peniche tem, se tiver, 10 traineiras na faina e antes tinha mais de 100. Claro está que agora adulamos a Pescanova...
Meus senhores, pode-se discordar de Louçã, mas imputar-lhe culpas que não tem é, no mínimo, caricato. Há muitas, mas muitas referências, que são um autêntico bluff. Até a Igreja se insurge contra os cretinos e não me parece que Louçã seja um deles.
Leio, ainda, aqui que Louçã é um estalinista, lol. Para este comentador, com todo o respeito, dir-lhe-ei que a LCI/PSR, de onde Louçã veio, era a única força política de esquerda que, conjuntamente com o PSD, tinha nos seus estatutos o direito de tendência, na mais clara alusão à democraticidade interna desses partidos.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Quarenta anos depois


Li a letra da canção “Parva que sou” nas caixas de comentários do JN e, embora reconhecendo que retrata a situação da maior parte dos jovens licenciados, pareceu-me pobrezinha e não consegui interessar-me pelo tema.
Ontem, outro comentador voltou a falar na canção e deixou um link para o Youtube. Segui-o com a ideia de fazer uma avaliação à música, reprová-la definitivamente e pôr uma pedra sobre o assunto.
O choque emocional foi de tal grandeza que me fez regressar quarenta anos atrás quando ouvi "Os Vampiros".

Decidi procurar e ouvir outras interpretações do grupo Deolinda e detestei. Parece-me que não têm capacidade criativa para conceber outra cantiga como esta. Mas que ninguém subestime “Parva que sou” porque tem uma força excepcional e vai transformar-se no hino de uma geração que se ludibriou ou foi ludibriada.
Avaliem:




Os Vampiros
José Afonso — 1963
Composição: José Afonso

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada



Parva que sou
Deolinda — 23 Jan. 2011
Música e letra: Pedro da Silva Martins

Sou da geração 'sem remuneração'
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou...
Porque isto está mau e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou...
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, p'ra quê querer mais?
Que parva que eu sou...
Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou...
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração ‘vou queixar-me p'ra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou...
Sou da geração ‘eu já não posso mais
que esta situação dura há tempo demais!’
E parva eu não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.




A Idade da Web


Antes do uso da escrita, a vida das comunidades humanas só é conhecida através das armas e utensílios que usavam. A partir dos materiais usados no seu fabrico, dividem-se os tempos pré-históricos em:
  • Idade da Pedra;
  • Idade dos Metais.

Já os tempos históricos costumam dividir-se por acontecimentos notáveis:
  • História Antiga, desde o uso da escrita até 476, ano da queda do Império Romano do Ocidente;
  • História Medieval, ou Idade Média, desde 476 até 1453, ano da queda do Império Romano do Oriente;
  • História Moderna, desde 1453 até 1789, início da Revolução Francesa;
  • História Contemporânea, desde 1789 até 25 de Dezembro de 1990, dia em que Tim Berners-Lee estabeleceu a primeira comunicação entre dois computadores, um servidor e um cliente, usando o HTTP, através da Internet;
  • História da Word Wide Web, a partir de 1990.

Estamos a presenciar o nascimento de um novo tempo histórico: a Idade da Web.


A Internet é uma rede de cabos e computadores regida por protocolos






Timothy Berners-Lee, físico britânico, investigador de Ciência da Computação e professor do MIT, estabeleceu a primeira comunicação entre dois computadores, um servidor e um cliente, usando o HTTP (Hypertext Transfer Protocol) através da Internet.





Em Março de 1989 enviou aos seus colegas do CERN (Conseil Européenne pour la Recherche Nucléaire) um documento com a proposta.

Foi neste computador NeXT do CERN que Berners-Lee criou dois softwares essenciais: o editor-navegador para produzir e ler o hipertexto dos documentos HTML (Hypertext Markup Language) guardados em computadores da Internet e o programa para enviar a informação, chamado servidor.
O editor-navegador foi chamado WorldWideWeb e este computador histórico, concebido pela NeXT, uma empresa de Steve Jobs, tornou-se no primeiro servidor web mundial.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um país em putrefacção pode não cheirar mal


Uma senhora de 87 anos deixou de ser vista pelos vizinhos. O prédio onde vivia, há cerca de 30 anos, tem cinco andares com três apartamentos cada, todos habitados. Pagou o condomínio, pela última vez, em Agosto de 2002.

Uma vizinha, tendo notado a sua ausência, reparado que a caixa do correio estava cheia e havia, no chão, cartas da Segurança Social com os vales da sua pensão, decidiu participar o seu desaparecimento à GNR de Rio de Mouro, em 12 de Novembro de 2002. Disseram-lhe que não podiam abrir a porta, mas ninguém estava lá dentro morto pois não cheirava mal.
O processo ficou com o registo 2274/2002 NUIPC 1086/07.2 TQSNT.

A vizinha resolveu, então, procurar alguém da família da senhora e conseguiu encontrar alguns sobrinhos. Um familiar participou o caso à PSP de Sintra, mas explicaram-lhe que era preciso ordem do tribunal para abrir a porta do apartamento.
Ninguém investigou. Passaram quase nove anos.

Na terça-feira uma agente da PSP foi chamada para auxiliar à penhora de um apartamento, na Rinchoa, que tinha sido vendido por 30 000 euros num leilão realizado pelas Finanças, por causa se uma dívida de 1475 euros.
No local estava um funcionário das Finanças, a nova proprietária do apartamento, que o ia visitar pela primeira vez, e um serralheiro com a incumbência de arrombar a porta. Mas a porta não abriu totalmente porque uma corrente de segurança o impediu. Tiveram de arrombar a corrente para entrarem no apartamento.
No chão da cozinha encontraram o corpo da senhora, em avançado estado de decomposição. O seu animal de companhia, um cão, estava também morto na varanda.


"Sabemos que houve uma participação feita na GNR de Rio de Mouro, através de uma vizinha. Sei também que, de facto, houve um familiar que procurou a GNR, mas como não tinha chave não se conseguiu entrar no apartamento", disse uma fonte da PSP contactada pela agência Lusa.
Segundo esta fonte, em casos de suspeita de falecimento de idosos, o procedimento habitual passa por contactar familiares ou, se não houver família, solicitar autorização ao Ministério Público.
Acrescentou que "este caso é muito estranho. Não é normal ninguém ter detectado maus cheiros vindos da habitação".

A Lusa procurou obter do Ministério das Finanças e da Administração Pública uma explicação sobre a venda do apartamento num leilão sem uma avaliação prévia, sem que ninguém tenha entrado no imóvel antes da realização do leilão. O gabinete de imprensa respondeu que "a administração fiscal actuou sempre dentro da legalidade e com o zelo e a prudência aconselhados pelas várias circunstâncias".
Não é essa, porém, a opinião de alguns fiscalistas que consideram que o processo de penhora da casa pode ser anulado.

A mentira e a hipocrisia reinam neste país. E a função pública (tanto o sector administrativo como o sector empresarial do Estado), pela voz das chefias, dá o pior exemplo.


Anónimo. 10.02.2011 00:51 Via PÚBLICO
Incompetentes
País governado por incompetentes, incapazes e irresponsáveis! O mais curioso, ainda, é que nunca há responsáveis por estas coisas. Ainda para mais a máfia das finanças mete as coisas em leilão sem se dar ao trabalho de fazer qualquer tipo de investigação. Têm que meter isto nos recordes do guiness, no tópico 'record da estupidez'.


FMFM. 10.02.2011 02:13 Via PÚBLICO
Que estranha gente, que esquisito país
Em pleno século XXI, num país europeu! A ninguém passou pela cabeça que uma senhora com quase noventa anos não poderia ir longe sozinha! A ninguém passou pela cabeça pedir ao juiz do tribunal um mandado de busca. Se a senhora desapareceu e não aparecia em lado nenhum, as buscas teriam de começar pela casa para, no mínimo, encontrar aí uma pista para tentar descobrir para onde poderia ter ido. Ninguém na vizinhança, à excepção de uma vizinha, se preocupou, os agentes da autoridade, que foram informados do seu desaparecimento, não se incomodaram — que estranha gente, que esquisito país!

Anónimo. 10.02.2011 Via PÚBLICO
RE: Que estranha gente, que esquisito país
As pessoas não são estranhas, algumas tornaram-se indiferentes como forma de se protegerem e de não levantarem questões que julgam não lhes dizerem respeito. Quem procedeu mal, e deve responder por isto, é a GNR. Ou, então, procedeu de acordo com o que a Lei lhe permite, é assim os procedimentos da qualidade. Averigúem.


fmart8. 10.02.2011 09:30 Via PÚBLICO
História estranha, quase sinistra
1 - Uma mulher morre e só um dos 14 vizinhos desconfia?
2 - A decomposição dos corpos não deitou cheiro?
3 - O cão, que estava na varanda, não ladrou incessantemente?
4 - As finanças leiloam a casa de uma pessoa por €30.000 por uma dívida de menos de €1500 (presumivelmente o IMI)?
5 - A diferença reverteria para quem? Não digam que é tudo lucro para as finanças porque nesse caso teríamos um Estado oficialmente ladrão!
Reporta-se uma pessoa como desaparecida. A GNR coça a barriga e o Tribunal não faz nada, mesmo depois da vizinha (uma idosa) ir lá várias vezes.
Mas afinal andamos a ser sodomizados com impostos para pagar «profissionais» destes?


Anónimo. 10.02.2011 10:15 Via PÚBLICO
Sistema da incompetência ...
... conveniente. As finanças, os tribunais e os solicitadores de execução são assim uma espécie de máfia constitucionalizada. São como abutres, cuidado com esta gente, são perigosos. Já agora cuidado também com as empresas de condomínios, são os principais informadores e regra geral tem empresas de leilões associadas.

Anónimo, lx. 10.02.2011
RE: Sistema da incompetência ...
Excelente conselho. Desconhecia que havia "panelinha" entre empresas de condomínios e leiloeiras. É sempre bom saber com o que contar!


reisa. 10.02.2011 11:46 Via PÚBLICO
Morte
Nesta terra onde os governantes estão mais preocupados com gays, é normal que os velhos não mereçam mais atenção, a vizinha contactou certas autoridades para alertar mas eles não ligaram nenhuma. Como classificá-los?

jbs, estremoz. 10.02.2011
RE: Morte
E a família, como classificá-la? Em Portugal todos culpamos o Estado de tudo, mesmo daquilo que é nossa responsabilidade. Não achas? A senhora tinha sobrinhos que até sabiam que tinha desaparecido. O que fizeram? A culpa é do Estado? Da Policia? Do Governo? Então explica-me qual o papel dos sobrinhos, são apenas irresponsáveis?

Vitor Martins, Portugal. 10.02.2011
RE: RE: Morte
Caríssimo: como apenas olha para um lado, recomendo-lhe uma panorâmica da situação. Conhece a família? Conhece o tipo de relacionamento que havia? Nem todos nós temos a mesma relação com familiares que outras pessoas. Nem todos nós temos o mesmo tipo de ligação afectiva, sentimental com os nossos familiares. Aliás, costuma-se dizer que não escolhemos a família e tal é referido quando há problemas de relacionamento.
A questão dos vizinhos é apenas um reflexo da nossa sociedade actual, pelo que aplaudo as excepções como a vizinha da senhora que faleceu há nove anos, que tentou fazer algo.
Considero muito mais grave a questão dos organismos públicos e a ausência de actuação da sua parte. Como é possível que, ao longo de praticamente 9 anos, ninguém reparou que as pensões não eram levantadas? Logo neste país. Está clara, nesta situação, a falha de alguém (seja individual, seja institucional, seja da Segurança Social, seja das autoridades).
Esta situação deveria envergonhar-nos... e envergonha-me, entristece-me.
Abraço


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A PIDE electrónica


A direcção da escola onde trabalho criou uma conta de correio electrónico para cada um dos professores, numa plataforma cedida pelo Google, e passou a enviar toda a documentação para esse endereço. Acolhemos a ideia com agrado porque nos permitia contactar todos os colegas, mesmo aqueles cujo endereço electrónico desconhecíamos.
Só a usava para troca de documentos de trabalho mas o texto dos e-mails, por vezes, continha observações menos ortodoxas sobre os assuntos tratados.

Recentemente recebi uma mensagem do Google, longa, em inglês, com vários links, um dos quais me enviou para uma página onde me avisavam que o administrador do sistema podia ler os e-mails. Com excepção dos docentes de inglês, poucos professores do ensino básico e secundário terão conhecimentos suficientes da língua inglesa para entenderem aquela mensagem.
Logo de seguida apareceu uma mensagem do administrador, que pertence ao grupo de compadrio da direcção (socialista), anunciando-nos que agora podíamos aceder a esta conta de correio electrónico como se de um vulgar gmail se tratasse, sem ser preciso entrar no site da escola, e que todas as mudanças tinham sido no sentido de passarmos a aceder a várias aplicações do Google. Nenhuma referência à possibilidade de poderem ler os e-mails.

Obviamente que o objectivo é levar os docentes a usarem habitualmente esta conta de correio electrónico para conhecerem o seu pensamento e contactos, a fim de prejudicarem a carreira, e eventualmente eliminarem, todos os que se rebelarem contra a formatação socialista.
Não tenhamos qualquer dúvida que estamos perante uma PIDE electrónica.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"O PS vai pagar caro os erros do actual primeiro-ministro"


Henrique Neto foi deputado do PS na VII legislatura (1995-1999), durante o primeiro governo de António Guterres, e é uma das vozes mais críticas, no interior do partido, da governação de José Sócrates e da falta de debate no partido.

Eis um excerto da sua entrevista de ontem ao jornal i:
Discutir, por exemplo, o número de deputados como um grande objectivo é ridículo. Do ponto de vista do custo é ridículo e o problema não é haver 230 deputados ou 180 deputados.
O problema é os deputados estarem lá e não fazerem nenhum. Não terem ideias, não terem propostas nem capacidade crítica. O problema é serem escolhidos pelas direcções partidárias em vez de serem escolhidos pelos eleitores, ou pelo menos pelos militantes dos partidos.


Os registos das sessões da Assembleia da República mostram que Henrique Neto cumpriu o seu dever de deputado, defendendo o desenvolvimento do distrito que o elegeu, em vez dos interesses partidários, e confrontando o governo de Guterres:

"22 DE JUNHO DE 1996
O Sr. Henrique Neto (PS): — Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, Sr. Secretário de Estado: Os Deputados do PS, eleitos pelo distrito de Leiria, pretendem, através desta pergunta ao Governo, defender o sistema ferroviário como uma forma moderna de transporte de pessoas e mercadorias e reivindicam, concretamente, a modernização da linha do Oeste, nomeadamente a sua electrificação e a construção da via dupla.
 As gentes do distrito de Leiria, na sua sabedoria simples, não compreendem e sentem-se revoltadas com o desamparo e o abandono a que a linha do Oeste foi votada. É que consideram que o comboio é a forma de transporte que melhor corresponde às suas necessidades, por razões de preço, de comodidade, de defesa do ambiente e, finalmente, porque coabitam diariamente com as notícias dos mortos e estropiados resultantes de acidentes nas estradas do distrito. 
Neste século, o distrito de Leiria cresceu e desenvolveu-se ao longo da via férrea que foi o eixo essencial do seu progresso e que atravessa o centro de quase todos os concelhos do distrito. É esta autêntica rede vital para o distrito de Leiria que se deixou morrer aos poucos até ao colapso actual: carruagens em que chove, horários «surrealistas» e não cumpridos, estações degradadas e ao abandono e um tempo de chegada variável, isto é, em que acontece tudo o que pode acontecer. Como transporte de mercadorias, a linha do Oeste limita-se a transportar cimento e já vai longe o tempo em que era o meio de transporte preferido para toneladas de vidro, de madeira e de combustíveis. Entretanto, apenas na Marinha Grande de hoje, três empresas vidreiras produzem 1300 toneladas de garrafas por dia, ou seja, entre 3 e 4 milhões de garrafas, o que significa dezenas de camiões diários a congestionar as estradas do País e da Europa.
 Recentemente, o distrito de Leiria foi atravessado pela auto-estrada, que é, supostamente, a nova via fundamental do distrito. Só que a A1 não tem ligação moderna a nenhuma sede de concelho, a nenhuma zona industrial, a nenhum porto de mar, a nada com interesse económico que exista no distrito. A auto-estrada A1 foi criada para ligar Lisboa ao Porto, ponto final!
 Esta «arrogância» da nova auto-estrada é um contraponto chocante à humanidade decadente representada pela velha linha do Oeste, mas é principalmente a arrogância de uma política de obras públicas desintegrada de qualquer estratégia de desenvolvimento, obras que representam apenas custos, sem contribuir significativamente para a criação de riqueza e competitividade da nossa economia. 
Por outro lado, representa o modelo típico. dos países subdesenvolvidos, porque em vez de se fazer a manutenção e a modernização dos equipamentos existentes, deixam-se ao abandono e fazem-se novos. Por esta e por outras é que somos pobres! 
Por nós, o caminho de ferro será o grande meio de transporte do século XXI, e para que tal aconteça nem sequer é necessário pensarmos nos novos supercondutores ou em comboios que circulam a 600 ou 800 km/hora. Basta ver o que acontece na Europa. O que é moderno é poder chegar a Lisboa numa hora, com todo o conforto e segurança, a ler o jornal ou a tomar o pequeno almoço, em vez de se gastar a mesma hora nos engarrafamentos das zonas urbanas das duas cidades.
 Modernidade é ainda antecipar a linha do Oeste como uma extensão do sistema de transportes da grande Lisboa do futuro, quando for uma rotina ir à praia a S. Martinho, à Nazaré, ou almoçar em Óbidos, a partir de qualquer ponto da Área Metropolitana de Lisboa, em apenas 45 minutos; modernidade é a criação de uma rede de transportes que sirva os cidadãos com conforto, bem como as empresas e a economia, em que o objectivo essencial seja promover a qualidade de vida das pessoas e a competitividade das empresas portuguesas no mundo.
O Sr. Presidente (João Amaral): — Queira concluir, Sr. Deputado.
O Orador: — Termino, Sr. Presidente, com uma pergunta simples: o que pensa o Governo fazer relativamente à linha do Oeste?
O Sr. Presidente (João Amaral): — Para responder, tem a palavra o Sr. Secretário de Estado dos Transportes.
O Sr. Secretário de Estado dos Transportes (Guilhermino Rodrigues): — Sr. Presidente, Sr. Deputado Henrique Neto, antes de responder à questão que me colocou, gostaria de enquadrar a intervenção que o Governo pensa fazer na linha do Oeste com alguma reflexão, ou seja, enquadrar a estratégia que vamos seguir com o que se tem passado nos últimos anos. 
Com efeito, ao longo dos últimos anos, tem havido uma quebra substancial do tráfego de passageiros na linha do Oeste, quebra essa que, nos últimos cinco anos, atinge os 12%. Esta situação deve-se, certamente, ao aumento da competitividade da rodovia em relação ao caminho de ferro. 
Por outro lado, relativamente ao tráfego de mercadorias na linha do Oeste, aí sim, verifica-se um aumento substancial, situado na ordem dos 40%.
 Ainda no que diz respeito aos passageiros, ao longo de toda a linha, há uma distribuição muito desequilibrada da procura, ou seja, existem tráfegos com alguma intensidade entre Lisboa e Torres Vedras e tráfegos relativamente diminutos entre Torres Vedras e Figueira da Foz. Pelo contrário, ao nível das mercadorias, os tráfegos crescem, fundamentalmente, entre Torres Vedras e a Figueira da Foz.
 Existem, portanto, duas estratégias de intervenção para a linha do Oeste: por um lado, nos troços entre Lisboa e Torres Vedras, será feita uma melhoria substancial ao nível do tráfego de passageiros, através da duplicação e electrificação da via, prevendo-se um investimento de 10 milhões de contos até ao ano 2000; por outro lado, nos troços entre Torres Vedras e Figueira da Foz, os investimentos serão destinados, muito mais, a potenciar esta linha como transporte de mercadorias, ou seja, entende-se que todo o desenvolvimento desta região pode ter como suporte o caminho de ferro e uma boa acessibilidade a este. Assim, está em estudo a sua ligação ao porto da Figueira da Foz e, ao mesmo tempo, vai tentar-se melhorar a sua inserção na Rede Ferroviária Nacional principal, isto é, a linha do Norte. Neste troço, estão em causa investimentos no valor de 2,7 milhões de contos, precisamente por causa do crescimento que se tem verificado, nos últimos anos, ao nível do tráfego de mercadorias, designadamente nas áreas do papel e das madeiras, bem como dos cimentos e dos cereais. No fundo, os investimentos serão canalizados, fundamentalmente, para criar uma maior acessibilidade à Rede Ferroviária Nacional e à zona portuária.
O Sr. Presidente (João Amaral): — Para pedir esclarecimentos ao Sr. Secretário de Estado dos Transportes, para além do Sr. Deputado Henrique Neto, inscreveram-se os Srs. Deputados Nuno Abecasis e Roleira Marinho. Tem a palavra o Sr. Deputado Henrique Neto, por dois minutos.
O Sr. Henrique Neto (PS): — Sr. Presidente, Sr. Secretário de Estado dos Transportes, devo confessar que o que me diz não é muito animador. A minha avó, que era uma senhora relativamente sábia, costumava dizer que só fica feito aquilo que se faz! Sei que é uma evidência, mas por vezes esquecemo-nos disso. O Sr. Secretário de Estado falou de algumas dificuldades, dificuldades essas que são conhecidas e que resultam do facto de não ter existido nenhum estudo sério sobre o que pode representar uma linha férrea moderna naquela região. A linha do Oeste é essencial para as pessoas do distrito de Leiria, mas é evidente que, em presença da degradação da via, as pessoas não a utilizam — faço o caminho entre a Marinha Grande e Lisboa três a quatro vezes por semana e, se existisse um caminho de ferro razoavelmente moderno, a última coisa que me passaria pela cabeça era vir de automóvel! É evidente que, como eu, há dezenas ou centenas de milhares de pessoas que também o fariam, pessoas essas que, sendo normalmente oriundas das classes médias ou médias-altas, são as que melhor podem pagar estes serviços. Portanto, do meu ponto de vista, a situação actual não serve de exemplo para coisa nenhuma. Penso que deve ser feito um estudo sério sobre esta questão que nos permita saber, para começar, quais as pessoas, as classes sociais que se deslocariam a Lisboa, à Figueira da Foz, às Caldas da Rainha ou a Torres Vedras, utilizando a via férrea, e quais as empresas com grandes movimentos de cargas que poderiam usar o caminho de ferro para o efeito. Posso dizer que, por exemplo, na garrafaria de que já falei existe o desejo de poder fazer o transporte das garrafas por caminho de ferro, porque seria um meio mais eficaz, mais barato, que não congestionaria as estradas e envolveria uma gestão e uma logística mais simples. 
A questão do desequilíbrio da procura é evidente, Sr. Secretário de Estado, porque as pessoas das classes médias, que possuem automóvel ou podem recorrer a outras alternativas, não utilizam a linha do Oeste, que é pré-histórica! Só as pessoas que não tem qualquer alternativa — e são muito poucas — é que o fazem.
 Creio que não podemos encarar este problema da linha férrea com uma lógica do passado, antes temos de perguntar qual vai ser a forma de transporte privilegiada do futuro e em que medida uma linha férrea moderna pode servir não só os habitantes da Área Metropolitana de Lisboa, que «passa a vida na ponte», sem alternativas de transporte para outros locais, como também todas as pessoas da região Oeste, da Alta Estremadura.
O Sr. Presidente (João Amaral): — Tem a palavra o Sr. Deputado Nuno Abecasis, que dispõe de um minuto para formular a sua pergunta.
O Sr. Nuno Abecasis (CDS-PP): — Sr. Presidente, Sr. Secretário de Estado dos Transportes, penso que a pergunta que o Sr. Deputado Henrique Neto aqui nos trouxe foi bastante oportuna, até porque é dificilmente explicável que se fale, com grande insistência, da necessidade de criar um corredor de transporte pesado entre Loures e Lisboa — que não se sabe muito bem por onde é que poderá penetrar em Lisboa... —, e nunca tenha ocorrido a ninguém que a linha do Oeste seria uma excelente alternativa, principalmente se fosse possível fazer a ligação de Loures não directamente a Lisboa, mas aumentando o hinterland da Linha do Oeste. Sr. Secretário de Estado, esta é uma ideia que pode ser criadora.
 De facto, também penso como o Sr. Deputado Henrique Neto: no dia em que circularem nos carris da linha do Oeste carros de bois vai ver que não passa lá ninguém! E o que se tem feito até agora é aproximar as carruagens dos carros de bois.
O Sr. Henrique Neto (PS): — É verdade!
"

Na entrevista de ontem o empresário defende que a única solução para o país passa pelo próximo congresso dos socialistas substituir José Sócrates por António José Seguro.
O ex-deputado alerta que, se reeleger José Sócrates, "o PS vai pagar caro os erros do actual primeiro-ministro" e corre o risco de ser empurrado para a oposição durante muitos anos.


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António José Seguro é um licenciado em Relações Internacionais por uma universidade privada irrelevante que se profissionalizou na política: secretário-geral da Juventude Socialista, entre 1990 e 1994 e deputado à Assembleia da República, eurodeputado ou membro do governo a partir de 1991. Talvez seja o melhor que por lá se consegue encontrar... Vejamos a opinão de alguns comentadores da notícia:

abx 08 Fevereiro 2011
O PS?
O PS vai pagar? Eu quero que o PS se dane. Estou preocupado é com Portugal e os portugueses. Comecem a pensar pela própria cabeça e estabeleçam paralelismos com a I República.

ABemDaNacao 08 Fevereiro 2011
Uma chapelada ao Henrique Neto!
Que seguramente não pertence à geração "tão parva que eu sou".
Para mal dos nossos pecados, quase tudo o que este senhor diz é a mais crua verdade. Apenas não concordo quando diz que o que o José Sócrates faz é quase sempre errado. Eu diria que é exactamente ao contrário, é quase sempre certo, mas não genuinamente na lógica do beneficio dos cidadãos, da sociedade e da economia.
Sabemos que a democracia ainda é o melhor dos sistemas mas não é um sistema perfeito. A pergunta que fica para reflexão é: como podemos prevenir que líderes com este tipo de perfil e padrão de valores possam chegar a ocupar as posições de PM ou de PR (no caso actual, infelizmente, não muito diferente, embora em estilo algo distanciado do outro)?

HectorX 08 Fevereiro 2011
PS e oposição interna
É importante que se conheça que há vozes internas que pensam e propõem alterações no PS. Este partido está tomado pelo "aparelho" e dificilmente Assis, Lelos, Almeidas, etc e associados em simbiose e que se aproveitam das regalias do partido e do Estado vão permitir alterações. Seja como for, parece também ser estranho que apenas agora, na desgraça, apareçam os "coveiros" e infelizmente num tom pessoalista e fulanizado o que, para pessoas sérias, parece tratar-se de vendita. Temos muitos que querem fazer política, e poucos que tenham qualificação, e tal passa transversalmente por todos os partidos.

Olisipone 08 Fevereiro 2011
Mediocridade e servilismo
Pelos comentários se vê que há aqui muitos adeptos do Sócrates e muita gente desonesta, que se deve ter estado a servir bem nestes anos de desgoverno PS e que continua a tentar aproveitar-se.

Manelze 08 Fevereiro 2011
Sem partido, clube ou religião
E não gosto do Socas nem com molho de tomate. Parece-me aquele sujeito que está nas feiras a vender aquelas pomadas que dão para todas as doenças. Estou nas tintas para o PS, BE, PSD, PCP. São todos tão iguais que só se nota diferença no fato de macaco que albergam quando estão à manjedoura. Estou nas tintas para as ditaduras internas de cada partido. Ninguém anda lá por obrigação.
Mas, uma coisa é certa. A senhora Merkel está a ditar as ordens e o Socas está a cumpri-las na íntegra. Portugal parece um animal de matilha, "tem que ter um líder". Que Portugal tenha proveitos.

Observador-JF 08 Fevereiro 2011
É tempo de clarificar posições
Não concordo com tudo o que Sócrates tem feito, mas temos que reconhecer, primeiro, que ele tem feito muita coisa, e muita coisa boa, e tem demonstrado muita coragem e determinação na governação do País.
As oposições dos outros partidos, se acham que sabem e podem fazer melhor, devem apresentar a tal anunciada moção de censura o mais breve possível.
As oposições internas no seio do PS, se existem, que avancem e vão a votos já para o mês que vem.
Se uns e outros o não fizerem, e até por uma questão patriótica, deixem governar quem foi eleito para o fazer. E não dificultem ainda mais a governação nestes tempos de crise internacional em que vivemos.

ABemDaNacao 08 Fevereiro 2011
Não concordo com a tese de que mais vale ...
... termos um ditador manipulador que nos conduziu até onde hoje estamos, porque fala bem e fica bem no boneco, do que termos sabe-se lá o quê.
Certo que a situação actual não começa com o PS de Sócrates, começa bem lá mais atrás, com o Sr. que hoje se instalou em Belém.
Espero que os Portugueses abram bem os olhinhos e que não se ponham com maiorias absolutas, que degeneram no que se sabe, mas sim que obriguem os partidos a encontrar compromissos e equilíbrios na AR. Parece-me a única via para refrear a sofreguidão, voracidade, agressividade e intolerância de quem está dentro e para além dos aparelhos partidários, a qual está, aliás, bem retratada em alguns dos comentários aqui deixados...

partidocracia 08 Fevereiro 2011 - 22:53
Vencedores antecipados
Os partidos nunca deviam ter o poder de impor aos eleitores a ordem pela qual os lugares de deputado são atribuídos aos membros da lista.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"Esperança"


"08 Fevereiro 2011, 12:20 por Paulo Pinho

O principal problema económico português não é o défice público, nem o externo.

Nem tão pouco o desemprego, ou mesmo a falta de qualificação da mão-de-obra. Nem sequer a situação de descapitalização e falta de liquidez do sector financeiro e consequente "desalavancagem", eufemismo encontrado para denominar o processo de contracção de crédito e logo do investimento pelo qual a economia está a passar. O nosso verdadeiro problema, espelhado pela ausência de indignação face à situação actual, pela evidente atitude de resignação, pelo espírito pessimista dominante na população e agentes económicos, consiste, afinal, numa profunda ausência de esperança em relação ao futuro.

A economia faz-se de expectativas. Tendo os portugueses perdido a esperança no futuro, actuam em conformidade. Não investindo. Poupando em vez de consumir. Quem tem recursos aplica-os em activos externos. Quem tem mobilidade opta por sair. Hoje, temos uma emigração dual, onde o peso dos qualificados é crescente. Os imigrantes regressam aos países de origem.
O estado geral dos agentes económicos é depressivo. Assim não há economia que cresça, por muito que o marketing propagandístico oficial nos tente vender a imagem de um país virtual que a generalidade dos cidadãos não reconhece.

A agora famosa canção dos Deolinda é, em si mesmo, exemplar: uma geração a quem o poder deixou o encargo de trabalhar uma vida inteira para apagar as dívidas da irresponsabilidade passada protesta em canto. Mas ainda não se revoltou. Esta é a geração dos que estudaram "para ser escravos". Mas como por cá não os escravizam, não lhes dando emprego, tentam emigrar. Se o fizerem, ganham mais na escravidão e escapam a pagar as dívidas da geração anterior. Esta paga o preço da sua irresponsabilidade ficando sem pensão decente. Perante tal perspectiva, não há optimismo que resista. Para nenhuma das gerações.

Perante o pessimismo, a população olha para o poder, como o sempre fez durante séculos. Acreditamos que será sempre do Estado que virá a salvação. Mas não vale a pena ter ilusões. Durante a maior parte desta década, o Estado estará demasiado ocupado a reorganizar-se, a redefinir as suas funções, a reduzir a despesa e a dívida e a diminuir o fardo que a todos impõe via maiores impostos e menores benefícios sociais. Não será, seguramente, através da despesa pública que a economia será relançada, ainda que essa fosse uma forma eficaz de o fazer.

Inverter o pessimismo das expectativas vai depender do aparecimento de uma figura com efectivas capacidades de transmitir optimismo através de uma liderança inspiracional. Sebastianismos à parte, até pode ser que tal figura surja no meio político. Mas duvido de que o Estado, com os problemas urgentes que terá de enfrentar, tenha meios para formular, comunicar, liderar e implementar um verdadeiro processo de reformulação estratégica do País, em geral, e da economia, em particular. Mas não percamos a esperança.

É altura de deixarmos de olhar para o Estado como líder da economia e da sociedade. O modelo está esgotado e conduziu-nos onde agora estamos. A economia, para dar o salto, necessita de se libertar dessa relação simbiótica com o(s) poder(es) político(s) e fazer valer-se por si mesma. O crescimento da economia terá de passar a ser liderado pelo sector empresarial. Necessitamos, enquanto Nação, de ver umas quantas empresas assumir a liderança do processo de modernização e inovação empresariais. E por arrastamento, do País. Precisamos mais de Nokias e Zaras do que de discursos políticos. Infelizmente, uma boa parte — mas não toda — das grandes empresas nacionais habituou-se em demasia a viver à mesa do Estado e do Orçamento. Por isso, também aqui há razões para pessimismo. As excepções, os poucos que até em público ousam criticar o omnipotente Estado, estão entre aqueles que maior sucesso atingiram no exterior. Não sendo estado-dependentes, estão habituados a suceder por mérito próprio, contra a concorrência agressiva dos actores internacionais. É esta a nossa última esperança. Mas se a estas empresas e suas lideranças forem negados os meios para investir e actuar, no contexto do propalado "processo de desalavancagem" resultante da actuação incompetente do Estado, então não haverá qualquer perspectiva de esperança para a economia nacional. Não será uma nova década perdida: serão várias gerações perdidas.

Professor da Universidade Nova de Lisboa"


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Recordar "A Pátria"


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, ― reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;
(...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro;
(...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, ― como da roda duma lotaria;

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;

Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, ― de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar;
(...)
Uma geração nova das escolas, entusiasta, irreverente, revolucionária, destinada, porém, como as anteriores, viva maré dum instante, a refluir anódina e apática ao charco das conveniências e dos interesses, dela restando apenas, isolados, meia dúzia de homens inflexos e direitos, indemnes à podridão contagiosa pela vacina orgânica dum carácter moral excepcionalíssimo;

E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em fórmulas banais e populares, ― tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra, etc. etc., ― teremos em sintético esboço a fisionomia da nacionalidade portuguesa (...).
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Guerra Junqueiro, in "A Pátria", 1896


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tribunal Administrativo permite acesso de juízes aos gastos de dois ministérios


O Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa já deferiu parcialmente duas das 17 acções interpostas pela Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) que requerem o acesso a documentos relacionados com os gastos dos ministérios.

Os magistrados interpuseram estas acções para acederem aos documentos relativos ao pagamento de telefones pessoais, ajudas de custo, despesas de representação ou cartões de crédito dos 16 ministros e da Presidência do Conselho de Ministros.
Nos requerimentos solicitam fotocópias das resoluções do Conselho de Ministros desde 2009, ano em que o Governo tomou posse, que autorizam a atribuição de cartões de crédito e de telemóveis a membros do Governo.
Requereram também fotocópias de documentos de pagamento das despesas de representação e dos subsídios de residência de todos os ministros e dos seus chefes de gabinete.

Trata-se de documentos administrativos, logo o acesso está previsto por lei e, além disso, as informações são necessárias para a negociação com o Ministério da Justiça relativamente à sua situação, alegaram os juízes que, em consequência das reduções salariais, são afectados com cortes de 20% no subsídio de renda de casa.

Segundo os responsáveis ministeriais, todas aquelas despesas estão previstas na lei e nos Orçamentos de Estado.
O Ministério da Justiça, em particular, considerou na sua contestação que o requerimento da associação de juízes é "abusivo e desproporcionado".
Em nota divulgada publicamente afirma que "baliza a sua actividade pela regra da transparência constitucional e legalmente definida" e acrescenta ter "apresentado as informações e documentos solicitados no âmbito da negociação que decorreu com as Associações do sector da Justiça, no âmbito dos trabalhos preparatórios da proposta de Lei que altera o Estatuto dos Magistrados".

As duas acções que já obtiveram resposta dizem respeito às despesas dos ministérios da Saúde e das Finanças, tendo este recorrido da decisão. Como o Tribunal Administrativo determina que alguns documentos podem ser consultados, mas outros não, a associação dos juízes também recorreu relativamente à proibição de aceder a alguns documentos.


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Luís Lima Aires, Lisboa. 04.02.2011 17:27
Verdades e mentiras
Os juízes tiveram cortes iguais a toda a gente no orçamento de estado. A alteração do estatuto era um corte adicional que aproximaria dos 30% líquidos, superior a qualquer político, gestor, etc.
E, pior que isso tudo, implicaria que o vencimento fosse fixado anualmente por portaria. Quer juízes com esta limitação? Eu, enquanto advogado que depende dos juízes para corrigirem acções de confisco do Estado, não quero.
Gosto de ver os assessores do governo a fazerem comentários contra esta notícia, isso é medo do que se virá a descobrir?


J. Aquilino, Lisboa. 04.02.2011 18:17
Tribunal Administrativo
Oxalá isto não seja apenas fogo de vista. Os gastos dos políticos (e não só) têm que ser controlados. E não apenas os dos ministérios da Saúde e das Finanças. Toda a gente sabe que se gasta "à barba longa" e nós povo, ou "cidadãos" como agora se diz, é que pagamos. Força! Não desistam!


Teolindo. 04.02.2011 18:33 Via PÚBLICO
Mas que gente é esta?
Ajudas de custo, telemóveis, cartões de crédito, mas o que é isto? Quem autorizou estas leviandades tem que ser responsabilizado civil e criminalmente.
Foram e são habilidades de charlatães, que se apossaram do nosso dinheiro, como se fosse deles, de autênticos escroques, que conspurcam o nosso futuro como país.
Seja quem for, tem toda a autoridade e legitimidade para verificar como é que o nosso dinheiro está a ser gasto, porque está em jogo o nosso futuro democrático e não uma simples questão legal.